Ramiro Fajuri por Ramiro Fajuri Livros / Música / Outros 17.02.2021 17.02.2021

Semana de arte moderna de 22 e os artistas que revolucionaram a cultura brasileira

A Semana de Arte Moderna de 1922, também conhecida como Semana de 22, aconteceu entre 11 e 18 de fevereiro de 1922, no Theatro Municipal de São Paulo, e foi o mais revolucionário movimento artístico brasileiro, trazendo uma verdadeira renovação da linguagem artística na escultura, pintura, poesia, literatura e música.

A Semana de 22 buscou romper com os padrões até então predominantes de arte. Apesar de ter muita influência da vanguarda europeia, era também a busca de um arte verdadeiramente brasileira.

Características da semana de arte moderna

  • Ruptura com o formalismo
  • Ruptura com modelos acadêmicos e o tradicionalismo;
  • Crítica ao parnasianismo
  • Influência da arte de vanguarda europeia como os movimentos cubista, surrealista e expressionista;
  • Valorização cultura brasileira;
  • Busca de uma identidade brasileira na arte
  • Fusão de influências externas com elementos brasileiros;
  • Experimentalismo
  • Liberdade de expressão;
  • Utilização da linguagem coloquial e vulgar;
  • Temáticas cotidianas.
  • Nacionalismo

Artistas que participaram da Semana de Arte Moderna de 22

Participaram da Semana de Arte Moderna diversos grandes artistas brasileiros, que atuavam na Música, Poesia, Escultura, literatura e pintura, sendo os principais nomes  Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Víctor Brecheret, Plínio Salgado, Anita Malfatti, Menotti Del Picchia, Guilherme de Almeida, Sérgio Milliet, Heitor Villa-Lobos,Tácito de Almeida e Di Cavalcanti.

Mário de Andrade

Mário Raul de Morais Andrade (9 de outubro de 1893 – 25 de fevereiro de 1945 nasceu em São Paulo e foi poeta, romancista e crítico de arte.  Mário de Andrade é considerado o criador da Poesia Moderna Brasileira, que tem o seu marco zero com Paulicéia Desvairada, que ele publicou no mesmo ano da semana, 1922.

Mas a obra de Mário de Andrade que se tornaria mais famosa seria o romance Macunaíma, um dos grandes clássicos do modernismo e da literatura brasileira, publicado em 1928.

Considerado a grande liderança artística por trás da Semana de 22, Mário de Andrade fazia parte de um grupo de artistas modernistas que mais tarde ficaria conhecido como O grupo dos cinco, que contava com o próprio Mário, Oswald de Andrade, Menotti Del Picchia, Tarsila do Amaral e Anita Malfatti.

Oswald de Andrade

José Oswald de Sousa de Andrade (11 de janeiro de 1890 – 22 de outubro de 1854) era paulista, e foi poeta, escritor, ensaísta e dramaturgo, além de advogado formado em Direto pela faculdade do Largo de São Francisco.

Oswald de Andrade, que ao contrário do que muitos pensam, não era irmão, e muito menos tinha qualquer parentesco com Mário de Andrade, era o considerado o mais irreverente e combativo membro do grupo dos cinco do modernismo brasileiro. Foi casado com Tarsila do Amaral entre 1926 e 1929 e, após a separação, se casou em 1930 com a escritora e Poetisa Patrícia Rehder Galvão, a Pagu, tendo se separado dela em 1935.

Oswald de Andrade é conhecido pelos manifestos extremamente influentes para o modernismo no Brasil. No Manifesto da Poesia Pau Brasil, Oswald falava de uma poesia ingênua, no sentido de que não fosse contaminada pelas formas pré-estabelecidas de se fazer arte, e que fosse um produto cultural de exportação do Brasil, assim como foi, no início da colonização, a madeira da árvore que inspirou o nome do manifesto, e do Brasil.

Oswald também foi responsável pelo Manifesto Antropofágico, ou Antropófago de 1928 que ele divulgou na Revista de Antropofagia, cujas edições (ou dentições) não eram datadas a partir do ano zero de nossa era, mas da deglutição do Bispo Sardinha, primeiro bispo do Brasil, que foi morto e devorado pela tribo dos índios caetés em 1556.

