Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo HQ 14.06.2010 14.06.2010

Spacca, documentando em quadrinhos

Por Bruno Dorigatti
Foto de Tomás Rangel

> Assista à entrevista exclusiva de Spacca ao Saraiva Conteúdo 

João Spacca de Oliveira sempre viveu no meio de pranchetas, pincéis, réguas, compassos e croquis técnicos de balcões frigoríficos, restaurantes e bares. Achava que estes brinquedos faziam parte da infância de qualquer um. Aos 4 anos já desenhava e aos 8, 9, rascunhou sua primeira adaptação, o clássico de Jules Verne, Volta ao mundo em 80 dias. Durou apenas três páginas, mas mostrou ao pequeno paulistano que uma história poderia ser contada de várias maneiras. Desde sempre, Spacca sabia o que queria fazer: quadrinhos, charges, cartuns. 

O pai, Joaquim, fazia desenho técnico, orientação diferente da que o filho iria seguir. “Sempre tive preferência pelo desenho de humor, o caricato, o exagero. Mas meu pai é uma influência muito importante, porque muitos desenhistas não têm ninguém na família que desenham e eu tinha. Então tinha lá a prancheta enorme, materiais técnicos de desenho, e eu via meu pai trabalhando. Ou acompanhava-o quando ele ia medir algum ambiente, uma lanchonete, balcões frigoríficos. Para mim, o desenho sempre teve essa relação com projeto. Desenha-se alguma coisa que vai existir ou que existiu”, conta Spacca, nesta entrevista exclusiva, realizada no Festival da Mantiqueira, em São Francisco Xavier (SP), no final de maio. 

Ele se recorda que, aos 4 anos de idade, teve uma obra em um parque infantil da prefeitura onde sua mãe era diretora. “Comecei a desenhar tijolo, pá de pedreiro, algumas coisas assim. Um ano depois, estava desenhando buldogues, dinossauros, monstros, explosões, aquelas coisas do Pica-Pau. Então tinha uma coisa pronunciada. E conforme você vai fazendo e tendo sucesso naquilo, você quer melhorar. Vai vendo os mestres, os artistas trabalhando e vai perseguindo aquilo.” 

Spacca começou a trabalhar muito cedo, aos 15 anos. Quando entrou em uma agência de publicidade, na verdade, queria fazer outras coisas, como desenho animado, quadrinhos. “Fui lá exclusivamente para adquirir conhecimento técnico, conhecer meios de impressão, essas coisas. Porém, mais tarde percebi que a interação com as pessoas foi uma coisa legal. Meu trabalho era fazer storyboard, uma espécie de cinema em quadrinhos. A dupla de criação me descrevia a cena e eu tinha que desenhar. Você acaba pegando a linguagem de cinema. Hoje, em quadrinhos, é o que eu uso, gosto de pensar os meus álbuns como um filme em quadrinhos”, diz ele, que desenhou personagens conhecidos, como o mascote do chiclete Ping Pong para a Copa de 1982, e o galã do Cepacol. 

A estreia com o humor deu-se no Pasquim, mas como uma participação especial. “Mandei desenhos para um concurso que eles tinham e aí o Jaguar, muito generosamente, montou uma página com eles, colocou meu nome grande, foi uma coisa legal. Profissionalmente, estreei na Folha de S. Paulo, em 1985, quando passei em um concurso. No ano seguinte, comecei a fazer charge política. Foram dez anos de experiência com charge”, recorda. Na revista Níquel Náusea, que é também um personagem de Fernando Gonsales, foi onde saiu sua primeira adaptação literária, de “Quem conta um conto”, de Machado de Assis. 

Foi também na Níquel Náusea que saíram as primeiras páginas de seu primeiro projeto, talvez o mais longo e ambicioso, sobre Santos Dumont. “Publiquei lá, pois já vinha desenvolvendo o personagem. Fiz uma experiência, uma história muito mais satírica do que a minha mesmo. Santô e os pais da aviação (Cia. das Letras) é um projeto que tenho desde os 15 anos." Em 2004, ofereceu o projeto para a Companhia das Letras, eles toparam e a graphic novel saiu a tempo para o centenário do 14 Bis. “De fato, não levei 25 anos fazendo, mas é aquele projeto em que você pensa constantemente, pesquisa. Posso dizer que ele começou com aquele desejo nacionalista de defender Santos Dumont dos ‘malvados’ irmãos Wright. Com o tempo, fui percebendo que os outros aviadores também tinham sua paixão pelo voo. Todos eles, os Wright, os franceses – Blériot, Farman, Delagrange – têm histórias muito interessantes”, afirma o desenhista. 

