Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 11.02.2018 11.02.2018

Sucesso póstumo: alguns escritores que só alcançaram a fama depois de morrerem

Por Luma Pereira
Muitas vezes, escritores hoje tidos como grandes e talentosos eram, em vida, desconhecidos e pouco falados pela sociedade de sua época. O sucesso só chegou depois da morte, nunca foram reconhecidos por sua literatura enquanto estavam vivos.
“Eram escritores que viviam à margem, excluídos e que, por várias razões, após sua morte, foram alçados à condição de ‘clássicos’”, afirma Kênia Maria de Almeida Pereira, professora de Literatura Brasileira da Universidade Federal de Uberlândia.
Há hipóteses sobre os motivos de isso acontecer. A incompreensão dos contemporâneos e da sociedade da época, como aconteceu com Oswald de Andrade, ou mesmo o preconceito contra o autor – foi o caso de Lima Barreto, visto como alcoólatra e pobre.
Outra razão também pode ser o aparecimento de novas ciências, o que leva à reinterpretação dessas obras.
“Hoje, muitos estudos literários dialogam com a psicanálise, enfocando a leitura dos autores, antes considerados malditos, para uma reflexão mais ampla sobre o humano e o desejo”, explica.
Dessa forma, autores antes ignorados e considerados de mau gosto estético são trazidos à cena do debate e reavaliados, como Marquês de Sade e sua literatura erótica.
O reconhecimento também pode estar relacionado até mesmo à sorte de tal escritor nascer no momento certo, no lugar certo.
“Será que Shakespeare seria o centro da tradição literária se tivesse nascido na África, e não na Inglaterra?”, questiona Kênia. Para ela, a literatura e a fama de seus autores está, de alguma forma, atrelada à política, à economia e à religião.
“Muitos são vítimas de seu tempo, parece que nasceram cem anos adiantados, são incompreendidos e refutados quando ainda vivos”, diz.
Atualmente, há também bons autores que estão sendo esquecidos por nosso tempo. Kênia cita como exemplo os escritores portugueses, que por vezes têm o talento ofuscado pela notoriedade do premiado José Saramago.
“O prêmio Nobel infelizmente tem estas duas faces: se projeta uma língua e um país, também anula e obscurece outros autores. O leitor comum desconhece as obras de Vítor Cintra, Agustina Bessa-Luís, Antônio Lobo Antunes, dentre outros”, afirma.
Entretanto, há também autores como a brasileira Lygia Fagundes Telles e o tcheco Milan Kundera, que obtiveram reconhecimento em vida.
“Eles têm uma escrita excepcional, e também foram adaptados para o cinema e a televisão, o que ajuda na divulgação de suas obras”, explica Kênia.
Quem não assistiu a Ciranda de Pedra (1981), novela da Rede Globo baseada no romance de Lygia?
O SaraivaConteúdo fez uma lista dos autores que só ganharam importância depois de passarem desta para melhor. O reconhecimento tarda, mas não falha.
Emily Dickinson
Poetisa americana nascida em 1830 e morta em 1886, ela foi considerada uma escritora moderna. Alguns costumavam chamá-la de “Grande Reclusa”, por sua personalidade introspectiva e solitária.
Escreveu 1800 poemas e 1000 cartas, mas não chegou a publicar nenhum livro em vida – há rumores de que tenha publicado alguns poemas anonimamente. Sua obra foi editada após sua morte e agradou muito aos críticos.
O primeiro livro completo só chegou em 1955, organizado por Thomas H. Johnson, e tinha 1775 poemas. A segunda edição veio em 1999, com organização de R. W. Franklin; esta contava com 1789 poemas.
Herman Melville
Escritor, poeta e ensaísta, ele nasceu em 1819 e faleceu em 1891, nos Estados Unidos. No início, até teve reconhecimento por suas obras, mas a popularidade foi caindo ao longo dos anos, até que ele fosse quase completamente esquecido na velhice.
A fama só veio mesmo quando seu talento foi percebido pelos críticos, na década de 1920, mais de 20 anos após sua morte.
Melville não pôde ver o sucesso que fez Moby Dick (1851) no século XX – esse livro é considerado a obra-prima do autor.
Inicialmente, foi publicado com o título A Baleia e fracassou – tanto que muitos dizem que foi isso que prejudicou a carreira dele. Quem diria: o motivo do fracasso ser também o motivo do sucesso.
Lima Barreto
Dos brasileiros, Lima Barreto é um caso de gênio que sofreu preconceito por parte da sociedade de sua época.
“Era sempre apontado como louco e beberrão, socialista e neurastênico. Um mulato pobre que não sabia escrever no português castiço. Sendo assim, seus textos só poderiam ser de péssima qualidade”, descreve a professora.
Foi desprezado e não tinha condições financeiras de bancar a publicação de seus escritos. Kênia conta que sua crítica ácida contra as elites cariocas sempre o afastou dos leitores da classe média, que queriam comentários otimistas sobre o Rio de Janeiro.

Morreu aos 41 anos de idade devido aos problemas psiquiátricos que tinha, após ser internado em vários hospitais. Só depois disso obteve o devido reconhecimento de suas obras literárias.

Marquês de Sade

Com o desenvolvimento da psicanálise, alguns autores, antes considerados hereges e até pornográficos, tiveram seus escritos reinterpretados e reconhecidos como reflexões profundas sobre o ser humano e o desejo.
É o caso de Marquês de Sade e seus romances: A Filosofia na Alcova (1795), Justine e Juliette de Sade. Escritor libertino, nasceu na França, em 1740, e faleceu em 1814.
“O desenvolvimento de novas ciências também faz com que alguns escritores sejam reabitados e reinterpretados, como é também o caso de Masoch, Bataille, quando estudados à luz da psicanálise”, reforça Kênia.
Oswald de Andrade
Este autor foi vítima da incompreensão da sociedade contemporânea. “Em seus textos, chocava a sociedade e os intelectuais mais conservadores do início do século XX. Como compreender Oswald, que colocava em xeque a poesia parnasiana?”, questiona.
Para Kênia, o modernismo proposto por ele não foi bem aceito pelas pessoas da época, o que impediu que ele obtivesse o merecido reconhecimento.
“Enquanto estava vivo, era considerado mais um piadista, um bon vivant, um rebelde, do que propriamente um poeta excepcional”, afirma a professora.
E completa: “com raras exceções, um ou outro crítico literário o levou a sério, além de que os leitores comuns não se interessavam em ler seus romances, considerados enigmáticos e caóticos”.
Após a morte, seu talento foi reconhecido por críticos como Antonio Candido e artistas como José Celso, que montou a peça O Rei da Vela (1933). Além disso, as comemorações em torno da Semana de 1922 ajudaram a impulsionar seu sucesso.
E a fama póstuma também vai para…
James Joyce: escreveu Retrato de um Artista quando Jovem (1916) e Ulisses (1921).
Franz Kafka: autor de O Processo (1925) e O Castelo (1926).
Henry David Thoreau: Desobediência Civil (1849) e Walden: A Vida nos Bosques (1854) são suas obras mais importantes.
José Joaquim de Campos Leão “Qorpo-Santo”: escreveu Hoje Sou um e Amanhã Outro (1866) e Ensiqlopèdia ou Seis Mezes de Huma Enfermidade (1877).
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