Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 28.10.2011 28.10.2011

“Tancredo é exemplo para juventude descrente na política”, diz Silvio Tendler sobre novo filme

Por Andréia Silva
Na foto, o cineasta Silvio Tendler
 
O ano era 1985. Momento chave para a história política brasileira, de transição da ditadura para um regime democrático. Todos se preparavam para a posse de Tancredo Neves, então eleito presidente pelo voto indireto. Mas a posse não aconteceu.
 
Quem estava lá como único veículo da imprensa com acesso aos bastidores era o cineasta Silvio Tendler, que logo percebeu estar diante daquele que se tornaria um dos capítulos mais curiosos e mal explicados da história do Brasil. Mais de vinte anos depois, Tendler reconta o episódio no documentário Tancredo, a Travessia, seguindo a marca de suas produções, de resgatar a memória brasileira.
 
 
 
 
“O que torna esse capítulo da história brasileira interessante é a riqueza do personagem de Tancredo, que nunca abriu mão dos seus princípios”, diz Tendler ao SaraivaConteúdo.
 
Em tom ficcional e documental, Tendler procura assinalar não só a fibra de um homem sutil, mas também negociador e defensor da democracia, aliado irredutível do ex-presidente Getúlio Vargas, suas relações políticas antes da eleição, a votação – na qual o PT se absteve – e a série de dúvidas que pairaram no ar com relação ao que impediu que ele assumisse o poder.
“No dia da posse, quando foi anunciado que ele não assumiria, e sim Sarney, todo o cerimonial foi cumprido como se nada tivesse acontecido”, relembra o cineasta. “Agora, o filme é muito completo e responde a todas as dúvidas sobre o que realmente aconteceu”.
 
Cena de Tancredo, a Travessia
Entre esses momentos duvidosos estão a sucessão de erros médicos e a tentativa de esconder a gravidade do estado de saúde do ex-presidente antes que ele pudesse tomar posse. Tancredo viria a morrer em 21 de abril de 1985, depois de sete operações no Incor, em São Paulo.
Para conduzir a história, o filme utiliza muitas imagens de arquivo e tem como fio condutor os depoimentos de personagens, a maioria políticos, como Fernando Henrique Cardoso, Aécio Neves (neto de Tancredo), José Serra, Jarbas Vasconcelos, Fernando Lira, Almino Afonso, José Sarney (vice de Tancredo), o general Leônidas Pires Gonçalves e os músicos Milton Nascimento e Fafá de Belém, entre outros. Críticas ao ex-presidente não ganham espaço no filme.
O cineasta destaca que o lado ético de Tancredo é um dos pontos altos da história e que, por isso, para ele, o filme vem em bom momento. “Me chama a atenção a perseverança de Tancredo, que esperou mais de 20 anos para mudar o país, enquanto hoje tantos jovens estão descrentes com a política. Nesse sentido, Tancredo pode ser um bom exemplo para esses jovens, chamados de indignados, que estão protestando em todo o mundo”.
Trilogia política
A dedicação a outros projetos e o custo do filme contribuíram para a demora na finalização. Mas Tendler está animado com o resultado. Ele, que já documentou a vida de outros dois importantes políticos nacionais, Jango e Juscelino Kubitschek, diz que a trilogia não foi uma ideia pensada. “Foi resultado da minha parceria com Deus”, brinca o cineasta.
 
Os documentários Jango (1984) e Anos JK (1980), são duas das três maiores bilheterias do gênero no Brasil, com 1 milhão de espectadores e 800 mil, respectivamente.
 
Agora, Tendler se dedica a três outras produções: um filme sobre os advogados contra a ditadura, um documentário baseado no poema “Sujo”, de Ferreira Gullar, e uma adaptação para o cinema do livro Alma Imoral, que já foi adaptado para o teatro. Quanto ao tempo, ele promete finalizar os projetos em menos de 20 anos. “Agora que eu estou na reta final, preciso correr para deixar uma obra bonita”, diz o cineasta.
 
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