O manifesto Antropofágico dizia que só a antropofagia nos une, e propunha deglutir o legado cultural europeu e digeri-lo , gerando uma forma de uma arte tipicamente brasileira.

Victor Brecheret                

Victor Brecheret (15 de dezembro de 1984 – 17 de dezembro de 1955) nasceu na Itália na cidade de Farmese, batizado como Vittorio Brecheret, mas se naturalizou brasileiro, quando abrasileirou seu nome para Victor, já com mais de 30 anos de idade.

Embora tenha sido um dos responsáveis pela introdução do modernismo na escultura brasileira, nunca abandonou completamente suas influências renascentistas e greco-romanas.

Victor Brecheret foi um dos mais brasileiros, e por que não dizer, mais paulistanos escultores. É praticamente impossível andar por lugares históricos e importantes de São Paulo sem encontrar, e se encantar, com suas obras:

Onde ver as esculturas de Victor Brecheret

Carregadora de Perfume – Parque da Luz, na Avenida Tiradentes, em São Paulo.

Fauno – Parque Trianon (Parque Tenente Siqueira Campos), entre a Avenida Paulista e a Alameda Santos, em São Paulo.

Graças – Na Galeria Prestes Maia, um espaço artístico e cultural que serve também de passagem subterrânea entre a Praça do Patriarca e o Vale do Anhangabaú, próximo ao Viaduto do Chá, em São Paulo

Monumento a Duque de Caxias – Localizado na Praça Princesa Isabel, em São Paulo é o maior monumento equestre do mundo , com 48 metros de altura. O Monumento a Caxias é feito de granito, com baixos relevos contando passagens importantes da carreira do militar, e a estátua, mostrando o Duque de Caxias com a espada desembainhada pesa aproximadamente 18 toneladas.

Monumento às Bandeiras – Localizado na Praça Armando Salles de Oliveira, entre o Parque do Ibirapuera e a Assembleia Legislativa de São Paulo, foi inaugurado nas comemorações do Quarto Centenário de São Paulo e mostra os bandeirantes empurrando um barco em direção ao interior do Brasil.

O Monumento às bandeiras foi construído para homenagear a coragem e vigor dos bandeirantes em conquistar e colonizar as terras, que ainda na época em que o Brasil era uma colônia portuguesa, pelo Tratado de Tordesilhas, pertenceriam à Espanha, ajudando a definir a extensão territorial que o Brasil tem hoje.

Mais recentemente, o Monumento às Bandeiras recebeu algumas críticas por glorificar um período em que povos indígenas foram escravizados e massacrados. É uma crítica válida, já que é importante conhecer os vários pontos de vista sobre os fatos históricos. Mas não justifica de modo algum as pichações e depredações que o monumento sofreu algumas vezes.

O Monumento às Bandeiras é um dos símbolos mais conhecidos da cidade de São Paulo, e por isso tem também alguns apelidos bem humorados, como deixa que eu empurro ou empurra-empurra.

Plínio Salgado

Plínio Salgado (22 de janeiro de 1895 – 8 de dezembro de 1975) é talvez o mais polêmico dos participantes da Semana de Arte Moderna. Escritor cuja obra mais famosa é O Estrangeiro, de 1926, ele era ligado a uma ala do modernismo de um nacionalismo mais exacerbado, os Movimento Verde Amarelo e Anta, que  entre outras ideias, valorizavam os povos indígenas como portadores das origens nacionais brasileiras.

Mas não é por isso que Plínio Salgado é controverso, e sim pela sua atuação política, como principal ideólogo do Integralismo, um movimento político com clara inspiração no fascismo italiano.

Anita Malfatti

Anita Catarina Malfatti ( 2 de dezembro de 1889 – 6 de novembro de 1964) nasceu em São Paulo, filha do engenheiro italiano Samuele Malfatti e da americana Elizbeth “betty” Krug. Anita nasceu com uma atrofia congênita no braço e na mão direita, que seus pais buscaram ajuda médica na cidade de Lucca, na Itália, para onde ela foi com 3 anos de idade. Mas o tratamento não deu resultado, e ela teve de aprender a fazer tudo com a mão esquerda.

