Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 28.10.2011 28.10.2011

Steven Soderbergh perto do fim da linha?

Por Andréia Silva
Na foto, Kate Winslet em Contagio
 
Aos 12 anos, quando ainda morava na Louisiana, nos EUA, Steven Soderbergh se considerava um bom jogador de beisebol. Certo dia, ele acordou com a sensação – que depois se tornou certeza – de que tinha perdido a sua habilidade. Passada mais de uma década, em 1994, olhou para o set onde filmava Obsessão e sentiu que sua inspiração havia desaparecido. Parece que a nuvem negra voltou a rondar o cineasta.
 
É em clima de catástrofe, com Contágio, seu novo filme sobre um vírus que mata em poucos dias, que Soderbergh ensaia os passos para sair de cena, conforme ele mesmo já anunciou este ano.
 
Soderbergh é aquele tipo de diretor que pode dizer que já tem tudo − Oscar (por Traffic), fama e dinheiro, especialmente por ter se tornado um produtor com faro para sucessos de bilheteria e ter feito amizade com grandes astros como Matt Damon, Julia Roberts e George Clooney, com quem já trabalhou mais de uma vez. Então, qual seria o problema? Vontade de explorar outras formas de artes, segundo o próprio.
 
"Serei o primeiro a dizer se eu não for bom no que decidi fazer agora, ficar sem dinheiro e quiser fazer outro 11 Homens e um Segredo", disse ele, que agora vem se dedicando à pintura. Soderbergh falou pela primeira vez sobre se aposentar em uma entrevista à revista "Esquire" em 2009. "Eu tenho 45 anos agora. Quando fizer 51, serão 25 anos [no cinema]. E isso é muito tempo para fazer a mesma coisa. Terei feito, sei lá, 30 filmes. E isso basta", declarou na época.
 
Steven Soderbergh
 
Este ano, no Festival de Veneza, Soderbergh disse que não era necessário fazer drama sobre a tal aposentadoria, sugerindo que a ideia poderia não passar de um simples ano sabático. “É menos dramático do que parece. Só preciso de um tempo para calibrar e descobrir algo novo”, disse ele à BBC.
 
O argumento faz sentido. O diretor tem feito no mínimo um longa-metragem por ano desde 2004, com trabalhos cada vez mais diversificados, tanto na temática quanto na linguagem. Esse receio de que a obra perca o seu sentido é o mesmo que fez com que, por exemplo, os músicos do R.E.M. encerrassem as atividades depois de 30 anos de estrada e que agora também cerca os irlandeses do U2. Como disse o vocalista, Bono, a banda está com medo de “ter perdido a relevância”.
 
Com uma carreira iniciada no final dos anos 80, com o já clássico Sexo, Mentiras e Videotape, Soderbergh abriu as portas para os cineastas independentes, e o filme se tornou o marco zero do gênero nos EUA. Filmado com uma verba mínima, faturou a Palma de Ouro em Cannes, em 1989, e ele se tornou o diretor mais jovem a receber o prêmio. O Oscar também soube reconhecer seu trabalho, premiado pela direção de Traffic e responsável pelo primeiro prêmio da academia a Julia Roberts, pelo seu papel em Erin Brockovich – Uma Mulher de Talento.
 
Fã de cinema europeu e sempre resistindo a rótulos, ele foi um desses diretores que soube mesclar produções indies e mainstream. De experimentações com baixo orçamento a blockbusters, filmou romance, suspense, ficção científica, drama, humor, tem uma obra heterogênea que mistura diferentes recursos narrativos − foi assim com os diálogos improvisados em Bubble, nas diferentes formas de narrar Confissões de uma Garota de Programa e naquele que é considerado um de seus principais trabalhos, Traffic − e um pouco de realismo estético.
Se tudo correr como o planejado, os fãs do diretor ainda poderão aproveitar os seus últimos projetos. Além de Haywire (veja o trailer abaixo), filme de ação com Gina Carano, Michael Douglas, Ewan McGregor e Antonio Banderas que deve estrear em abril de 2012, ele ainda tem mais duas produções para terminar antes de se retirar de Hollywood: Liberace e The Man From U.N.C.L.E.
Caso ele resolva mesmo pendurar as chuteiras, uma coisa é certa: Soderbergh vai dormir com a sensação de dever cumprido.
 

 
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