Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 29.07.2014 29.07.2014

Série de fantasia faz sucesso ao mostrar o mundo dos orixás

Por Carolina Cunha
Paulo Jorge Pereira, o PJ Pereira, é um dos publicitários mais reconhecidos do Brasil. Em 2013 ele fez sua estreia na literatura com O Livro do Silêncio, o primeiro volume da trilogia Deuses de Dois Mundos, uma série de fantasia que traz a mitologia dos orixás africanos, especialmente dos iorubás. Em breve, a história deve ir para as telonas. O roteiro ainda está sendo escrito.
PJ iniciou a coleção tentando quebrar os próprios preconceitos. “Ao longo da minha vida, meu acesso a essa mitologia foi negado. Eu cresci ouvindo histórias de deuses gregos, romanos, nórdicos. Mas por que eu não cresci ouvindo sobre os deuses que vieram da África?”, questiona o autor.
No primeiro volume, que virou best-seller, o escritor entrelaça dois mundos: São Paulo, onde vive o ambicioso jornalista Newton Fernandes, e Orum, o céu dos orixás. Orunmilá, o maior adivinho de todos os tempos, tem seus instrumentos silenciados. Com a ajuda das divindades, ele precisa recuperar sua capacidade de antever o futuro. Enquanto isso, Newton investiga um escândalo empresarial e se depara com um misterioso chamado espiritual.
O Livro da Traição, o segundo título da série, acaba de ser lançado com a promessa de intensificar a jornada de aventura dos orixás e a transformação do jornalista.
De São Francisco (EUA), onde vive e trabalha, PJ falou com o SaraivaConteúdo sobre os livros e a sua relação com esse universo.
O que traz o segundo volume da série? Você chegou a ter a “crise do segundo livro”?
PJ Pereira. O primeiro livro é quase uma preparação. Quando a aventura vai começar, ele termina – quando o grupo se encontra e está preparado para a grande batalha. O segundo livro é agitado e tem muita ação. Estou morrendo de medo de as pessoas não gostarem. A resposta ao primeiro livro foi positiva. Teve também gente que leu e gostou, mas achou os personagens rasos. É verdade, eles são rasos porque estão entrando na história. No segundo livro você tem a chance de conhecer o que cada um deles tem de melhor.
O que fez você se interessar e escrever sobre a mitologia dos Orixás africanos?
PJ Pereira. Não foi uma escolha pela literatura. Eu comecei a pesquisar porque queria entender como era esse mundo que eu tinha tanto medo. Quis confrontar meus próprios demônios e comecei a me apaixonar pelo tema. Fiquei especialmente curioso sobre como funcionava o jogo de búzios e o seu mecanismo de adivinhação. Um dia eu perguntei o que aconteceria quando não tivesse resposta nenhuma, e ninguém sabia me dizer. Aí pensei: acho que vou fazer uma história para explorar essa possibilidade.
Você comentou que, para aquela sociedade ancestral, os búzios perderem o poder seria como a internet deixar de funcionar hoje…
PJ Pereira. Imagine se você acordasse hoje e não existe mais internet. Acabou e não tem explicação. E você não poderia nem usar o Google para saber o que estava acontecendo. Eu acho que é isso que aconteceria no mundo africano imemorial, [haveria] essa mesma sensação. Os búzios, que são instrumentos de adivinhação e para saber o que a vista não alcança, pararam de funcionar. E é curioso, porque os búzios têm um sistema binário também.
 
"Fico feliz em dar a chance de o brasileiro não crescer com o preconceito que eu cresci"
Como assim?
PJ Pereira. São 16 conchinhas que você joga, e elas são de valor 0 ou 1, e você faz uma conta de 16 x 16. Joga ela uma vez, faz um cálculo, depois joga de novo e multiplica um número pelo outro, e [assim] você sabe qual história tem que contar. Então é um sistema binário. Exatamente como funciona o computador.
Na pesquisa, o que mais chamou sua atenção?
PJ Pereira. Foram mais de 10 anos de pesquisa em livros e conversas com adeptos do candomblé. Os autores que mais me influenciaram foram Pierre Verger e Reginaldo Prandi. É fascinante quando você vê que os orixás representam as forças da natureza, que são poderosas e às vezes implacáveis. Esses deuses também são assim. O Deus do Trovão pode matar o seu inimigo ou pode te matar. E isso foi muito legal para mostrar personagens de personalidade e que não são perfeitos. Os orixás são muito fortes para o tempo em que a gente vive. Essa imperfeição e a exuberância deles faz muito sentido hoje, em qualquer lugar do mundo.
Orum, que você recriou na obra, está muito bem detalhado. Foi difícil chegar nessas imagens?
PJ Pereira. Eu escrevo de uma maneira muito visual, porque parte da minha vida eu passo fazendo filme e comercial. Na pesquisa, comprei livros com fotografias de países africanos – da Nigéria e do Benin, especialmente. Tentei ser o mais fiel que pude, mas sei que, no final das contas, há uma visão que é mais ocidentalizada e romantizada do que era a vida numa África ancestral.
Como você se baseou na característica de cada Orixá para criar a dinâmica entre os personagens?
PJ Pereira. Decidi fazer uma composição das lendas com as pessoas que eu conheço que são filhas de Santo. Por exemplo, as lendas dizem que Ogum pode ser muito violento – ele é o dono da guerra. Mas os filhos dele que conheço são quietos e calados. Então construí o personagem a partir daí. O Ogum do meu livro tem um passado de violência e razões para isso. Ele é um general especialista em batalhas, mas sem muita habilidade social. É quieto e sábio, mas se alguém apertar o botão errado, ele enlouquece e mata todo mundo.
 
