Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Música 22.01.2020 22.01.2020

São Paulo e a música: muito além do “Trem das Onze”

São Paulo

Pare e pense: uma música que é a cara de Nova York? Provavelmente você se lembrou de “New York, New York”, de Frank Sinatra, ou de “Empire State of Mind”, da dupla Jay-Z e Alicia Keys. E uma canção que simbolize o Rio de Janeiro? “Garota de Ipanema”, “Rio 40 Graus”, “Cidade Maravilhosa”, “O Barquinho”… a lista é imensa.

Mas e quanto a São Paulo, que faz 466 anos no próximo dia 25? Pois saiba que, muito além do “Trem das Onze” de Adoniran Barbosa ou da esquina da Ipiranga com a São João da “Sampa” de Caetano Veloso, a maior cidade do País continua tendo sua vida, seus habitantes e histórias cantadas por novos músicos, muitas vezes influenciados por artistas que são a cara da metrópole. Duvida?

Homenagens que vêm desde o Império

Em seu trabalho, que já soma 22 anos de pesquisa, Assis Ângelo identificou a primeira composição destinada à cidade, datada de 1750.

“O Correio Paulistano, por exemplo, edição de 6 de agosto de 1862, noticiou a existência do álbum Melodias Paulistanas, contendo 12 peças para canto e piano, do padre Mamede José Gomes da Silva”, conta o jornalista ao comentar que, antes de Mamede, os religiosos Calixto e Anchieta Arzão louvaram a cidade com a música Missa a São Paulo, de 1750.

Entre partituras, notas em periódicos extintos e canções recentes, o acervo conta com cerca de 3 mil títulos musicais, todos abordando a metrópole. “Os artistas que têm composto para Sampa são de quase todas as partes do país”, diz Assis ao citar nomes como os cariocas Chiquinha Gonzaga e Lamartine Babo, o paraense Billy Blanco, o pernambucano Luiz Gonzaga, os mineiros Hervê Cordovil e Téo Azevedo, dentre outros artistas internacionais, como o egípcio Peter Alouche e o uruguaio Taiguara, naturalizados brasileiros.

Música e São Paulo

São Paulo é fonte de inspiração para diversas músicas que marcaram diferentes gerações. De Caetano Veloso a Vespas Mandarinas, confira alguns músicos que tiveram composições que falavam sobre a maior metrópole do Brasil.

Criolo

Criolo: do Grajauex para o Brasil

Das letras de consagrados rappers paulistanos, como Mano Brown, Emicida, Rappin’ Hood e Sabotage, que exibem a realidade dura de uma babilônia que segrega sem piedade, um nome emerge para conquistar não só o público de São Paulo, mas de todo o Brasil: Criolo.

Apesar de chegar ao grande público em 2011, com o álbum Nó na Orelha, o paulistano que cresceu no bairro do Grajaú, extremo sul da capital, já carregava anos de produção musical. Inclusive, seu primeiro álbum de estúdio Ainda Há Tempo, foi lançado ainda em 2006.

Sua carreira deslanchou com a música “Não Existe Amor em SP”, que chegou a ganhar o prêmio VMB da MTV Brasil, de música do ano.

Não existe amor em SP
Os bares estão cheios de almas tão vazias
A ganância vibra, a vaidade excita
Devolva minha vida e morra
Afogada em seu próprio mar de fel
Aqui ninguém vai pro céu

Suas rimas são um golpe de realidade ao ouvinte, ao trazer as angústias da periferia e a rotina da cidade que parece não ter amor. “A construção das músicas funciona da seguinte forma: as letras têm que dar uma sarrafada na cabeça de quem ouve. Uma música pode derrubar uma nação. E levantar outra”, disse o músico em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo.

