Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Música 22.01.2015 22.01.2015

São Paulo e a música: muito além do “Trem das Onze”

Por Bruno Capelas
Pare e pense: uma música que é a cara de Nova York? Provavelmente você se lembrou de “New York, New York”, de Frank Sinatra, ou de “Empire State of Mind”, da dupla Jay-Z e Alicia Keys.
E uma canção que simbolize o Rio de Janeiro? “Garota de Ipanema”, “Rio 40 Graus”, “Cidade Maravilhosa”, “O Barquinho”… a lista é imensa.
Mas e quanto a São Paulo, que faz 461 anos no próximo dia 25? Pois saiba que, muito além do “Trem das Onze” de Adoniran Barbosa ou da esquina da Ipiranga com a São João da “Sampa” de Caetano Veloso, a maior cidade do País continua tendo sua vida, seus habitantes e histórias cantadas por novos músicos, muitas vezes influenciados por artistas que são a cara da metrópole. Duvida?
É o caso de Anelis Assumpção, que lançou no ano passado o seu segundo disco, Anelis Assumpção e os Amigos Imaginários. O álbum, que deu a ela o prêmio de melhor intérprete de 2014 pela Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA), contém uma forte energia urbana em canções pop, marcadas pela correria e pela confusão de São Paulo.
Como em “Cê tá com Tempo?”, pergunta típica de qualquer paulistano, ou na história de uma moça que saiu no meio de sua festa de casamento para ir assistir a uma sessão de filmes de terror em “Song to Rosa”. Para a cantora, Amigos Imaginários é “um disco paulistano disfarçado”, como disse a ela o rapper carioca B Negão.
Nascida na Mooca e criada na Penha, bairros da zona leste da cidade, Anelis carrega no DNA a característica de cantar São Paulo. Ela é filha de Itamar Assumpção, um dos principais expoentes da Vanguarda Paulistana, movimento dos anos 1980 que contava com nomes como Arrigo Barnabé, Grupo Rumo, Língua de Trapo e Premeditando o Breque.
Além de buscar melodias e arranjos não convencionais, essa geração de artistas também se notabilizou por contar histórias da capital paulista, em canções como “São Paulo São Paulo”, do Premê, “Amanheceu”, do Rumo, ou “Clara Crocodilo”, de Arrigo Barnabé.
“Não tenho a menor ideia de que pessoa eu seria se não fosse filha dele, mas meu pai é minha referência mais brilhante para além da música”, diz Anelis, que alega viver em crise com a megalópole. “Ainda assim, sou uma paulistana orgulhosa”, acredita a cantora, que vê em Paulo Vanzolini e nos Racionais MCs dois grandes símbolos da música local.
                                                                                                                                                     Renato Stockler
Anelis Assumpção lançou no ano passado o seu segundo disco, Anelis Assumpção e os Amigos Imaginários
INTRUSA
A inspiração paterna para narrar a metrópole também está na veia de Tim Bernardes, vocalista da banda O Terno, uma das principais revelações do rock paulista. Dono de um dos discos mais bacanas do último ano (intitulado O Terno), o trio mescla a irreverência nas letras, característica herdada do pai de Tim, Maurício Pereira (dos Mulheres Negras), com riffs e solos de guitarra embebidos em psicodelia.
É o que acontece, por exemplo, em “O Cinza”, que o próprio Bernardes define como “uma coisa meio ‘retratos da cidade’, misturando o clima cinzento de um sonho com uma parte pesada, que tem a ver com a correria e a loucura de São Paulo”, ou em “Modão de Pinheiros”, uma fúnebre história de amor no bairro da zona oeste paulistana.
O vocalista e guitarrista do power trio, que conta ainda com Victor Chaves (bateria) e Guilherme d’Almeida (baixo), diz se inspirar em Ray Davies, compositor do grupo britânico Kinks. “Foi um cara que fez muitas crônicas sobre Londres e a sociedade inglesa. Às vezes, parece bobo, mas muitas vezes as músicas são metáforas sobre coisas maiores”, avalia Tim, que define os também paulistanos Mutantes como uma das bandas de sua vida.
                                                                                                          WIlly Biondani / Irmãs Fridman
Dono de um dos discos mais bacanas do último ano (intitulado O Terno), o trio mescla a irreverência nas letras
Para o artista, “ser compositor em São Paulo é meio maluco. Você não vai fazer samba, você não é da Bahia, você não é dono de nada. É tudo e nada ao mesmo tempo”. No entanto, Bernardes não tem a pretensão de ser um cronista da capital paulista: “ela é que acaba sendo meio intrusa nos nossos assuntos”, brinca.
QUENTE E FRIO
Já chamada (injustamente) de “túmulo do samba” por Vinicius de Moraes, São Paulo continua a produzir bons sambistas. Um dos melhores nomes da atual safra é o grupo Meia Dúzia de 3 ou 4, que existe há 11 anos e gravou em 2014 seu terceiro disco, Tem Muito Disso Que Cê Tá Falando.
Autodescrito como “uma banda ligeiramente paulistana, de MPB – nada P, mas muito B”, o grupo tem canções que remetem ao melhor do gênero já produzido em São Paulo, de autores como Germano Mathias, Premeditando o Breque e, claro, Adoniran Barbosa.
“A Nível de MASP” retrata os fantásticos seres que passam por debaixo do vão livre do museu da Avenida Paulista; já em “Maquiavel Para Crianças”, o Pequeno Príncipe de Saint-Exupéry vai parar na porta de um boteco na zona norte da cidade.
Um dos melhores nomes da atual safra é o grupo Meia Dúzia de 3 ou 4, que existe há 11 anos
“Com todos os integrantes da banda morando aqui [são sete, ao todo], São Paulo acabou sendo a nossa musa natural, até um pouco por culpa das nossas influências”, conta Thiago Melo, um dos vocalistas do grupo. “É uma cidade que engole, mas que também rumina, e aí há que se saber aproveitar”, diz ele.
Já seu colega Marcos Mesquita talvez dê a definição exata sobre como é ser criativo em um local tão movido pela racionalidade. “Ao mesmo tempo que é um lugar bruto e feio, habitam nela pessoas tão sensíveis e capazes de verter seu talento para a cultura. Isso a torna um espaço único”, explica.
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