Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Música 30.11.2012 30.11.2012

Sua majestade, Madonna

Por Tiago Wonka
 
Uma artista que canta, dança e pula num palco cheio de luzes e efeitos tecnológicos incríveis. Ela viaja pelo mundo todo, vende milhões de álbuns e lota estádios em questão de minutos. Não contente, usa esse poder para afrontar governantes e líderes religiosos e criticar o sistema.
Os mais de 30 anos de carreira de Madonna talvez não tenham sido suficientes para ela fazer tudo o que gostaria. Com 54 anos, a cantora continua na ativa e se mantém “nova em folha”, como ela mesma canta em “Like a Virgin”, música que a projetou mundialmente.
Em sua trajetória, Madonna trilhou um caminho envolto em polêmicas, marcado por seu comportamento transgressivo. Considerada uma mulher à frente de sua época, seu sucesso lhe rendeu o título de rainha do pop.
Ela é a única mulher que pôde ser comparada a Michael Jackson. Madonna, além de cantora, é bailarina, compositora, escritora, atriz, diretora, empresária e mãe. Madge – como é chamada carinhosamente pelos fãs – coleciona prêmios e títulos importantes, entre eles “A artista feminina mais bem-sucedida de todos os tempos” (Guinness) e uma das “25 mulheres mais poderosas do último século” (Revista Time).
 
Mas quem pensa que a coroa está em sua cabeça somente por ter vendido mais de 300 milhões de discos se engana. A contribuição dela para o mundo é maior do que isso e abrange a incansável luta pelos direitos das minorias, trabalhos sociais e uma cadeira importante no mundo da moda.
 
Madonna se apresentou no 'Super Bowl 2012'. O evento é a maior audiência dos EUA
EXPRESS YOURSELF
 
Na década de 1980, quando Madonna lançou seu primeiro álbum (Madonna), o movimento feminista já tinha começado há alguns anos. Sempre vista como uma transgressora, ela muitas vezes foi julgada por expor uma imagem sensual e submissa ao homem em seus trabalhos. Mas também pode ser interpretada de outra forma. Seu objetivo não era expor a submissão, e sim dizer que a feminilidade era uma arma que as mulheres podiam usar e que não havia nada de errado nisso. Se ela estava acorrentada, era porque se deixou acorrentar, por vontade própria.
 
Assessórios de fetiche marcam a fase 'Erótica'
 
“Algumas músicas dela simplesmente são revolucionárias, na época de lançamento escandalizaram sim. Essa pra mim é a maior prova da importância dela. Em 'Papa, Don't Preach', ela basicamente diz para o pai dela não se meter, que, sob todos os riscos, ela é quem cuida da vida dela”, afirma a jornalista Nana Soares, que é feminista e fã de Madonna “‘Like a Prayer’ é a ainda mais sensacional, porque fala de sexo. E ela está cantando isso pra todo mundo ouvir e fazendo em paralelo com uma oração!”, completa.
 
Para Nana, os versos que abrem a música "What it Feels like For a Girl" resumem bem a importância dela para essa questão: “Garotas podem usar jeans / E cortar seu cabelo curto / Vestir camisas e botas / porque é OK ser um garoto / Mas para um garoto, parecer uma garota é degradante / Porque você pensa que ser uma garota é degradante”.
 
Garotos ou garotas, para Madonna não importa. Ela é bissexual assumida e milita em prol da causa gay. Podemos ver isso em “Erotica”, que contém cenas de dois homens se beijando, e mais recentemente em “Girl Gone Wild”, em que o grupo ucraniano Kazaky, um ícone gay, forma um exército de homens dançando de salto alto.
 
O grupo Kazaky acompanha a cantora em "Girl Gone Wild"
 
O militante e professor universitário Welton Trindade lembra como Madonna apoia o combate à AIDS e destaca a canção “In This Life”, do álbum Erotica, dedicada aos amigos que morreram devido à doença. “A música é triste e lembra os milhões de gays que se foram devido ao HIV!”.
 
Além disso, quem viu jamais esquecerá a cena de Madonna beijando a boca de Britney Spears e Christina Aguilera em pleno palco do Video Music Awards em 2003. A cena gerou polêmica, mas nada comparado aos outros feitos de sua carreira.
 
STRIKE A POSE!
 
Na década de 1980, Madonna apareceu com luvas de renda, vestidos e saias por cima da calça que ia até a canela, meia arrastão, jaqueta jeans, acessórios de couro, cabelo colorido e milhares de joias grandes e baratas. Não demorou muito para lançar tendência e ser copiada por toda uma geração.
 
Famoso corpete de Gaultier usado na 'Blond Ambition Tour' em 1990
Na 'MDNA Tour', Madonna usa uma releitura moderna do primeiro corpete
 
O gosto de Madonna por figurinos extravagantes e pelo mundo da moda sempre foi claro. Em 1990, lançou “Vogue”. A música é inspirada em uma dança de mesmo nome, muito popular nos clubes de Nova York da época, onde os passos e gestos tinham como objetivo imitar as poses de artistas consagrados e modelos da famosa revista. E sua relação com a moda não para por aí: ela é amiga de personalidades importantes do mundo fashion, como Gianni Versace e Vivienne Westwood, que fez o famoso vestido usado no clipe de “Material Girl”, inspirado em uma peça usada por Marilyn Monroe no clássico Os Homens Preferem as Loiras.
 
