Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 08.10.2010 08.10.2010

Sartoris, de William Faulkner, é lançado no Brasil

 


Por Felipe Pontes

Uma dualidade interessante marcaa obra de William Faulkner, vencedor do prêmio Nobel de literatura de 1950. Aomesmo tempo em que é o autor norte americano que com mais freqüência é alçadoao nível de originalidade e universalidade de modernistas europeus como JamesJoyce e Thomas Mann, seus livros são o orgulho do patrimônio cultural doidiossincrático Mississipi, Estados Unidos. O escritor soube como ninguém filtrar a realidadesocial – em especial as tensões raciais suscitadas pela escravidão – de seuestado natal. E o fez através de um universo ficcional próprio, o condado deYoknapatawpha, cenário de 14 dos 20 romances que escreveu.

“Me interessei por Faulkner pelopoder de sua linguagem, mais do que por ser mississipiano como eu”, diz osenhor Noel Polk, da Universidade Estadual do Mississipi. “Ele foi tudo, menosum sulista”, comenta. Atual portador do bastão de maior especialista dosestudos faulknerianos, o professor esteve no Brasil para debater o lançamentoda primeira tradução brasileira de Sartoris (Cosac Naify), terceiro romance escrito por Faulkner, traduzido por Cláudio Marcondes. Enquanto é tido por historiadores como autorde uma representação precisa do sul dos EUA na primeira metade do século XX,””Faulkner expressa o indizível””, nos intriga o senhor Polk. “”Elelida com a maneira como a informação é revelada””, explica.

Uma pintura cubista é uma imagemrecorrente para descrever a prosa de Faulkner, que não fazia concessões aosleitores e chegava a declarar, como na famosa entrevista disponível na ParisReview, estar muito ocupado escrevendo para se importar com o público. Feita deredundâncias, sua escrita sobrepõe pontos de vista de diferentes personagens,sujeitos a motivações diversas. “Faulkner entendia que a estória se realizadentro das pessoas, através de memórias, e que contá-la é contá-la de umaposição específica”, diz Polk. Talvez por isso os acontecimentos repetidos, apontuação incomum, as pequenas tragédias cotidianas – que quase sem quererexpressam o peso da passagem do tempo sobre a vida dospresentes – e a própria temporalidade entrecortada de obras-primas como Absolom! Absolom! e O som e a fúria (Cosac Naify) tenham sido tão pouco compreendidas pelos editores do século passado.

Apesar do rigor fora do comum emavaliar o próprio trabalho – “não se incomode em ser melhor do que os seuscontemporâneos ou predecessores. Tente ser melhor do que si mesmo” –, Faulkner nuncafez grande estardalhaço pelas modificações intrusivas que os editores faziam emseus livros. “Ele as aceitava. Primeiro por pretender extrair sustento de suaescrita, depois talvez por compreender ser natural ao mercado editorial querervender versões mais consumíveis”, diz o professor Polk, homem responsável porrestabelecer os textos originais dos 20 romances de Faulkner de acordo comos manuscritos deixados pelo autor. Foram cerca de 30 anos de exaustivotrabalho de “desedição” em prol de recuperar o poder inovador de sua prosa.

A mesma sensação de justiça aoautor pode ter agora o leitor brasileiro, a partir da iniciativa da Cosac Naifyem reeditar a obra completa de Faulkner. O recém-lançado Sartoris (Cosac Naify) é emblemático nesse sentido e também considerado por Polk como uma boa porta de entrada aos leigos em Faulkner. Trata-se na verdade deuma fração de um livro mais longo, nunca publicado, Flags in the dust, recusado por uma dezena de publishers, até que um o aceitou sob a condição de redução no tamanho.Originalmente composto pela trajetória de duas famílias, a solução encontradafoi a exclusão de uma delas, os Benbows, ficando apenas os Sartoris.

 

Lançado pela primeira vez em 1929, o mais realista e menos experimental dos livros de Faulkner – de acordo com Polk – conta a história dessa emblemática família do Mississipi que, após viver a glória no sistema escravocrata, enfrenta as transformações das primeiras décadas do século XX. Uma sucessão de perdas resume a família Sartoris a um pequeno núcleo: tia Jenny, o avô Bayard Velho e o neto Bayard Novo. Todos vivem sob o estigma de dois fantasmas do passado: o Coronel Sartoris, pai de Bayard Velho, e John, irmão gêmeo de Bayard. Em  Sartoris é a primeira vez que Faulkner apresenta ao leitor o condado de Yoknapatawpha, um mundo considerado por ele próprio como “apócrifo”, fruto de sua imaginação, mas ao mesmo tempo portador de existência própria. Sartoris (Cosac Naify) é assim considerado um livro chave, de transição na obra do autor.

Faulkner no Brasil

Homem de intelectualidade generosa, Faulkner esteve rapidamente no Brasil em 1954. Veio incumbido pelodepartamento de relações exteriores dos EUA da missão de arrefecer ânimos epraticar a política da boa vizinhança. A classe letrada brasileira andavarevoltada com episódios como o veto ao visto norte-americano de EricoVerissimo. Passando por um período de profunda depressão e alcoolismo, Faulknerpouco esforço fez para comparecer ao lendário I Congresso Internacional deEscritores – no qual também estava escalado o poeta Robert Frost, além deautores de outras nacionalidades, como Miguel Torga. A única atividade que fezquestão de participar foi uma conversa com cerca de cem novos escritoresbrasileiros. As circunstâncias da visita foram ficcionadas por Antônio Dutra no premiado livro Dias de Faulkner (ImprensaOficial). 

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