Anelis Assumpção e a veia da Vanguarda Paulistana

São Paulo é a cidade mais cantada do mundo. Cidade nenhuma até hoje recebeu tantas homenagens musicais. É impossível ficar indiferente a quem por ela passa, e as cerca de 3 mil músicas mostram isso. Os ritmos e gêneros musicais pululam em Sampa, contando sua história de todas as formas”, comenta o jornalista Assis Ângelo, responsável por um trabalho de pesquisa sobre a memória musical da metrópole, que resultará em um livro intitulado Roteiro Musical da Cidade de São Paulo, Pequena Enciclopédia da Música Brasileira.

É o caso da paulistana Anelis Assumpção. O álbum Anelis Assumpção e os Amigos Imaginários, contém uma forte energia urbana em canções pop, marcadas pela correria e pela confusão de São Paulo, e deu a ela o prêmio de melhor intérprete de 2014 pela Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA).

Como em “Cê tá com Tempo?”, pergunta típica de qualquer paulistano, ou na história de uma moça que saiu no meio de sua festa de casamento para ir assistir a uma sessão de filmes de terror em “Song to Rosa”. Para a cantora, Amigos Imaginários é “um disco paulistano disfarçado”, como disse a ela o rapper carioca B Negão.

Nascida na Mooca e criada na Penha, bairros da zona leste da cidade, Anelis carrega no DNA a característica de cantar São Paulo. Ela é filha de Itamar Assumpção, um dos principais expoentes da Vanguarda Paulistana, movimento dos anos 1980 que contava com nomes como Arrigo Barnabé, Grupo Rumo, Língua de Trapo e Premeditando o Breque.

Além de buscar melodias e arranjos não convencionais, essa geração de artistas também se notabilizou por contar histórias da capital paulista, em canções como “São Paulo São Paulo”, do Premê, “Amanheceu”, do Rumo, ou “Clara Crocodilo”, de Arrigo Barnabé.

“Não tenho a menor ideia de que pessoa eu seria se não fosse filha dele, mas meu pai é minha referência mais brilhante para além da música”, diz Anelis, que alega viver em crise com a megalópole. “Ainda assim, sou uma paulistana orgulhosa”, acredita a cantora, que vê em Paulo Vanzolini e nos Racionais MCs dois grandes símbolos da música local.

A nova geração: o rock de Vespas Mandarinas

Vespas Mandarinas

Foto: Divulgação

Eles são fãs declarados do rock nacional de baluartes, como Paralamas do Sucesso, Titãs, Lobão, Ira! e Legião Urbana.

Eles também vêem nesse estilo musical a mesma capacidade de transgressão e comunicação do passado, apostando na retomada da importância das letras e abraçando, sem medo, o universo lírico.

A banda Vespas Mandarinas, formada por Chuck Hipólitho, Thadeu Meneghini, André Dea e Flavio Guarnieri, faz música para as massas (sem demérito), em contraponto à percepção da atual cena indie.

Em 2013 veio o primeiro álbum de estúdio da banda, Animal Nacional, que trouxe diversas influências do rock nacional dos anos 80, mas com uma roupagem mais contemporânea. Além da versão Não Sei O Que Fazer Comigo”, adaptada de “Ya No Sé Qué Hacer Comigo” da banda de rock uruguaio El Cuarteto de Nos, a faixa “Santa Sampa” é mais uma homenagem à cidade paulistana.

Sou invisível
Não sou ninguém
Deixa eu caminhar
Santa sampa
Entre mulheres elegantes
Deixa eu caminhar

Aniversário de São Paulo 2020

Para comemorar mais um ano de muita história, no dia 25 de Janeiro o aniversário da cidade de São Paulo contará com mais de 300 atividades, distribuídas por cerca de 150 pontos espalhados por todas as regiões da capital.

Na região central, o destaque fica para o “Grande Cortejo Modernista” que contará com apresentações de bandas como Skank, Ney Matogrosso, Rashid, Karol Conk, e outras. Ainda se apresentarão nas regiões mais descentralizadas, artistas como ,Emicida Falamansa, Kamau, Art Popular, e muito mais. Confira aqui a programação completa.
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