Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Sem categoria 08.12.2014 08.12.2014

Scott Snyder conta como recriou a lenda do Batman

Por Marcelo Rafael
 
Um dos mais celebrados autores de super-heróis do momento, Scott Snyder esteve nos quatro dias de Comic Con Experience (CCXP), atendendo ao público com autógrafos e fotos e também em palestras em que falou sobre o Cavaleiro das Trevas.

Em 2011, ele teve a tarefa de recontar a história de Batman, após o reinício de todas as histórias da DC Comics. E agradou em cheio à garotada mais nova fã do Morcego, ao lado do desenhista Greg Capullo.

O roteirista também escreveu Vampiro Americano com o brasileiro Rafael Albuquerque, além de passar por Monstro do Pântano e Superman. Em entrevista exclusiva ao SaraivaConteúdo, falou do desafio de recriar Batman, de suas inspirações, de sua primeira visita ao Brasil e de sua família.

Sobre os boatos de que estaria preparando um novo Cavaleiro das Trevas, comentou, em uma de suas palestras, que não pode dizer nada por enquanto. Para nós, prometeu apenas grandes viradas na vida do Homem-Morcego para o meio do ano, nos EUA.

Você disse aqui na CCXP que sempre foi um grande fã do Batman, desde criança; até tinha uma cueca favorita dele (risos). Como foi quando você percebeu que ia mesmo recontar a origem de um grande personagem como ele?

Scott Snyder. Eu fiquei em pânico. Lembro-me de não conseguir dormir, conversei com minha esposa e disse "Talvez eu não devesse fazer isso". Eu estava muito nervoso porque muitas das minhas histórias favoritas eram histórias do Batman e tantos roteiristas e desenhistas trabalharam com o personagem, o que foi bastante intimidador. Mas também me lembro de pensar que o único jeito de fazer era imaginar que você os inventou e fingir que não existiram histórias anteriores, apenas saber que, se você adora o personagem, todas as outras versões estarão lá, no DNA da sua própria versão. Assim, você honra a tradição se realmente adora o personagem.

E como é mexer em um personagem, como os super-heróis, com uma história tão longa, tão antiga, e fazê-lo atraente para as novas gerações, tão conectadas, hiperativas?

Scott Snyder. É assustador, porque ele tem uma histórica tão bacana e, ao recomeçá-la você sente que não vale a pena. Mas o que eu tentei fazer foi tocar a história em vez de recomeçá-la, no espírito do que Frank Miller fez com Ano Um. Seria 180º diferente dessa história. Legal foi fazer algo diferente para os dias de hoje, com supertempestades, terroristas, corrupção, pandemias, medos pós-apocalípticos. Eu queria fazer algo que conversasse com os medos que eu e meus filhos [Jack e Emmet] têm nos dias de hoje. E também fazer algo pessoal, algo sobre o que eu gosto no Batman e o que inspira as pessoas.

A DC Comics tem alguma interferência no seu trabalho ou você tem liberdade para lidar com o personagem como deseja?

Scott Snyder. Eu tenho tido sorte, eles não têm dito “não” até agora. Tudo que eu sugeri foi OK fazer. Geralmente eu apresento a eles uma ideia de história; então, ficamos para lá e para cá discutindo o que poderia ser melhor, o que está errado, o que talvez não funcione. Nesse estágio, eles podem dizer o que quiserem. Mas, uma vez que começo, não mudo mais nada. Há uma parte em que decidimos os pontos de virada juntos, eles fazem sugestões e eu ouço. Mas, uma vez que comecei a escrever e surgem ideias, não dá mais para mudar nada.
 
                                                                                     Marcelo Rafael
Snyder assina Vampiro Americano durante a CCXP

Qual a história que você mais curtiu do personagem?

