Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Música 20.04.2010 20.04.2010

Teresa Cristina, além da Lapa

Por Bruno Dorigatti
Fotos de divulgação

> Assista a entrevista exclusiva de Teresa Cristina ao SaraivaConteúdo 

“”A mulher, no samba, é leviana, mascarada. Ela é o cão, ocapeta. Já o homem não peca, é essa pessoa que nasceu pra sofrer, cai na mão deuma mulher malvada e aí sofre de amor porque essa mulher não tem coração. Entãotodas as mulheres no samba são assim: a razão da dor de cotovelo.”” A cantora do subúrbio do Rio de Janeiro cita dois sambas de Zé Keti para falar dos sambas de ontem, universo machista, aliás, como a nossa sociedade.

Depois de quatro discos, o primeiro deles duplo e dedicado integralmente ao repertório de Paulinho da Viola, Teresa Cristina não nega os sambas antigos, mas lembra que os tempos são outros. Para o samba e para a sua música. Melhor assim, registro ao vivo que chega agora em CD e DVD, inclui canções da velha guarda, sambas novos, além de dialogar com outros compositores, como Lula Queiroga, Edu Lobo e Chico Buarque, Caetano e Vinicius e Tom. Para cantar com ela, além de Marisa, Seu Jorge, Caetano, Lenine, Arlindo Cruz e sua mãe Dona Hilda [na foto abaixo, com a filha].

Destaque para a música inédita de Adriana Calcanhotto “”Beijo sem””, que Teresa interpretada junto com Marisa Monte, para quem a canção havia sido composto. “”A Adriana jáparte dessa mulher independente, que já começa sem o amor. Acho sensacionalisso. Porque não tem essa coisa de ficar lamentando o que perdeu. Ela não quersaber o que aconteceu no passado. ‘Eu não sou mais quem você/ Deixou, amor…’ E depois avança: ‘Eu não sou mais quem você/ Deixou de ver’. E tudo sem culpa. Essa coisa de ‘Vou à Lapadecotada/ Viro todas, beijo bem’. Ninguém está interessado em saber o que essamulher é. Mas ela se diverte, sabe? E tem essa coisa do decotada e perfumada, éuma mulher que gosta de si própria””, explica Teresa, em entrevista exclusiva ao SaraivaConteúdo

“”Quando falei à Marisa que gostaria de gravar e ela falou namesma hora para que gravasse, achei tão generoso, repentino.  Ela falou, ‘Claro, grava’. Aí eu pedi, ‘Gravacomigo?’ Aí ela, ‘Tá!’. E se pudesse, gravava no dia seguinte, com medo de elase arrepender””, conta.  Mas Marisa não se arrependeu e participa de um dos momentos altos do novo trabalho da amiga.

E foi esse gás que Teresa precisava para o novo disco, depois da gravidez que a deixou recolhida em casa. “”A música inédita da Adriana,Marisa gravando comigo. Isso deu um gás, chamei o Caetano, o Seu Jorge. Foi um atogeneroso que resultou numa ação maravilhosa. Porque me deu um gás que estavaprecisando para esse trabalho novo. Tem músicas novas e outras inéditas que nãosão minhas.”” 

Além disso, ela queria sair desse lugar, de ficar falando sempre da Lapa. “”Adoro a Lapa, não tenho nada contra, inclusive não quero fugir dela, como meperguntaram dia desses. Não quero fugir de nada. Só não quero ficar no mesmolugar. Poder gravar a Adriana dá um frescor para essa história que já existe deLapa, do samba tradicional, da Velha Guarda da Portela, que são coisas queestão na minha vida para ficar, mas nem por isso vou ter que estar semprepincelando””, explica Teresa, fã de Iron Meiden, Mike Patton e do Vasco da Gama. 

Essa vinculação e livre associação a que Teresa se refere sempre corre o risco dos estereótipos. “”Quando comecei a perceber que esse lugar não estava meagradando, eu falei ‘Peraí’. Sabe o que estava acontecendo? O meu nomevinculado sempre ao samba, samba tradicional, Lapa, vestido florido comprido,pessoa tímida e recatada. ‘A favor da moral e dos bons costumes’, só faltavaisso.

“”Não gosto de só ter um assunto, porque quando ele seesgotar, vou falar do quê? Tenho mede de ficar sem assunto musical, voltandopara o mesmo lugar””, e aí podemos perceber o porque de algumas mudanças, ainda que discretas em seu repertório. 

Esse novo disco chega em um momento de outras mudanças na vida dessa suburbana de Bonsucesso, criada na Vila da Penha. Ela deixou Copacabana para voltar à Vila da Penha, ao subúrbio, perto da família e de sua mãe. 

