Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 31.01.2014 31.01.2014

Spike Jonze e seu cinema fantástico

Por Márcia Scapaticio
 
Estar na mente de outra pessoa e viver as suas sensações, tornar-se o personagem do seu próprio filme, ser um menino solitário e de repente estar em um mundo paralelo com seres fantásticos ou apaixonar-se perdidamente pela voz de um sistema operacional chamado Samantha.
 
Ideias nada convencionais que, adaptadas para o cinema, tornaram Spike Jonze um dos cineastas mais criativos dos últimos anos. Quando algo leva sua assinatura, esqueça as convenções. A aposta é sempre um pé no surreal e outro nas angústias humanas.
 
Antes de ser elogiado pela crítica e faturar o Globo de Ouro 2014 na categoria Melhor Roteiro com Ela – filme que chega aos cinemas em 14 de fevereiro –, Jonze veio do cenário underground, produzindo clipes e aproveitando todo o espaço que a MTV norte-americana havia aberto à experimentação musical e visual.
 
 
 
Joaquin Phoenix e Spike Jonze em set de Ela
 
“A estética do hiper-realismo adotada hoje em dia no ‘cinemão comercial’ já era usada por Jonze em seus clipes para o Sonic Youth, Weezer e Fatboy Slim”, contextualiza o jornalista de cinema do jornal Folha de S. Paulo, Rodrigo Salem.
MÚSICA EM MOVIMENTO
 
A relação de Jonze com a música é estreita, tanto que uma das bandas mais respeitadas da atualidade, Arcade Fire, vê no diretor um parceiro constante. “Wake Up”, faixa do disco Funeral (2004), está na trilha de Onde Vivem os Monstros (2009).
 
Cena de Onde Vivem os Monstros
 
No ano seguinte, foi o cineasta quem colaborou com os canadenses, dirigindo o vídeo para a música “The Suburbs”, do álbum homônimo de 2010. E não parou aí. O conceito se estendeu, e a estética do clipe rendeu o curta-metragem Scenes from the Suburbs, produzido com o objetivo de retratar o conceito desenvolvido pelos músicos no disco.
 
A banda também está por trás da trilha sonora de Ela. Além do Arcade, Karen O, vocalista do Yeah Yeah Yeahs, – e ex- namorada de Jonze – canta “The Moon Song”, indicada na categoria Melhor Canção Original no Oscar de 2014. O filme está na disputa pelo Oscar de Melhor Trilha Sonora.
 
Para o diretor de videoclipes Ricardo Spencer, além dos efeitos especiais e da montagem inovadora, o diferencial de Jonze está no modo de tratar a música: “A música recebe um tratamento apaixonado e simbólico. E muitas vezes se sobrepõe ao cinema, ganhando seu próprio filme dentro do filme”.
 
Spike Jonze
ADAPTAÇÕES
 
A experiência com narrativas curtas e elaboradas dos clipes fez de Jonze um cineasta autoral, com conceitos e propostas de trabalho bem definidos. Considerado pela crítica seu amadurecimento profissional, Ela é seu primeiro filme como roteirista solo.
 
Antes de adaptar Onde Vivem os Monstros do livro de Maurice Sendak (1928-2012), o diretor produziu, ao lado do excêntrico roteirista Charlie Kaufman, o cult Quero Ser John Malkovich (1999) e Adaptação (2002). Kaufman já colaborou com Michel Gondry, outro diretor experiente na produção de clipes, assinando o roteiro de Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças (2004).
 
“Com Kaufman, Jonze levou a narrativa quebrada dos vídeos para seus longas. Mas o importante foi como ele driblou os problemas financeiros com decisões criativas visuais. Tirando Ela, seus filmes são todos com poucos efeitos visuais, mas, ainda assim, lindos”, observa Salem.
 
A ousadia na forma e no conteúdo são características de suas produções. Para Ana Clara Matta, editora do site Ovo de Fantasma, especializado em crítica de filmes, Jonze correlaciona muito bem a opção por conceitos surreais ao fato de ter que lidar com orçamentos reduzidos.
 
“Ele levou tal premissa para o cinema e teve a coragem de se aliar a um roteirista imprevisível, Charlie Kaufman. Nesse período, a loucura estava presente, mas era a solidão que se destacava nos personagens. E o medo de ficar sozinho visto em Onde Vivem os Monstros ou no espetacular curta I'm Here, quase um prólogo temático para Ela”, explica.
 
I'm Here
 
Em doses exageradas ou na medida certa, relacionamentos, incertezas, solidão e um pouco de loucura se espalham por todos os filmes do diretor, que, segundo Salem, consegue brincar com estéticas diferentes em Ela: “[Jonze] vai do onírico ao íntimo real em poucas sequências. Apesar disso, acho que ele já havia amadurecido em Onde Vivem os Monstros, lidando com orçamento maior, uma história mais popular e personagens fantásticos com um subplot complexo – cada monstro representa um medo infantil. Mostrou que é capaz de construir cenários gigantes e mesmo assim manter seu toque pessoal”, enfatiza Salem.
 
Na corrida pelo Oscar nas categorias Melhor filme, Melhor canção original, Melhor trilha sonora, Melhor roteiro original e na categoria técnica Melhor design de produção, Ela é forte candidato para levar uma das estatuetas para casa, especialmente as ligadas à música e ao roteiro, considerando que, em Melhor filme, a produção está concorrendo com os favoritos Gravidade e O Lobo de Wall Street.
 
Porém, em entrevista recente dada ao Late Show With David Letterman, Jonze foi questionado pelo apresentador, indignado por ele não concorrer a melhor diretor: “Ela consta na lista de melhor filme, certo? E você não consta como melhor diretor. Como isso é possível?”.
 
Joaquin Phoenix, em Ela
 
Uma pergunta sem resposta que ecoou e encerrou o programa, deixando Jonze visivelmente encabulado. Prova de que o cineasta nascido em Rockville, cidade localizada no estado americano de Maryland, expandiu seu alcance para além do underground, mas sem perder seu ar cool, acentuado em seus já aparentes cabelos grisalhos. Vestindo um terno sóbrio e elegante, deixou a irreverência para os detalhes, contrastando a roupa formal com meias cor de rosa nada discretas, no melhor estilo Jonze. Spike Jonze.
 
 
 
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