Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 15.08.2014 15.08.2014

Tec, um artista entre o ateliê e a rua

Por Andréia Martins
Depois de montar a sua primeira exposição individual em São Paulo, em 2013, na Choque Cultural, o artista argentino Tec, 39, repete o feito. Agora, ele retorna à galeria para mostrar, além de telas e fotografias de suas intervenções na rua, esculturas em formato de peixes flutuando pelo espaço – é essa a sensação que ele quer provocar no visitante. Por isso, o nome escolhido para a mostra foi “Swimming Pool” (em cartaz até 6 de setembro, na galeria Choque Cultural, em São Paulo).
“Acho que nesta exposição o público pode conhecer mais o dia a dia do artista no ateliê, pois tem as telas, trabalhos que foram amadurecendo com o tempo. O trabalho na rua é mais rápido. Se eu tivesse mais tempo, poderia fazer o mesmo que você vê nas telas na rua”, diz ele em entrevista ao SaraivaConteúdo.
Nascido em Córdoba, na Argentina, Tec (ele não divulga seu verdadeiro nome) logo foi para Buenos Aires. Lá, começou a pintar nas ruas para divulgar sua banda de rock pelos muros da cidade. Aos 15 anos, só o que pintava nas paredes era o nome do grupo, Ocote – que não durou muito, pois, como diz Tec, “ele era muito ruim”. Mas Tec logo tomou gosto pela arte.
Há pouco mais de dois anos se mudou de vez para São Paulo, o que lhe deu uma nova visão da arte de rua, embora continue criando suas pinturas de acrílicas sobre telas e cerâmicas em seu ateliê. Nas telas, desenhos que remetem à cidade, à música, trazem peixes (figuras não raras em seus trabalhos), entre outros.
A ‘Bandeira da Alegria’, usada na abertura da Copa do Mundo de 2014, criação de Tec e Speto
Os peixes de cerâmica suspensos dão a noção de que estão flutuando, na exposição Swimming Pool
“A arte de rua de Buenos Aires é diferente. Lá, as pessoas podem intervir na sua obra. Isso faz com que elas sejam alteradas, às vezes apagadas e algumas de suas partes usadas em uma nova obra. Aqui não, alterar um trabalho não é bem visto. Nas minhas telas, eu apago, pinto de novo, trazendo essa característica das ruas argentinas para o meu trabalho”, afirma.
Em 2011, seus trabalhos chegaram ao Brasil na mostra “De Dentro e de Fora”, no Masp, com outros artistas argentinos. Depois veio outra coletiva, “BS AS”, em 2012, na Choque Cultural. Em 2013, a mesma galeria apresentou a primeira mostra individual do artista, “Como Conseguir Tintas”.
Na abertura da Copa do Mundo de 2014, era dele e do artista brasileiro Speto a “bandeira da alegria” que cobriu o gramado durante a apresentação. O trabalho pintou após uma indicação de Speto, e para um apaixonado por futebol – que prefere Maradona e Messi ou Neymar –, foi um trabalho divertido e longo, feito a quatro mãos entre agosto de 2013 e janeiro deste ano.
Sobre a mudança para São Paulo, Tec conta que foi motivado pelo bom momento que o mercado da arte urbana vive. Como sempre houve uma boa interação entre artistas das duas capitais (a argentina e a paulista), ele veio a São Paulo para executar diferentes trabalhos muito antes de se mudar para o Brasil.
“Em Buenos Aires também não há um mercado forte de arte. Então, o menino que pinta muros na rua não sabe que pode conseguir viver disso”, conta ele. Artisticamente, ele diz que a mudança foi “360 graus”. Além do hábito de não alterar o trabalho de outros artistas, a dinâmica da rua na capital paulista é outra.
“A polícia daqui é mais forte. Em Buenos Aires é mais light. Se um policial vê você pintando ou grafitando, ele pergunta o que você está fazendo, se você é artista, bate um papo e até pode pedir para você parar. Aqui, como tem a pichação, tem o problema da invasão de propriedade privada e outras coisas que dificultam o trabalho. A rua em São Paulo é muito hostil para o artista”, admite.
Pintura feita na fachada de um estabelecimento no Brooklyn, em Nova York
Mesmo assim, o artista argentino conseguiu realizar algumas das mais conhecidas intervenções feitas nas ruas paulistanas, como “Ratão” e “Lagartixa”, no bairro de Perdizes, um peixe na rua João Moura e uma figura humana na Avenida Paulista. A “Lagartixa” chegou a ter parte apagada a pedido de um morador de um prédio localizado na rua onde Tec havia executado o trabalho, alegando que era uma “pintura diabólica”.
“Gosto de sair do centro da cidade. Pintar no interior do Estado, na periferia de São Paulo, é mais tranquilo. A função da arte de rua é justamente revitalizar a rua, dar movimento, mas tem bairros e bairros. Em uns, o trabalho é visto como supercool, legal; em outros, as pessoas não curtem tanto”.
Intercalando trabalhos no Brasil, Argentina e Europa, Tec agora entra no ritmo de produzir novas peças, pensando na próxima exposição, que em São Paulo deve acontecer em 2015, já que ele realiza uma mostra por ano na galeria, mas sem saber sobre o que será.
“Tenho amigos que trabalham com cinema e gosto do conceito de filmar 20 horas e depois editar um filme que vai ter uma hora. É o que acontece com a gente. Voltamos a produzir e produzir durante um ano inteiro, para na hora de expor fazer uma edição, uma seleção do que entra. Mas isso só é possível se você tem um bom volume de produção”, ressalta.
Arte de Tec na Rua João Moura com a Avenida Sumaré, em São Paulo
Esqueleto desenhado por Tec na Rua Bartira, em Perdizes, São Paulo
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