Para isso teve a ajuda de uma mulher chamada Miss Browne, que não se sabe com certeza quem é, mas suspeita-se Marcia P. Browne, que trabalhou com o famoso educador Caetano de Campos, e a ajudou a aprender a escrever e desenhar com a mão esquerda. Anita Malfatti estudou em uma escola católica, depois indo para a Escola Americana, que atualmente é a Universidade Mackenzie, onde se formou na Escola Normal, como professora.

Com a morte de seu pai, a família Malfatti perdeu seu esteio financeiro, e sua mãe começou a dar aulas de idiomas, desenho e pintura, o que despertou Anita para o seu talento. Com a ajuda de seu padrinho, Jorge Krug, conseguiu acompanhar algumas amigas para a Alemanha,

Anita Malfatti chegou a Berlim em 1910, ano de efervescência do Modernismo Alemão, onde estudou no ateliê do pintor Fritz Burguer e ingressou na Academia de Belas Artes de Berlim.

Anita ficou na Alemanha até 1914, e possivelmente em razão da eclosão da I Guerra Mundial, mudou-se para os Estados Unidos em 1915, onde aperfeiçoou seus conhecimentos sobre pintura na Arts Students League of New York e na “Independent School of Art, e em 1917, organizou sua primeira exposição individual em São Paulo em 1917, a Exposição de Pintura Moderna Anita Malfatti, com 53 obras de forte influência expressionista.

A exposição dividiu opiniões, pois apresentava algo muito diferente do que um Brasil mais tradicionalista, provinciano, estava acostumado. Monteiro Lobato fez uma crítica virulenta à exposição no artigo Paranoia ou Mistificação, mas foi rebatido por Oswald de Andrade, criando uma polêmica que acabou afastando o criador do Sítio do Pica Pau amarelo dos modernistas brasileiros.

Anitta Malfatti participou da Semana de Arte Moderna de 22 com uma exposição de 20 telas, sendo a mais famosa delas O Homem Amarelo.

Menotti Del Picchia

Paulo Menotti Del Picchia (20 de março de 1892 – 23 de agosto de 1988) nasceu em São Paulo e foi poeta, romancista, pintor, cronista, jornalista, advogado e político.

Imbuído de um forte sentimento nacionalista, Menotti Del Picchia participu, junto de Cassiano Ricardo e Plínio Salgado, do Movimento Verdeamarelo, que propunha uma arte livre de influências estrangeiras.

Como político, participou da Revolução de 1932 como ajudante de ordens do governador Pedro de Toledo, e escreveu poemas como Moisés e Juca Mulato além de romances como Lama e Argila, O Homem e a Morte, República 3000, Salomé e Máscaras.

Menotti Del Picchia abriu a segunda noite da Semana de Arte Moderna de 22, com uma conferência em que negava a ligação do grupo modernista à arte futurista de Marinetti, mas defendia a criação de uma poesia livre, integrada aos tempos modernos e de toda uma arte genuinamente brasileira.

Guilherme de Almeida

Guilherme de Andrade de Almeida (24 de julho de 1890 — , 11 de julho de 1969)  foi advogado, jornalista, crítico de cinema, poeta, ensaísta e tradutor.

Guilherme foi um dos fundadores da Revista Klaxon, um importante veículo para a difusão das ideias modernistas, e foi o primeiro membro do movimento a entrar para a Academia Brasileira de Letras – ABL, em 1930.

Nesse mesmo ano seu poema “A Carta Que Eu Sei de Cor”, publicado no livro Era uma vez” foi declamado na Faculdade de letras da Universidade de Coimbra, na  conferência “Poesia Moderníssima do Brasil”.

Embora Guilherme de Almeida tenha participado do movimento da Semana de Arte Moderna, não renegou totalmente os elementos da poesia anterior à semana e ao modernismo. Algumas das obras que produziu depois revelam elementos do passado, principalmente da escola parnasiana.

Sérgio Milliet

Sérgio Milliet da Costa e Silva ( 20 de setembro de 1898 — 9 de novembro de 1966) foi  escritor, pintor, poeta, ensaísta, crítico de arte e de literatura, sociólogo e tradutor. Perdendo a mãe logo cedo, foi levado à Suíça com apenas 12 anos de idade, onde estudou Humanidades e também ciências econômicas e sociais na Escola de Comércio, se graduando na Universidade de Genebra.