Na história de 140 páginas, sua primeira graphic novel a ser publicada, toda em preto e branco, Spacca reconstrói a jornada daqueles que tentavam fazer o homem voar numa máquina mais pesada que o ar. Ele mostra como todos trabalhavam de maneira colaborativa, em que um se beneficiava dos avanços dos demais. O subtítulo “Os pais da aviação” não é à toa, tampouco tenta fazer média com os demais aeronautas. “O avião não teve um pai só. Todos tinham conhecimento do que se fazia, como os nerds hoje. A história é mais complexa do que isso.” Depois de tanto tempo pesquisando, Spacca viu que não dava para ser nacionalista. “Chegou um momento mesmo que eu estava achando Santos Dumont muito enjoadinho. Ele tinha dinheiro, enquanto os outros eram pobres. Tive até certa crise nesse projeto. Até  perceber que um grande obstáculo – porque todo herói tem que ter um –, o grande demônio interior era justamente isso, ele ter recebido do pai a bênção para ir a Paris, a herança e o conselho para estudar o que quisesse. E o pai então morre. Fiz isso como um grande peso na vida do Santos Dumont. E combina com os fatos. Ao menor fracasso, ele demolia. Ele já era o aeronauta mais famoso do mundo, referência para os irmãos Wright, conhecido em todo lugar, aí quando o 14 Bis cai, se considera um fracasso e entra em crise. É uma coisa que tem raiz na realidade”, acrescenta. 

 

As adaptações históricas 

Dos quatro álbuns produzidos por Spacca – todos editados pela Companhia das Letras – três tratam de personagens históricos. Além de Santos Dumont, o pintor francês Jean Baptiste Debret e D. João VI e sua corte ganharam adaptações no traço do desenhista, este último uma parceria com a historiadora e antropóloga Lilia Moritz Schwarcz e que ganhou uma versão animada pelo Canal Futura. O mais recente é a adaptação de Jubiabá (2009), um dos primeiros romances de Jorge Amado, de 1935. 

Por que o interesse em adaptar personagens e momentos históricos? “Não sei dizer. Vendo as coisas que faço e o que elas têm em comum, relaciono com as charges. A charge é uma maneira de você tentar entender as coisas como são, a política, o Brasil. Álbuns como Viagem histórica e quadrinhesca ao Brasil (2006) [imagem ao lado] e D. João carioca: A corte portuguesa chega ao Brasil (1808-1821) (2009) também são uma espécie de charge, mais bem explicada, talvez. Mas acaba tendo a ver com o Brasil. Gosto também de uma tecnologia retrô, de mostrar Santos Dumont com aquelas máquinas antigas, a influência de filmes que eu gosto, como Esses homens maravilhosos e suas máquinas voadoras. Além disso, editorialmente pode ser interessante”, explica Spacca. 

Segundo o quadrinista, as dificuldades são muitas. “Costumo dizer que o quadrinho é uma arte formada de várias artes e todas elas são muito trabalhosas. Procuro aprender com quem faz roteiro de cinema, por exemplo. Assisto a muito making of de cineasta para ver como eles desenvolvem uma ideia, fazem um casting.” 

Na pesquisa, Spacca procura ver fontes técnicas, pois, ao ficar somente com os livros de história, pode não passar das grandes forças econômicas e dos personagens. “Para D. João carioca, por exemplo, foi preciso ver as fontes militares, para saber como era o uniforme, os transportes. Se possível, ir ao local para ver as pessoas. Procuro informação de tudo quanto é canto. A internet para isso é fabulosa, porque antes, para pesquisar automóveis antigos, era preciso ir a uma biblioteca na seção de tecnologia, transportes, carros, carros antigos e então se chegava. Hoje, por exemplo, se você quer pesquisar sobre o modelo T, na internet você encontra o colecionador de carros, enciclopédias sobre ele, dezenas de fotos, o Henry Ford [desenvolvedor do modelo T]. Isso é fascinante, mas é preciso habilidade e maturidade para comparar as fontes, aprender a distinguir o que é verdadeiro e o que não é”, ensina. 

