Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Outros 10.10.2011 10.10.2011

Steampunk: o presente visita o passado

Por Luma Pereira
 
Eles se vestem com roupas de época e se comportam como pessoas do século XIX – especificamente da Era Vitoriana. As mulheres se caracterizam com saia e espartilho. Os homens usam chapéu e gravata. Porém, o século é o XXI e todos têm celulares e computadores. Isso é Steampunk, sub-gênero da ficção científica que ambienta as obras no passado, mas inclui tecnologias do presente. “Voltamos àquele tempo e fazemos uma releitura do que seria o futuro para alguém da época”, define Bruno Accioly, um dos fundadores do Conselho SteamPunk no Brasil.
 
O termo surgiu no fim da década de 1980, quando os escritores norte-americanos Bruce Sterling e William Gibson lançaram livros ambientados no século XIX. Escreviam histórias de ficção científica que se passavam na Era Vitoriana e incluíam tecnologias atuais, criando uma realidade retrofuturista.
 
Accioly explica que, como todos os termos, esse surgiu para nomear algo anterior à sua criação, como o gênero dos livros de Mary Shelley, autora de Frankenstein (1818), e de Júlio Verne, autor de Viagem ao Centro da Terra (1864).
 
Máquina do tempo
 
O SteamPunk se manifesta em qualquer tipo de arte: literatura, ilustração, fotografia, moda. “É uma verdadeira cultura”, afirma Romeu Martins, jornalista catarinense de 35 anos.
 
Accioly acredita que o movimento é uma ferramenta de resgate do passado recente do Brasil, cuja história é fascinante – cheia de intrigas e covardia, mas também com muita virtude e heroísmo. “Não há, necessariamente, exaltação do passado.
 
Existem obras de denúncia, que têm por objetivo criticar o presente”, diz. Gabriela Barbosa, historiadora paraibana de 23 anos, comenta que, para ser Steampunk, não é preciso apenas vestir trajes do século XIX, mas ter esse saudosismo e essa inventividade característicos do movimento. “Não é apenas roupa ou trejeitos Vitorianos, mas muita leitura e pesquisa sobre esses temas”, enfatiza a historiadora.
 
 
No Brasil, o Steampunk ficou mais conhecido com a criação do Conselho, instituição sem fins lucrativos e descentralizada, fruto do esforço individual de entusiastas no país – acessível pelo site www.steampunk.com.br, no ar desde 2007. “O objetivo é divulgar, explicar e homenagear o movimento”, esclarece Accioly.
 
De 1800 a 2011
 
Qualquer pessoa pode aderir ao movimento. Foi o que fez Gabriela. Entusiasta desde 2009, para ela, o Steampunk foi paixão à primeira vista. “Os livros de Júlio Verne estão entre meus preferidos do gênero, gosto da escrita e da inventividade deles”, afirma.
 
Apesar de não ser obrigatório, ela comparece nos encontros vestida a caráter. “Muitos dos acessórios são montados por nós mesmos”, comenta. Ela costuma utilizar, no dia a dia, objetos retrô mais discretos, como bijuterias e relógios de bolso.
 
Lembra-se de quando foi ao Encontro Nipon, evento de cultura pop japonesa, com roupa de aventureira – calças curtas, corset xadrez, goggles e bijuterias em tons de ouro velho ou bronze – algumas pessoas disseram: “Olha! Steampunk!”. Ela gostou de ver como o movimento era conhecido também fora das reuniões de membros.
 
Lindnalva Angélica de Oliveira, estilista de 52 anos, aderiu ao movimento em 2010. “Minha motivação foi a afinidade com a ambientação das obras na Era Vitoriana”, conta. Ela é dona de uma loja de roupas de época chamada Fetishe Furrys Demi-Couture’s, localizada na Rua Augusta, no Centro de São Paulo. Sempre que há algum evento Steampunk ligado a literatura, cinema ou teatro, Lindnalva sai de casa vestida a caráter.
 
 
Nas reuniões Steampunk, que ocorrem em piqueniques e chás, os membros vão caracterizados como personagens: piratas, damas, escritores, reis, rainhas e sacerdotes. Lindnalva costuma como a personagem Madame Black Church. Ela conta que as pessoas os olham com curiosidade, pedem para tirar fotografias e perguntam em que peça de teatro irão atuar. “Alguns tocam nossas vestes e querem saber de qual planeta viemos”, comenta, rindo.
 
Ela também customiza objetos. Passa esmalte de cor ouro velho nos óculos, para parecerem antigos. “No celular, também faço aplicação de renda dourada com pedras”, comenta. Tinge vestidos brancos para que fiquem na cor bege queimado, além de colocar rendas e flores neles. “Em acessórios como chapéus ou luvas, coloco uma fita de cetim bege de 2 centímetros para que fiquem parecidos com os da aristocracia”, diz.
 
 
Romeu garimpa suas roupas em brechós. Interessou-se pelo movimento em 1990, quando começou a ler quadrinhos desse sub-gênero. Em 2008, aderiu ao movimento e foi convidado pelos fundadores do Conselho a fazer parte da primeira coletânea nacional: Steampunk – Histórias de um Passado Extraordinário, da Tarja Editorial, publicada em julho de 2009. Também participa das reuniões, vai a piqueniques e palestras. “São encontros com pessoas de interesses culturais semelhantes, que falam sobre a História do século XIX”, comenta.
 
Cultura, estilo, estética, celebração ou movimento, o fato é que o Steampunk tem conquistado cada vez mais adeptos pelo Brasil. Consegue levar seus membros para visitar o passado, como se fosse uma máquina do tempo.
 
Para Romeu, “o movimento é um excelente exercício de imaginação”. Com charme de sociedade secreta, disponibiliza o ontem para o hoje, e vice-versa.
 
Para quem quiser conhecer mais do movimento, está marcado para o dia 14 de outubro o Virtual SteamCon 2011, convenção anual de Steampunk que reúne entusiastas do Brasil todo. Promovido pelo Conselho SteamPunk, o evento ocorre no site steamcon.com.br, e envolve veiculação de material escrito, áudio, vídeo e chat.
 
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