Heitor Villa-Lobos

Heitor Villa-Lobos (5 de março de 1887 — 17 de novembro de 1959) foi um compositor, maestro, violoncelista, pianista e violonista. Chamado por Menotti Del Picchia de Índio de Casaca, é considerado figura criativa mais significativa do Século XX na música clássica brasileira”, e o compositor sul-americano mais conhecido de todos os tempos.

Essas definições não são exageradas, pois não existe nenhum compositor erudito brasileiro tão conhecido e influente quanto Villa-Lobos, que conseguiu com maestria fundir influências da música clássica tradicional, de origem europeia, com a tradição musical folclórica brasileira, especialmente a música caipira.

Suas obras mais famosas são as nove Bachianas Brasileiras, em que combinou  esses elementos totalmente brasileiros, e de origem popular, com as formas pré-clássicas do compositor alemão Johan Sebastian Bach.

Na semana de arte moderna de 22, apresentou a Segunda Sonata, o Segundo Trio, a Valsa Mística, o Rondante, A Fiandeira e “Danças Africanas”.

Tácito de Almeida

Tácito de Almeida (14 de junho de 1889 – 3 de setembro de 1940), foi advogado, escritor, poeta e jornalista, e era irmão de outro membro da semana de 22, Guilherme de Almeida.

Teve uma vida política ativa, tendo participado da Revolução Constitucionalista de 1932, organizando o Batalhão de Defesa Paulista e participado da luta com bravura.

Di Cavalcanti 

Emiliano Augusto Cavalcanti de Albuquerque Melo (6 de setembro de 1897-26 de outubro de 1976) foi pintor, desenhista e caricaturista, mas sendo mais conhecido como pintor, com um estilo que privilegiava cores vibrantes, formas sinuosas, e temas tipicamente brasileiros, que conseguiu distinguir totalmente a arte brasileira de outros movimentos artísticos que existiam no mundo naquela época.

As principais obras de Di Cavalcanti são Samba, Cinco moças de Guaratinguetá, Músicos, Mangue,  Pierrete  e Pierrot.

Além da exposição das suas obras na semana de arte moderna de 1922, Di Cavalcanti foi responsável pelas peças promocionais, catálogo e programa do evento.

Impacto da Semana de Arte Moderna de 1922

Tudo o que a Semana de Arte Moderna apresentou ao Brasil entre 11 e 18 de fevereiro de 1922 era simplesmente muito moderno, diferente e impactante de tudo o que o público de arte brasileiro estava acostumado. Não é exagero dizer que as pessoas não entenderam na época.

Mas o objetivo era esse mesmo, abalar as estruturas e questionar a maneira que arte era feita até então, especialmente a poesia parnasiana. A palestra de Menotti Del Picchia sobre a arte estética atraiu tanto aplausos quanto vaias, assim como a declamação do poema Os Sapos, de Manuel Bandeira, uma crítica ao formalismo parnasiano. A declamação foi feita por Ronald de Carvalho, já que Bandeira, com tuberculose, não pode participar da semana.

Mas talvez o ato mais lembrado ocorrido no Theatro Municipal tenha sido Heitor Villa-Lobos entrar para tocar de casaca, mas calçando um sapato em um pé e um chinelo no outro, o que atraiu mais vaias da plateia. Villa-Lobos explicaria depois que fez isso por um calo inflamado, não para afrontar os padrões, mas o fato entraria para a história da Semana de Arte Moderna como mais um ato de contestação.

As reações conservadoras na época foram fortes, chamando os participantes da semana de subversores da arte, espíritos cretinos e débeis e futuristas endiabrados. E por não terem um ideário comum, os Modernistas acabaram se dispersando em diversos movimentos, e a influência da Semana só cresceu 1922.

Devemos à semana de Arte Moderna de 1922, que completa 99 anos em 2021 o surgimento de alguns dos mais importantes movimentos culturais brasileiros, como o Tropicalismo e a Bossa Nova, que , seguindo os “mandamentos antropofágicos”, absorveu o que havia de melhor lá fora e misturou com nossas raízes, criando uma arte totalmente brasileira, mas também universal.

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