Scott Snyder. O Cavaleiro das Trevas. Eu cresci em Nova York e aquela história fez com que Batman parecesse real para mim porque, apesar de aquela cidade estar no futuro [na HQ], ela tem os problemas que Nova York tinha na época da publicação [1986]: gangues, prostituição [ilegal no estado de Nova York], corrupção… Então, de repente, Batman estava em um mundo que era real para mim, mesmo sendo aquele um mundo futurístico. Guerra Fria, medo de um holocausto nuclear… eram medos que um garoto tinha naquela época, e isso [a HQ] mudou bastante o que eu pensava sobre super-heróis e sobre como eles poderiam andar em nosso mundo e ser relevantes de modos que eu não conhecia até então. Aquela história mexeu comigo.

Quais foram as suas influências e inspirações usadas nas histórias do Homem-Morcego?

Scott Snyder. Ter sido criado em Nova York me deu uma perspectiva histórica em relação à cidade, uma perspectiva em relação às gerações que vieram antes de você e viveram suas vidas, morreram… alguns na pobreza, outros na riqueza. Tantas vidas que você nunca conheceu… E os bairros que você gosta também terão desaparecido, substituídos por novas histórias, novas famílias… Você conhece a cidade por um momento e já era. É uma nova cidade em questão de 10 anos. Foi a grande influência para mim ao colocar as coisas no papel e escrever A Corte de Corujas. Eu queria mostrar como a cidade muda. Você pode me conhecer melhor do que ninguém, mas eu vou mudar com o tempo e você não me conhecerá mais. Não ache que me conhece tão bem.

Como você vê a relação entre Batman e Coringa? Como você a desenvolveu?

Scott Snyder. Eu queria fazer algo diferente, algo em que o Coringa fosse visto como nunca antes. Para mim, essa ideia de que ele pensa que é amigo do Batman porque o que ele faz é dar-lhe terríveis pesadelos para sobreviver, e isso faz do Batman um ser mais forte. Eu sabia que isso daria uma história original para mim e que conversaria com meus medos. E isso tem a ver com o fato de que estava esperando um segundo filho com minha esposa. Eu tinha medo de não ser um bom pai. Sabe, o medo do Batman de ser um mau pai… eu sabia que seria o rumo certo para aquela história, para mim, emocionalmente, àquela época.
 
"Eu queria fazer algo diferente, algo em que o Coringa fosse visto como nunca antes"

É a sua primeira vez no Brasil, e para um grande evento. Quais eram as suas expectativas e o que achou?

Scott Snyder. Eu sabia que seria um evento emocionante, mas não esperava que fosse deste tamanho. É enorme. É como a San Diego [Comic Con], o que é maravilhoso. Mostra a vibração e animação que vocês tem aqui neste país. É uma coisa maravilhosa de ver para qualquer um que curta Quadrinhos.

E sobre o país? Tinha alguma ideia, alguma expectativa?

Scott Snyder. Alguns de meus amigos próximos são do Brasil: Rafael Albuquerque, de Vampiro Americano, Gabriel Bá e Fábio Moon. Conheço muito de São Paulo e do Brasil por meio deles porque vejo fotos de seus lares, falam como são seus dias. Então, eu tinha a imagem de ser uma cidade realmente rica culturalmente, colorida… E fez jus à reputação, eu estou me divertindo muito.
 

Conhece algo de Quadrinhos brasileiros?

Scott Snyder. Estou aprendendo agora. Eu fico tão ocupado com os Quadrinhos no EUA que mal tenho a chance de ler qualquer outra coisa, e minha esposa [Jeanie] fica me provocando porque eu nunca leio. Então, estou muito ansioso em voltar para casa com alguns quadrinhos brasileiros. Na verdade, assim que acabarmos esta entrevista, vou fazer compras atrás de algo brasileiro para mim e para minha família.

A Turma da Mônica é um grande sucesso aqui. Já ouviu falar dela?

Scott Snyder. Sim. Sim. Gustavo [Duarte]. Ele escreveu um dos álbuns [Pavor Espaciar, com Chico Bento]. Eu imagino que talvez meus filhos curtam.
 
Scott Snyder teve a tarefa de apresentar para a geração dos anos 2000 a origem de um dos mais famosos personagens da DC Comics
 
 
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