Peças como o sutiã em formato de cone e outras criações do estilista Gaultier viraram ícones de moda imortalizados por ela. Para o estilista Mauricio Somenzari, Madonna teve um papel importante como defensora de algumas ideias e estilos. 
 
Cenas de "Vogue"
 
“Há figurinos icônicos para cada uma das fases do trabalho dela, como o corpete de Jean Paul Gaultier, que marca um pouco a fase mais fetichista de seu trabalho. Ela deu vida a algumas campanhas na década de 1980, ainda atrelada a essa imagem erotizada. A imagem dela sempre foi forte e marcante com um quê de 'Girl Power'”.
 
MUSIC
 
Doze álbuns de inéditas e mais algumas coletâneas contribuem para que a coroa continue em sua cabeça. Juntos, os discos somam mais de 150 canções. A maioria de seus singles foi para o topo das paradas musicais em todo o mundo. Madonna tem trabalhos para todos os gostos, da balada mais emocionante ao pop chiclete que serve simplesmente para se jogar na pista de dança. Aliás, pistas de dança são a especialidade dela, motivo de sua popularidade entre os frequentadores de casas noturnas.
 
Ensaio de 'Confessions on a Dance Floor'
 
Um dos mais importantes DJs do Brasil, André Pomba, explica o sucesso da “Material Girl” na agitada vida noturna: “Há 10 anos, eu dizia que só dois artistas passaram três décadas criando hits, emplacando números 1 em todo o mundo: U2 e Madonna. Hoje posso dizer que só Madonna conseguiu entrar na quarta década sempre renovada. Consigo encaixar seus sucessos em qualquer seleção que eu faça por épocas. Afinal, desde seu primeiro hit, 'Everybody', sua carreira foi direcionada para as pistas de dança”.
 
Seu trabalho é feito em parceria com grandes produtores e artistas novos que estão em alta. É uma jogada de Madonna para manter sua música sempre atual. É o caso da colaboração de Nicki Minaj em “Give me All your Luvin”, single de seu último disco MDNA, e “4 Minutes”, música do antecessor Hard Candy que contou com a ajudinha de Justin Timberlake.
 
Madonna e Justin Timberlake no clipe de "4 Minutes", primeiro single de 'Hardy Candy'
M.I.A, Madonna e Nicki Minaj em “Give me All your Luvin”
 
Para o crítico de música do jornal O Estado de S. Paulo Jotabê Medeiros, Madonna conhece bem o território em que se encontra. Por isso, escolhe bem onde pisa. “A vida toda, Madonna compreendeu o pop como business. Ela constrói sua persona com um apetite vampiresco, sempre alistando em sua obra os caras que estão na ponta, de William Orbit a Lil Wayne”.
 
Apesar disso, é categórico em afirmar que, ainda assim, ela faz parte desse sistema da indústria musical que reconhece como um negócio: “Madonna também é repetitiva e é produto de uma multinacional predatória do show biz. A onipresença dela significa (significou) a morte de muitas artistas sutis, e isso é o lado ruim”.
 
L.U.V. MADONNA
 
Mas esses aspectos nos quais Madonna se destaca não são suficientes para explicar a admiração dos fãs. A artista tem uma legião de seguidores fiéis, que a acompanham desde o início de sua carreira, além de conseguir o respeito daqueles que não eram nem nascidos em 1981, mas gostam de seu trabalho.
 
Madonna vestida de líder de torcida em sua atual turnê
 
Fã que é fã faz loucuras, vai ao aeroporto, dorme na fila do show. Vale tudo para ver seu ídolo de perto. É o caso de Tuane Vieira, que gosta da cantora desde 1986. Os motivos para tanta devoção são muitos, mas ela destaca alguns dos principais: "Madonna sempre foi um exemplo. Ao se assumir um ser sexual, com desejos, defeitos, fragilidades e força. Pra mim, aos 6 anos, era o máximo da liberdade. Era o tipo de imagem que me atraía. Saber que poderia ser mulher e ter sim as minhas vontades, dominar o meu mundo e ser a melhor que eu poderia ser nele. ‘La Isla Bonita’ foi a primeira música que cantei na vida. Em 2008, dormi na fila e ela pegou na minha mão em ‘Give 2 Me’. Em todos os meus momentos importantes, ela está, quase como uma amiga, pra dar apoio. É isso que Madonna representa pra mim. É um ícone eterno".
 
Independente do gosto musical, é indiscutível que Madonna foi e continua sendo valiosa para o mundo pop. Não importa a idade, não importa a roupa que ela veste e não importa mais a quantidade de álbuns que vende. A coroa está e sempre ficará em sua cabeça. Enquanto ela continuar fazendo música, os fãs serão seus súditos em seu reino: a pista de dança.
 
SERVIÇO – MDNA TOUR
 
Rio de Janeiro
 
Quando: 2 de dezembro (domingo) às 20h
Onde: Parque dos Atletas
 
São Paulo
 
Quando: 4 de dezembro (terça-feira) e 5 de dezembro (quarta-feira) às 20h
Onde: Estádio do Morumbi
 
Porto Alegre
 
Quando: 9 de dezembro (domingo) às 19:30h
Onde: Estádio Olímpico 
 
 
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