Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 21.05.2009 21.05.2009

Simonal redimido

Por Bruno Dorigatti 
Fotos de Tomás Rangel (Claudio Manoel) e arquivo (Wilson Simonal)

> Veja a entrevista exclusiva ao SaraivaConteúdo

Houve um cantor que já disputou palmo a palmo a popularidade de o maior do Brasil com o rei Roberto Carlos. Isso foi no final dos anos 1960. Depois de um ostracismo forçado e até hoje mal explicado, enfim, Wilson Simonal volta à pauta. Seja com o relançamento de seus discos, com uma biografia que chega às livrarias no segundo semestre, ou com o certeiro documentário Simonal — Ninguém sabe o duro que dei, de Claudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal, que estreou este mês, 2009 será o ano para o Brasil se redimir com um de seus grandes artistas, considerado por muitos o maior cantor que já tivemos.

Negro de família humilde, filho de empregada doméstica, Simonal começou a cantar calipsos e boleros nos bailes do Exército, no início dos anos 1960. Ajudado por Carlos Imperial no início da carreira, foi levado por Luiz Carlos Miéle e Ronaldo Bôscoli ao Beco das Garrafas, reduto da Bossa Nova, em Copacabana. Com sua inconfundível voz de veludo e charme único, Simonal logo se estabeleceu e não demorou a conquistar o país. Em meados da década, ganhou um programa na TV Record, “Show em Si …monal”, dirigido por Carlos Imperial,  onde firmou a parceria com César Camargo Mariano, que colocou o suingue da black music norte-americana no samba brasileiro. Estava formada a Pilantragem, estilo que teve em Simonal seu representante máximo.

MASCARADO

Showman, intérprete singular, seja de músicas de Jorge Ben, como “País tropical” e “Zazueira”, ou de cantigas populares, como “Meu limão, meu limoeiro”, era sucesso de público e de crítica. Primeiro negro a apresentar um programa de televisão, fez fortuna naqueles anos áureos. Simonal nunca levou desaforo para casa, sempre se definiu como um mascarado. Mas a história de mandar bater em seu contador, que estaria roubando seu dinheiro, seria o início de um equivocado enredo que acabou por levá-lo ao ostracismo. Quem prendeu e torturou seu contador foi o pessoal do Dops, o famigerado Departamento de Ordem Política e Social. Logo, Simonal estaria sendo acusado de estar colaborando com a ditadura, entregando os colegas músicos para os órgãos de repressão.

Pensava ele que nada aconteceria, afinal ele era Wilson Simonal. Mas o expurgo foi violento. Simonal não voltaria mais a levantar e alegrar multidões, a fazer o povo dançar. Colheu um ostracismo lento, porém duradouro. Em um período em que as divisões eram bem claras e certeiras e não havia espaço para o meio termo, não se posicionar firmemente contra era estar a favor.

Mas o documentário Simonal — Ninguém Sabe o Duro que Dei, não se restringe à trajetória do ídolo de outrora rumo ao sumiço aparente. Além dessa história, até hoje mal esclarecida, o filme passa por momentos sublimes, como a parceria com a diva norte-americana Sarah Vaughan na TV Tupi, em 1970, e por outros hilários, quando o cantor viajou com a seleção brasileira ao México, para a Copa do Mundo, também em 1970, e chegou a acreditar que poderia jogar com o escrete canarinho. Construído com depoimentos de Miéle, Chico Anysio, Pelé, Nelson Motta, Tony Tornado, Ziraldo e os filhos Simoninha e Max de Castro, entre outros, intercalados com imagens de arquivo de shows e entrevistas do próprio, o filme repassa com maestria a subida ao céu, onde fica por menos de dez anos, e a vertiginosa descida ao inferno, onde permaneceu por quase 30 anos, até sua morte, em 2000. O furo de reportagem, digamos assim, está na entrevista do contador, Raphael Viviani, localizado por um detetive, que também procurou pelo delegado e os dois policiais que o teriam surrado e torturado, sem sucesso, porém. Com certo atraso, o Brasil começa a pagar esta dívida com um de seus grandes ídolos.

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