Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 26.03.2010 26.03.2010

Somos e seremos tão jovens

Por Henrique Rodrigues


Nós somos feitos de tempo. Ou, pelo menos, da sensação do tempo. Essa abstração que nos acompanha por toda a vida se torna mais aguda quando somos tomados pela intuição do instante, muitas vezes em situações extremas, como a perda, uma realização pela qual lutamos ou numa experiência artística. 

Ouvir Legião Urbana sempre foi, para mim, um mergulho nessa possibilidade. Por volta dos meus dez anos, todos os garotos queriam decorar “Faroeste Caboclo”, e depois dizer como os versos de “Monte Castelo”, que citava a Bíblia e Camões, algo que só uma banda de rock pode fazer com adolescentes de maneira tão natural. Em seguida, cantar “Vento no litoral” diante de uma desilusão amorosa, e alguns anos depois citar os versos de “Vamos fazer um filme” perguntando como é que se “diz eu te amo” hoje em dia.

A experiência de ouvir uma banda querida e fazer com que ela se torne um marcador de páginas da nossa memória é subjetiva, cada um tem a sua, de acordo com os episódios vividos. Mesmo os fatos que levaram Renato Russo a escrever cada uma dessas letras são diferentes e únicos. E talvez nisso esteja a mágica da coisa: ele consegue falar simultaneamente de si e do mundo. O lirismo, tão presente na poesia e na música, faz com que a fala do poeta seja particular e universal. Ao reconhecer ali o que sentimos, seja uma indignação política, uma dor de separação ou mesmo uma pequena revolta com os nossos pais, um tipo de conforto nos abraça e nos dá a sensação de que não estamos sozinhos.

À medida que crescemos, algumas coisas se modificam, outras não. Ainda que as preocupações com as obrigações escolares se transformem na necessidade de arrumar emprego – e se manter nele, ou que o medo de se declarar à pessoa por quem somos apaixonados possa se converter em medo nunca mais se apaixonar – ou em como manter a paixão viva no dia-a-dia –, muitas das nossas (as)pirações são recorrentes. A obra da Legião Urbana consegue ser o elemento catalisador dessa viagem no tempo,  assim como uma fotografia ou um cheiro de uma época vivida.

Renato Russo faria cinquenta anos dia 27 de março deste ano. Seria um senhor jovem. Quis o destino que, assim como os poetas românticos que morriam cedo demais, tenha se tornado um jovem para sempre. Mas o lirismo é assim mesmo, atemporal.

Eu tenho trinta e quatro anos e, quando tiver sessenta e oito – e espero chegar brincando até lá –, quero continuar ouvindo Legião Urbana e ter essa mesma sensação de juventude, de que é preciso e possível administrar as pequenas dores humanas. Somos e seremos sempre jovens, em qualquer época das nossas vidas.

> Leia um dos contos do livro Como se não houvesse amanhã (Record), organizado por Henrique Rodrigues
Coletânea traz 20 contos inspirados em músicas da Legião Urbana

“”Pais e filhos”” 

João Anzanello Carrascoza

Durante quase toda a minha infância, de segunda a sexta, semana atrás de semana, havia uma hora sagrada para mim: era quando o telefone tocava, após o jantar, e eu podia ouvir a sua voz, me perguntando, Filho, como foi o seu dia? Sem saber o milagre que minha resposta podia produzir nele, eu apenas dizia, repetindo as palavras, Foi bom, e só muitos anos depois descobri que, do outro lado, meu pai as transformava, água, no vinho de seu silêncio. 

Eu vivia o que me cabia, no meu tamanho de descobertas, era uma criança como as outras, saltava num instante de uma brincadeira para uma dor, e de uma dor para uma brincadeira, enchendo-me de balas e de sombras. Preso aos ensinamentos na sala de aula, ou distraído entre os amigos no recreio, eu me esquecia dele, embora no fundo esperasse com força pela hora de sua ligação. E, quando chegava, parecia-me uma hora comum, a voz dele longe, às vezes encoberta pelos chiados, às vezes tão próxima que eu a sentia em meu ouvido como o sussurro de um anjo.

Depois que ele se foi da casa onde morávamos, eu só o tinha àquela hora, e não compreendia por que passava tanto tempo sem vê-lo. No entanto, bastava o telefone tocar, à noite, para eu sofrer aquele susto bom, e, quando a mãe me passava o telefone, nem precisava ela dizer, É o seu pai, o rosto dele já reaparecia em minha memória e uma dolorida felicidade me queimava, eu quase não dizia nada — eu só queria arder nas labaredas daquele instante.

Então cresci. Com a exatidão dos astros, meu pai continuou a telefonar no mesmo horário, todos os dias, mas já não tinha o poder de me comover. Adolescente, eu vivia desarrumado por dentro. Estava atrás de minha verdade. Procurava o que havia dele em mim, e, quando encontrava — o sorriso igual, o mesmo olhar de despedida —, eu me negava a aceitar.

 

As linhas da vida me desviavam do seu caminho. Eu aprendera a atirar pedras, e ele era o meu alvo preferido. A hora, antes tão sagrada, se tornara maldita. Porque eu a queria imprevista. Eu me perguntava, a cada dia, Pai, por que me abandonaste?, atribuindo-lhe os pregos que o tempo cravava em minhas mãos. 

Recusei-me muitas vezes a falar com ele, surdo para a mãe que vinha bater à porta do quarto, Atende, é o seu pai. Eu me fingia de Lázaro. Vamos, atende, ele já ligou três vezes. Não, eu não queria lhe abrir o meu mar — nessa época, eu mal sabia que o pai poderia, se quisesse, vir até a mim andando sobre as águas.

Os anos se multiplicaram, e, como um peixe, aprendi que todos estamos cercados de anzóis. A palavra do pai continuava a chegar, mas, vivendo os prodígios da liberdade, eu tinha pouca carne para o seu verbo.

Eu usufruía minhas mortes, e nada que ele dissesse me ressuscitaria de mim. Era um homem e não necessitava mais de sua providência. Mas não adiantou tentar a sorte em outras terras, a sua voz, ubíqua, sempre me encontrava: cheguei a desconfiar que não caía um fio de cabelo sem que ele ignorasse onde eu me escondia.

Há pouco o telefone tocou. A mãe me deu a notícia de que ele se foi, para sempre. Eu nem percebi que ele estava indo em cada uma daquelas ligações, quando me perguntava, Filho, como foi o seu dia? Agora, ante a ferida que se abre em mim, esta prece é apenas um band-aid.

 

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