Spacca resume seu ofício assim: “E preciso tentar ser bom, ou ao menos razoável no conjunto. [risos] É muito complicado fazer quadrinhos, talvez seja uma das coisas mais complexas que tem”. 

Seu álbum mais recente, Jubiabá, uma das estreias do novo selo da editora, Quadrinhos na Cia., saiu em maio de 2009 e foi sua primeira adaptação literária. No romance de Amado estão alguns elementos que o autor iria desenvolver em sua obra, como os morros de Salvador, a capoeira, o boxe, a religiosidade afrocatólica, a luta operária então nascente. O que muda nesse caso? “Geralmente, parto dos fatos, que são desorganizados quando você lida com história. Tenho que montar uma estrutura e apresentá-la. Neste caso, não, já tenho uma obra artística, o romance, e vou produzir outra obra artística. Tem aí a minha experiência de leitor. Minha principal preocupação é tentar captar aquilo que a leitura de Jorge Amado me dá, como ele me impressiona, e encontrar meios nos quadrinhos para transportar essas emoções e pensamentos para o leitor”, conta ele, que continua: 

“Ao ler Jorge Amado, qualquer pessoa nitidamente percebe que está diante de uma obra quente, generosa, é uma língua gostosa de ler. É diferente de Graciliano Ramos, por exemplo, cuja leitura é seca, magra, enxuta, econômica, irônica – como ele mesmo. Amado é uma coisa mais relaxada, que te envolve, mostra personagens muito vivos. Ao fazer isso em quadrinhos, vou procurar equivalentes visuais e narrativos que tentem passar isso. Tenho uma preocupação grande com essa fidelidade ao espírito do autor. 

 

Mestres, influências 

Apesar dos milhões de desenhos animados que assistiu, Spacca tem basicamente três pilares: Disney, Mauricio de Sousa e Monteiro Lobato. Mas também são influências os desenhos da Hanna Barbera e programas de humor, como “Os Três Patetas”. Asterix também foi um marco importante, onde começou a ver um tipo de desenho mais maduro, com mais anatomia e mais realismo. Com a revista Mad nos anos 1970, conheceu os cartunistas nacionais. “Henfil foi um marco para mim. Durante um tempo não gostava dele, ‘esse cara não desenha’, eu pensava. Mas quando percebi o que é Henfil também achei fantástico”. 

E depois de tantas adaptações, tem vontade de fazer uma história com roteiro original? 

“Olha, até tenho ideias interessantes, embora elas sempre misturem alguma coisa real ou de história. Um projeto que se alonga e faz tempo que quero fazer é uma parte da vida de Monteiro Lobato. Mas vai demorar. Só que mesmo para a História, no fim das contas, eu dou um tratamento ficcional. Faço questão que elas tenham uma estrutura de ficção, com começo, meio e fim, clímax, personagens que você possa se envolver. Em algum momento, vira ficção, embora continue sendo verdade, com elementos reais.”  

O novo projeto, já em andamento, é a adaptação de As barbas do Imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos (Companhia das Letras, 1998), misto de biografia e ensaio interpretativo do mito da monarquia tropical, escrita por Lilia Moritz Schwarcz. “Seria uma continuação do D. João carioca, pulando D. Pedro I e indo direto para D. Pedro II, mas ele não é um livro de história exatamente, nem também de antropologia. Ele retrata a época do D. Pedro II e analisa esse período por meio de seus símbolos, do mito da realeza, tanto na maneira como a elite procura mostrar, impressionar o povo com seus rituais monárquicos, mas também no próprio povo a ideia de rei, nos desfiles, procissões, na Folia de Reis, na coroação do reis negros. Tem uma ideia da monarquia de vários setores. Minha intenção é fazer uma coisa bastante próxima ao livro. É quase um documentário, quero esticar os limites dos quadrinhos. Ele não serve apenas para contar uma história, você pode mostrar um raciocínio, tudo o que passa na consciência de determinado personagem”, finaliza. Isso parece seduzir Spacca a contar grandes histórias através da arte sequencial. Um trabalho e tanto.

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