Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 16.02.2012 16.02.2012

Selton Mello retoma parceria com o diretor Mauro Lima e estreia ‘Reis e Ratos’

Por André Bernado
Otávio Muller e Selton Mello em cena de Reis e Ratos
A amizade começou lá atrás, tímida ainda, em 2003. Selton Mello era o protagonista e Mauro Lima, o produtor executivo de Lisbela e o Prisioneiro, de Guel Arraes.
 
Cinco anos depois, os dois voltaram a se esbarrar nos sets de Meu Nome Não É Johnny, adaptação do livro homônimo de Guilherme Fiuza, que foi assistido por 2,1 milhões de pagantes.
 
Já nesta época, a amizade estava sacramentada. E, a exemplo de outras tantas de Hollywood – como as de Martin Scorsese e Robert de Niro, Ridley Scott e Russell Crowe e Tim Burton e Johnny Depp –, promete ser longa e produtiva.
 
A confiança entre os dois é tamanha que Selton topou fazer Reis e Ratos, que estreia nesta sexta-feira, dia 17, por um cachê simbólico.
 
O diretor, por sua vez, deu ao ator carta branca para improvisar em algumas cenas. “Esse filme é tão insano e delirante que, a certa altura, já não conseguia decorar mais nada…”, entrega Selton, bem-humorado. “A partir de uma determinada cena, vocês podem reparar: eu apareço sempre com um papel na mão. Qualquer dúvida, eu consultava o script ali mesmo, na hora”, diverte-se.
Em seu 21º longa-metragem como ator, Selton interpreta Troy Somerset, um estereotipado agente da CIA incumbido de participar de uma missão ultrassecreta no Rio de Janeiro dos anos 60. 
Confira a entrevista com o diretor e todo o elenco da produção rodada em apenas 17 dias. Começamos com Selton Mello e Mauro Lima.
 
Reis e Ratos é sua terceira parceria com Mauro Lima. O que mais chama sua atenção no trabalho dele?
 
Selton. Eu tenho uma afinidade muito grande com o Mauro. Desde que a gente se cruzou pela primeira vez, em Lisbela e o Prisioneiro, descobri uma série de afinidades. A gente gosta dos mesmos filmes, essas coisas. Depois, veio Meu Nome Não É Johnny, que fez um sucesso gigante. Já nessa época, eu disse a ele: “Pô, precisamos fazer outras coisas juntos”. Foi quando o Mauro me deu o roteiro de Reis e Ratos para ler. Algum tempo depois, ele me ligou, explicando o que estava acontecendo. Daí, perguntou: “Vamos nessa?”. Respondi: “Vamos! Pra quando?”. “Semana que vem! Topa?”. (risos) “Vamos. Tô dentro!”, respondi. Eu sonho com o dia em que não vou precisar de ensaio para rodar um filme. Esse negócio de ensaio é muito chato. Existe um excesso de preparação no cinema. A gente não é preparado para a vida, é? A gente nunca sabe o que vai acontecer no minuto seguinte. Cinema tem muito a ver com o aqui e agora. Que tal botar a câmera para funcionar e deixa rolar?
 
Reis e Ratos foi rodado em apenas 17 dias. Isso foi uma decisão estratégica ou uma imposição orçamentária?
 
Mauro. Era a opção mais natural. A ideia de fazer esse filme surgiu de maneira repentina. Bem, o roteiro já estava pronto há cinco anos. Mas a ideia de rodá-lo surgiu quando fui visitar a locação do filme O Bem-Amado.Durante a visita, a produtora Paula Lavigne ficou brincando sobre a possibilidade de rodar outro filme naquela locação. Bem, essa ideia não é totalmente nova. Não é de hoje que filmes menores pegam carona em uma produção maior. O cinema B de Hollywood já fez muito isso nos anos 50 e 60. Lá pelas tantas, ela chegou para mim e disse: “Escreve aí um roteiro para a gente filmar aqui”. Foi aí que me lembrei do roteiro de Reis e Ratos que, por uma feliz coincidência, se passa na mesma época de O Bem-Amado. No final das contas, a gente rodou o filme com um orçamento modesto e em pouquíssimo tempo.
 
Em apenas 17 dias, Mauro Lima conseguiu rodar Reis e Ratos
 
Foi difícil convencer atores como Selton Mello, Rodrigo Santoro e Cauã Reymond a trabalharem sem cachê?
 
Mauro. Não foi difícil, não. Alguns deles, como o Selton e o Otávio (Muller, ator) são parceiros de longa data. Outros, como o Santoro e o Cauã, conheci ali na hora. Mas senti da parte de todos eles um envolvimento muito grande e uma vontade muito grande também de participar daquele projeto.
 
