Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 30.11.2009 30.11.2009

Shakespeare e a economia

Por Bruno Dorigatti

Shakespeare é aclamado em todo o mundo ocidental como um deseus maiores gênios. O crítico Harold Bloom definiu sua obra como a que seestabelece como o “centro estável do cânone ocidental”. Enquanto ela – 38peças, escritas entre 1590 e 1613, além de seis obras poéticas – segue sendoinvestigada de maneira detalhada nos últimos 400 anos, atualmente com quatromil novos títulos sobre Shakespeare produzidos a cada ano em todo o planeta, osfatos de sua vida efetivamente documentados são escassos. 

William Shakespeare nasceu em Stratford-upon-Avon em abrilde 1564, estudou na escola local, casou aos 18 anos com Anne Hathaway, entãográvida. Teve a primeira filha, Susanna, em 1583, e os gêmeos Judith e Hamnetdois anos depois. Em 1585, muda-se sozinho para Londres, onde, sete anosdepois, alcançava algum reconhecimento como ator e autor. Em 1594, entra para amais bem-sucedida companhia de teatro da época e, cinco anos depois, torna-sesócio do Globe. Ao morrer em 1616, deixou 1.500libras esterlinas a seus descendentes, o equivalente a 14 milhões de libras em2009. 

Em 1623, sai a primeira publicação de suas obras completas,o FirstFolio, com tiragem de mil exemplares, dos quais 238 sobreviveramaté os dias de hoje, e responsável pela preservação de pelo menos metade desuas peças. E a primeira biografia, escrita pelo primeiro editor do bardo,Nicholas Rowe, é publicada em 1709. A partir daí, muito se especulou e se dissesobre a autenticidade de sua dramaturgia, e de sua vida, tentando-se preencher aslacunas, sobretudo no período anterior ao seu estabelecimento em Londres, até oreconhecimento público, em 1592. 

Entre os milhares de títulos que investigam o universo dobardo – epíteto pelo qual ficou conhecido, e que significa, poeta, trovador,aquele que compõe e recita poemas épicos –, um recém-lançado procura investigara economia e o então nascente capitalismo, tanto no contexto histórico em queviveu Shakespeare, como no que subsiste da economia nos seus textosdramatúrgicos, na voz dos personagens e nas situações vividas por ele. Shakespeare e a economia (Jorge Zahar),reúne dois ensaios, o primeiro, “A economia de Shakespeare. O retrato do capitalismoquando jovem”, escrito por Gustavo Franco, professor do Departamento deEconomia da PUC-Rio e ex-diretor do Banco Central, e que trata da economia doteatro. Já o economista Henry Farnam, em texto de 1931, foi o primeiro a seater às alusões a temas econômicos na dramaturgia do inglês, no ensaiointitulado “A economia em Shakespeare”, segunda parte deste livro. 

No texto de Franco, descobrimos que, entre 1560 e 1642, maisde 50 milhões de pessoas passaram por casas de espetáculos, em Londres, poucomais de 600 mil espectadores por ano, o que é um número soberbo, se pensarmosque a Inglaterra tinha 4,8 milhões de habitantes em 1600 e Londres, não maisque 250 mil. “É bem possível que em nenhuma outra época, exceto talvez naGrécia Antiga, o teatro tenha tido tanto público e desfrutado de tamanhacentralidade na vida cultural de um país”, escreve Franco. 

E isso em um momento em que o capitalismo começava a dar osseus primeiros passos, ainda distante da revolução industrial que o alterariaprofundamente no século XVIII, mas distanciando-se já do modo de produçãofeudal, ainda vigente no restante da Europa. Acompanhando esse nascentecapitalismo, o final do século XVI vai observar “uma explosão de interesse e depublicações de natureza comercial e quantitativa, na esteira dedesenvolvimentos revolucionários na astronomia, navegação e outros campos daciência e do comércio”. Os horizontes se ampliavam em diversas direções, umasjá conhecidas, outras até então inéditas. Como afirma Thomas Leinwand, astransições tinham inúmeros eixos: “Do status para o contrato, do sagrado para osecular, da atribuição para a realização, do finito ao aberto, do fixo aocontingente, do uso à troca, da pilhagem ao lucro, do feudal ao capitalista”. 

E é no teatro, principal meio de entretenimento de massa daépoca, que isso melhor se reflete, sobretudo um teatro que contava com a genialidadede Shakespeare. A respeito da língua inglesa, por exemplo, em 1605, na Biblioteca de Oxford, entre os 6 mil volumesapenas 36 livros eram inglês. O primeiro dicionário dedicado a língua inglesa,do ano anterior, reuniu 2.521 verbetes. Em sua obra, Shakespeare utilizou entre20 e 30 mil palavras diferentes, além de ter criado 1.700 palavras. Como afirmaVivian Thomas, “a linguagem, a mais significativa moeda da época, estavasendo cunhada dentro do teatro”. 

Para ela, “Shakespeare ilumina um universo socialimpregnado, ou mesmo infectado, pelo espírito do cálculo. Apreciação,avaliação, medida, contrapeso se mostram conceitos essenciais para relações ecompromissos humanos”. E essa grande penetração do teatro que criou,paralelamente ao surgimento do capitalismo, um mercado de massa dos maisprósperos e inovadores, similar ao que representou nos seus dias áureos nasegunda metade do século XX o cinema. Aliás, não à toa, o dramaturgo TomStoppard afirmou que se vivesse hoje Shakespeare estaria trabalhando no cinema. 

Shakespeare e a economia,que integra uma série que Franco vem organizando para a Zahar, que já abordou A economia em Pessoa, e A economia em Machado de Assis, é umaleitura interessante para quem deseja conhecer um pouco mais o período em queviveu e criou o bardo inglês, além de traça um retrato perspicaz do surgimentodo capitalismo.

> Leia um trecho da obra

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