Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo HQ 15.05.2014 15.05.2014

Suíço Frederik Peeters fala da sua nova HQ, ‘Aâma’

Por Andréia Martins
Frederik Peeters ainda não é tão conhecido quanto deveria no Brasil. São do autor e ilustrador suíço algumas das mais interessantes graphic novels publicadas na Europa. Por aqui, teve dois livros lançados sem muito alarde: Comprimidos Azuis (Devir) e Castelo de Areia (Tordesilhas), este com texto de Pierre-Oscar Lévy.
Comprimidos Azuis foi o grande sucesso de estreia de Peeters, em 2004, e que se deve, em parte, à sua capacidade de transformar uma história pesada em algo leve – dentro do possível.
A HQ, vencedora do prêmio Angoulême, o mais importante dos quadrinhos na França, fala sobre o encontro de um menino e de uma menina. Eles se gostam, e logo descobrem um obstáculo: ela é soropositivo. Isso de fato aconteceu com o suíço, que hoje vive com a mulher – a mesma da história- e dois filhos.
Na sequência ele lançou Lupus, uma história de ficção científica dividida em quatro volumes publicados entre 2005 e 2007. Já a HQ feita em parceria com Lévy conta a história de três famílias que se encontram por acaso em uma praia e não conseguem sair dela. Um prato cheio para quem gosta de tramas com um ‘que’ de Lost.
Agora Peeters lança Aâma – O Cheiro da Poeira Quente (Nemo), primeiro volume de uma tetralogia. O protagonista Verloc Nim acorda com amnésia num planeta inóspito e deserto, acompanhado apenas do gorila-robô Churchill, que lhe entrega um diário, escrito pelo próprio Verloc nos últimos dias antes de perder a memória. A partir daí, o leitor redescobre os últimos passos de Verloc, de seu irmão, a ex-mulher, da filha distante e outras questões pessoais.
A história mergulha em temas como drogas futuristas e modificações genéticas, em meio a uma sociedade dependente dos mais variados aparatos robóticos e biotecnológicos.
Na entrevista abaixo, Peeters falou um pouco mais sobre seu novo trabalho, ainda em fase de finalização.
O que o levou a apostar novamente numa história de ficção-científica?
Frederick Peeters. Desde Lupus e Comprimidos Azuis tenho o costume de basear uma grande parte de meu trabalho na improvisação. Gosto de deixar buracos no roteiro para permitir que minha imaginação flua livremente à medida que vou desenhando. E a ficção científica é o gênero em que me sinto mais livre e confortável para viajar em minhas visões interiores. Além disso, no caso de Aâma, eu também tinha vontade de refletir sobre os laços complexos que ligam o humano a uma tecnologia da informação que está em vias de ultrapassá-lo e transformá-lo. Logo essa tecnologia entrará em nossos corpos, e eu queria pensar poeticamente nesta questão: “o homem aumentado é um homem diminuído?”.
A história traz três personagens principais: Verloc, seu irmão Conrad e o robô-macaco Churchill. Quando começou a pensar nessa história, qual nasceu primeiro?
Frederick. Churchill. Tudo começou com ele, antes mesmo de ter a menor ideia do roteiro. Um dia encontrei um brinquedinho de plástico muito feio, em forma de gorila, numa gaveta de brinquedos de minha filha. Sem refletir, levei-o para o meu escritório e o desenhei algumas vezes em meu caderno de esboços. Primeiro o batizei de Raymond, até que um dia colei um charuto em sua boca e ele automaticamente passou a se chamar Churchill. Tornou-se um robô guarda-costas e, muito rápido, todos os elementos da história e todos os personagens se aglomeraram ao redor dele como ao redor de um sol. Todas as etapas de Aâma, inclusive o nascimento de Churchill, estão contadas no blog.
O universo que você desenha e descreve em Aâma não parece fácil para qualquer tipo de pessoa. Quem tem mais chances de sobreviver nesse mundo futuro que a HQ supõe?
Frederick. Não sei responder. Os futurólogos, através das eras, sempre se enganaram tentando prever o porvir. Só tenho certeza de duas coisas. A primeira, o humano está cavando sua própria cova ao destruir o único planeta que tem a seu dispor, por conforto e estupidez. Segundo, penso que há uma verdadeira guerra de classes em escala mundial e que uma ínfima minoria de super-ricos, afastados da realidade, está fazendo de tudo para confiscar os recursos naturais e as riquezas materiais em detrimento da maioria da população. Tirem daí suas próprias conclusões…
Capa do primeiro volume da HQ Aâma
O personagem Verloc no início da HQ
Não só nesse trabalho, mas especialmente em Aâma, percebe-se uma influência de Moebius. Ele é uma referência no seu trabalho?
Frederik. Moebius mudou minha vida quando descobri seu trabalho por volta dos 15 anos de idade. Ele me salvou da minha obsessão por Tintin e foi como um trampolim para a descoberta de estados de consciência diferentes. Ele realmente abriu minha cabeça. Penso realmente que Moebius e a geração da revista Métal Hurlant, nos anos 1970, influenciaram toda a cultura pop mundial até hoje. Dito isso, descobri há muito tempo que ele não é o único artista interessante neste mundo e estou chegando a um momento de minha vida em que me libertei das influências da juventude. Gosto de desenhar com minha própria vida e com o mundo e as questões que me cercam hoje.
Todos os volumes de Aâma já foram publicados na Europa?
Frederik. Não, apenas três volumes foram publicados. Estou agora terminando o quarto e último. Espero que a história inteira surpreenda o leitor. Mas há ainda vários novos personagens surpreendentes que aparecem no segundo e no terceiro volumes. E acredito que a trajetória de Verloc é particularmente inesperada.
O que você conhece dos quadrinhos brasileiros?
Frederik. Não sei se tenho leitores no Brasil e não conheço muito sobre HQ brasileira, a não ser Fábio Moon e Gabriel Bá, que fizeram um belo Daytripper e que tive o prazer de encontrar. E Léo (autor da HQ Aldebaran, considerada uma das melhores HQs francesas de todos os tempos), embora ache que ele publique principalmente na França.
A ficção científica tem muitas histórias de destaque na literatura e no cinema. Neste assunto, quem você gosta de ler e ver e por quê?
Frederik. Stanislaw Lem, que representa muito bem a ficção científica do mundo soviético da Europa do leste, voltada para o humano e para ambientes estranhos e profundos. Katsuhiro Otomo, por Akira e a força e a violência de suas imagens, e Kubrick, pela utilização dos símbolos e pela beleza, simplesmente.
Personagens de Aâma
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