Por ser um parceiro de longa data do Mauro Lima, é verdade que você recebeu carta branca para improvisar em algumas cenas?
Selton. Eu sempre improviso muito em cena. Mas, desta vez, até que não. Neste trabalho específico, a gente tinha diálogos muito bons e engraçados. Mesmo assim, falei muita sandice… A cena da varanda, por exemplo, foi muito improvisada. Esse filme era tão insano e delirante que, a certa altura, eu já não conseguia decorar mais nada… (risos) Vocês podem reparar: a partir de uma determinada cena, eu apareço sempre com um papel na mão: “Segundo as minhas anotações…”, repito sempre. Eu já não conseguia decorar coisa nenhuma. Qualquer dúvida, consultava o script ali mesmo, na hora. O texto era muito louco…
 
Qual foi sua principal fonte de inspiração para compor Troy Somerset?
 
Selton. Eu só tinha duas alternativas: ou fazia uma coisa meio americana, que o Kiko (Mascarenhas, ator) fez e ficou muito bom, ou prestava uma homenagem aos grandes atores do cinema “noir”, como James Cagney, Robert Mitchum e Humphrey Bogart. Então, resolvi prestar uma homenagem a eles. Se você notar, eu tenho uma expressão facial que não sai nunca: a testa franzida, os olhos apertados… A cara é tão feia que parece que estou com dor de barriga… (risos) Além disso, meu personagem é daqueles que já vêm dublados: sabe dublagem brasileira de filme americano dos anos 50? Pois é, essa foi a minha viagem nesse personagem…

 
 
Em Reis e Ratos, Selton presta homenagem a grandes astros do cinema noir
 
Como surgiu a ideia de fazer humor em um período tão conturbado da história como o golpe militar de 64?
 
Mauro. Bem, não vejo Reis e Ratos como uma comédia. A minha intenção ao escrever esse roteiro não era fazer rir. Fazer rir, por acaso, tem a ver com o meu jeito de ser. Em Meu Nome Não é Johnny, que é um autêntico drama, há cenas de rolar de rir. Faz parte do meu jeito de ser. Reis e Ratos compreende um período menos barra-pesada da ditadura, que é o período anterior ao AI-5. Depois do AI-5, convenhamos, fica realmente difícil fazer humor.
 
O que mudou na sua vida como ator desde que você se tornou diretor?
Selton. A diferença é que, agora, eu conheço melhor tudo que está acontecendo no set de filmagem. O filme não termina quando acaba, entende? A ralação continua depois: trilha sonora, efeitos especiais, etc. O diretor continua na ralação depois que os atores voltam para casa. A diferença maior é essa: passei a conhecer melhor como a engrenagem funciona… Sinto que a função de diretor me deixou até mais criativo.
 
Em quase 20 anos de carreira, você já contabiliza seis longas-metragens. Emplacar um sucesso de bilheteria como Meu Nome não é Johnny facilita ou dificulta as coisas? Você diria que, hoje em dia, as cobranças são maiores do que há cinco anos?
Mauro. Sempre tive essa vontade de ser um diretor nos moldes do Soderbergh. Num momento, o cara roda um filme grande. Dali a pouco, outro, pouco alternativo. Quando menos se espera, ele faz um terceiro, muito alternativo. Isso dá um fôlego legal na carreira de qualquer diretor. A vida de longa atrás de longa é uma batalha inglória, porque você leva muito tempo. A vida é muito curta para o tempo que se perde fazendo um longa-metragem atrás do outro. Entre um e outro, você precisa encaixar algo como Reis e Ratos no meio.
 
Selton, recentemente, você recusou um convite do diretor J.J. Abrams para fazer Star Trek. Você não pensa em seguir carreira no exterior?
Selton. Penso, é claro. Mas prefiro que alguma coisa que eu faça por aqui repercuta lá fora, entende? Como o Rodrigo Santoro. O Santoro fez O Bicho de Sete Cabeças, que foi exibido não-sei-onde, que foi assistido por não-sei-quem, que chamou o Rodrigo para fazer não-sei-o-quê. Eu não me imagino parando a minha vida aqui e me mudando para lá, tendo que começar tudo de novo: “Olá, muito prazer, meu nome é Selton Mello e eu sou ator!”. Não, isso não! Eu tenho muito orgulho de tudo o que conquistei aqui dentro. Tenho vontade, sim, de fazer cinema lá fora. Minhas referências estão todas lá. Cresci vendo aqueles caras. Acontece que eles me chamaram para participar de um negócio que não tinha sequer personagem. Eu falei: “Bom, gente, não posso ir sem saber o personagem que vou fazer”. Como ele
 
 
Confira o trailer de Reis e Ratos:
 
 
 
 
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