Ogum
Na sua série, Exu tem um papel muito relevante na história, mas na vida real é um dos orixás que mais sofrem preconceito religioso.
PJ Pereira. Eu tinha um preconceito grande contra Exu. Hoje ele é o Orixá que eu acho mais interessante, ele não tem muito controle. Na minha cabeça ele é uma energia de mudança. Se você está evocando uma mudança na sua vida, tem que estar preparado para o que ela vai decidir. Na minha história ele é meu personagem predileto. Um leitor me falou uma vez: “Depois de terminar o segundo livro, eu acho que essa história na verdade é uma história de Exu”. Talvez ele tenha razão, pois é o personagem que mais evolui ao longo dos dois livros.
Tem muita coisa do personagem Nilton Fernandes em você?
PJ Pereira. O Nilton é uma brincadeira minha. Ele na verdade é um grande cretino (risos). Eu já tive momentos na vida em que gostaria de ter sido mais cretino do que fui. O Nilton é o momento em que eu me permito colocar isso na rua. Ele é a minha fantasia do que eu gostaria de ser em algumas situações. Uma das coisas mais legais da literatura é isso. E é divertido ver as pessoas amando ou odiando seu personagem.
E o que você levou para a sua vida desse contato com a mitologia de matriz africana?
PJ Pereira. Como essa cultura é muito ligada à compreensão e integração com as forças da natureza, ela te permite entender que tudo tem um lado certo e errado, claro e escuro ao mesmo tempo. Não sentir culpa de não ser perfeito e sofrer menos, de uma maneira mais serena. Aprender a gostar mais de quem está em volta e do que está acontecendo, apesar disso ser a favor ou contra você. Porque isso é da natureza humana. E é da natureza da Terra. Mas isso não significa que você está livre de responsabilidades e de querer melhorar. Mas você convive com as qualidades e defeitos de forma positiva.
É curioso que, ao longo da obra, dá a impressão de que os Orixás são recrutados como os heróis que vemos nos quadrinhos, como uma “Liga da Justiça”. 
PJ Pereira. É, exatamente (risos). A maior complicação foi escolher as histórias que eu ia contar com fidelidade e as que não funcionavam, pois existem muitos lados. Então esse quebra-cabeça exigiu certa licença poética. Por exemplo, tem o Logun-Edé, que é filho de Oxum com Oxóssi. Apesar de novo, é muito sábio. Como ele é da floresta e do rio, consegue ver os dois lados de tudo. Tem histórias lindas sobre ele. Mas na maioria [delas], aparece que Oxum, mulher de Ogum, tem um caso com Xangô. Só que Oxóssi é irmão de Ogum…
 
Oxum
E como você resolveu isso?
PJ Pereira. Não dava para eu fazer Oxum ser casada com Ogum, ser seduzida por Xangô e ter um filho com Oxóssi. Ia ser muita confusão! (risos). Mudei um pouco essa história para encaixar Logun-Edé. Eu o representei como se fosse filho de uma mulher de uma comunidade do rio e de um homem da floresta. Já no segundo livro, tem uma passagem em que eu conto a adolescência de Ogum e explico o porquê de ele ser tão sanguinário. Isso não veio de um mito. Quando mostrei para meus amigos de Santo eles me perguntaram de onde eu tinha tirado a história. Disse que inventei, mas, do jeito que escrevi, eles falaram que não se surpreenderiam se fosse verdade.
Por ser um gênero de fantasia pouco explorado, houve muita comparação?
PJ Pereira. Falaram muita coisa. Que eu era o Tolkien da África, o novo Roger Bastidi e Pierre Verger da ficção, A J.K. Rowling da mitologia afro-brasileira. Não chego nem perto disso, mas me inspirei nessa gente toda. Se eles conseguiram contar histórias que trouxeram uma mitologia para o imaginário popular, talvez eu consiga.
O que você gosta de ler em geral?
PJ Pereira. Eu adoro os escritores Isaac Asimov, Michael Crichton, J.K. Rowling. Adoro a série Harry Potter e os escritores Tolkien, Neil Gaiman e George R.R. Martin. E adoro Nelson Rodrigues. O que pintar dele eu leio. A minha gula por ler é maior do que a minha capacidade de leitura.
Você acha que sua obra ajudou de alguma forma a quebrar o preconceito religioso?
PJ Pereira. Sim. Sabe o que me deixa uma semana inteira feliz? Quando eu abro o Facebook e tem alguém dizendo assim: “Olha, eu sou católico/evangélico e sempre tive medo dessas religiões, mas resolvi ler o seu livro por curiosidade e continuo muito firme com a minha fé, mas hoje eu tenho muito mais respeito por essa cultura”. Fico feliz em dar a chance de o brasileiro não crescer com o preconceito que eu cresci.
 
O que mudou na sua vida depois de Deuses de Dois Mundos?
PJ Pereira. É muito legal você ter uma comunidade de leitores. Eu falo com eles diariamente pela internet. Eu sei que pode soar arrogante, mas é muito legal ter fã. É uma coisa emocionante. Não pelo ego, mas por saber que existem pessoas que se apaixonaram por uma história que aconteceu dentro da sua cabeça.
E o terceiro livro já está pronto?
PJ Pereira. Em partes. Já sei a história inteira e estou escrevendo. Mas sou muito cuidadoso com a minha escrita. Ele vai sair no ano que vem, porque não quero arriscar fazer uma coisa que eu não ache que está perfeito usando assuntos tão sérios. Porque não quero que um raio caia na minha cabeça! Prefiro não provocar os orixás! (risos)
 
Assista ao book trailer de Deuses de Dois Mundos:
 
 
 
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