O início 

A sua vida, musicalmente falando, ela divide em aC e dC, antes de Candeia edepois de Candeia. “”Porque tudo mudou. Conheci Candeia com 7, 8 anos, quando só ouvia disco music, Donna Summer, Barry White. Eu ria e debochava do meu paiouvindo Candeia. Com 25 anos, ouvi esse disco de novo e tive um choque. Ele émuito bom, eu era uma completa idiota de ouvir isso e achar que não era nadadisso. Fui pesquisar sobre ele, o que me jogou num universo novo e completamentediferente da minha realidade naquela época””, recorda. 

Conheceu a Velha Guarda da Portela e ficou chocada com asimplicidade e a diferença do que eu achava ser um artista. Nessa época, entrou em contato com WilsonMoreira, Monarco, já dava canja nos shows da Velha Guarda, quando foi chamada paracantar no bar Semente, na Lapa carioca, antes do processo de revitalização pelo qual o o boêmio bar vem passando. “”Quando vi já estava na Lapa, que era um lugar deserto naépoca [1999, 2000] cantando Candeia, Paulinho da Viola, Noel Rosa, BethCarvalho, Clara Nunes.”” 

Nessa época, Teresa já compunha, e achava que seu primeiro registro seria um discoindependente com músicas próprias. Mas o diretor daDeckdisc sugeriu um disco só de Paulinho da Viola e ela ficou exultante ao poder gravar o ídolo. 

 

Manicure, secretária,vistoriadora do Detran 

Cantar ela cantava no chuveiro, fazendo faxina. “É um canto que todo mundo tem, aquele que ninguém vê”. Foi manicure dos 13 aos 25. Aos 18, foi secretária, depoisvendedora. Largou tudo para trabalhar no DCE da Uerj, quando entrou para o movimentoestudantil. Na Uerj, ajudou a montar uma rádio pirata, o primeiro contato com amúsica, mas longe do samba. Teresa era do rock, ouvia muito Iron Meiden e VanHalen, ela conta.

Logo depois da rádio apareceu um estágio no Detran, onde faziavistoria de segunda a sexta. E aos sábados começou a cantar na Lapa. Em 1999,foi demitida. O mundo caiu, junto com a fonte de renda. E ela resolveuencarar a música e o canto. “O couvert era cinco reais, mas o dinheiroaparecia. O Semente era pequeno, 100 pessoas lá enchia. E foi crescendo, juntocom a Lapa, aí cantava quinta, sexta e sábado, meu trabalho era esse. Masfiquei com medo que fosse algo temporário também.”” 

Foi quando resolveu começar a compor, onde poderia ter uma vida maislonga que no canto somente, acreditava. “Num país como o Brasil achei muita cara de pau euchegar com 30 anos e falar ‘Ah, eu sou cantora’, diante de uma Nana Caymmi, umaGal Costa”. 

Falando em nomes consagrados de nosso cancioneiro, Teresa afirma ser tiete e n’ao se envergonhar por conta disso. “”Para mim, ver artista não é normal. Carioca tem uma coisablasé, e eu não sou assim. Deve ser porque não nasci na zona sul, mas eu nãosei andar na praia e fingir que não vê o Chico Buarque. [risos] Eu pago mico,fico nervosa””, revela. 

Quando foi cantar com Caetano, no show Obra em Progresso, falou: “Mãe, olha eu aqui nopalco”. “”Nessas horas é bom você sonhar, porque quando o sonho se realiza vocêquer morrer de alegria””, diz. 

E recentemente ela viveu momento desses.  Como já disse, Teresa é fã de heavy metal  e rock n’ roll. Foi ao show do Faith no More no final de 2009, ela que sempre foi muito fã do vocalista MikePatton. “”Fui convidada a ir no camarim, antes do show. Imaginei que elefosse muito louco. Aí sai o cara de banho tomado, todo arrumado cabelo molhado. ‘Hello! Eu gosto muito da sua voz’, ele me disse. Cara, esse texto é meu! Não tomao meu lugar, não. Porque não dá para Mike Patton falar isso, aí a vida está todaerrada. Ele reacendeu o monstro que estava dentro de mim desde o Rock in Rio 2,quando fui vê-lo no Maracanã. Fiquei uma semana sonhando com ele. Meu deus, elefalou que conhecia a minha voz, que voltas que o mundo dá!””, finaliza ela, matreira e sincera, e ainda sem entender muito que ela também já faz parte, do outro lado do espelho, desse universo onde habitam ídolos e tietes.

> Confira o site da cantora e compositora

> Teresa Cristina na Saraiva.com.br

> Assista à entrevista exclusiva de Teresa Cristina ao SaraivaConteúdo


Recomendamos para você