Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 27.04.2012 27.04.2012

Sangue nos trópicos: autores brasileiros afiam suas presas e mostram os seus vampiros

 
Por Marcelo Rafael
 
Há 100 anos, o irlandês Abraham Stoker morria, deixando um legado que cristalizaria uma lenda por meio da literatura. Os vampiros ganharam o mundo, incluindo o Brasil.
 
Os sugadores de sangue também aportaram por aqui. Literalmente, em caravelas portuguesas. Ou com histórias do Oriente. Ou destrancados do sótão de casarões históricos.
 
Conheça um pouco esses personagens e seus autores.
 
 
 
 
 
Autor: André Vianco
Além de Stoker, Vianco gosta muito das Crônicas Vampirescas, de Anne Rice. Considera-se um autor não apenas de vampiros, mas do oculto e do sombrio.
 
“Gosto de questionar o nosso fim e esmiuçar o cotidiano sob esse ponto de vista, o vampiro é só mais um elemento”. Vianco prepara-se para lançar seu próximo livro da série A Noite Maldita.
 
Vampiro: Vários
 
O que têm de diferente: Os primeiros livros contam a história de vampiros resgatados do naufrágio de uma caravela portuguesa. Superpoderosos, os seres congelam o Rio Pinheiros e travam lutas na Avenida Rebouças e em outros pontos de São Paulo.
 
A identificação com o público atraiu milhares de fãs pelo país. O que começou como um exemplar independente de 1000 cópias tornou-se sucesso de público em 10 anos, com uma série de livros produzidos e um webseriado.
 
LivrosOs SeteSétimoBento, O Vampiro ReiO Turno da Noite e Vampiros do Rio Douro
 
 
 
 
Autor: J. Modesto
 
Tradicional, o vampiro de J. Modesto só sai no escuro, dorme em caixão, tem um “quê” homossexual e dentes pontiagudos. Além disso, Modesto inseriu uma pitada de feitiçaria.
 
O autor já leu Drácula e também sua continuação, Drácula – Morto Vivo, do sobrinho-bisneto de Bram Stoker, Dacre Stoker. Também viu filmes com Christopher Lee no papel do conde.
 
Para Modesto, Anne Rice “organizou” o mito do vampiro, elevando-o de uma categoria de simples predador para um ser com sentimentos. Ele torce o nariz para as alterações feitas por Stephenie Meyer. “Mas, hoje em dia, tem vampiro de tudo. Vampiro com dente, vampiro sem dente”, brinca.
 
Junto com André Vianco, Giulia Moon e outros autores, escreveu a coletânea Amor Vampiro. Já leu autores nacionais sobre o tema e considera Nazarethe Fonseca a “Stephenie Meyer brasileira”, por sua narrativa romântica e por seu sucesso.
 
Vampiro: Jean Chauvigny
O que pensa de Drácula: “O conde Drácula? É um esnobe” – Jean Chauvigny
O que tem de diferente: Jean é francês e vem ao Brasil ao lado de um cardeal a serviço do Vaticano. A Igreja se vê obrigada a fazer um pacto com o vampiro para combater um demônio que tem ligações com a política e tráfico de drogas no Rio e em São Paulo. Juntam-se aos dois um investigador da polícia e um lutador de artes marciais.
Livro: TrevasAmor Vampiro
 
 
 
Autora: Nazarethe Fonseca
 
Nazarethe Fonseca é maranhense e decidiu contar sua história em São Luís. Apaixonada pelo tema, assistiu a Drácula (1979), com Frank Langella, aos cinco anos. Leu Bram Stoker aos 20.

 
“Fiquei bastante impressionada com a forma de narrativa escolhida. Diários e cartas tornaram o livro intimista”, avalia.
 
Sobre Crepúsculo, ela considera seres que celebram casamentos, geram bebês e trazem para o século XXI conceitos da Era Vitoriana (como a castidade) uma estranha contribuição ao tema.
 
“Os personagens de Meyer se afastaram da essência do vampiro como uma criatura que é uma metáfora para a sexualidade, poder e imortalidade”, afirma.
 
Dos autores nacionais, cita Giulia Moon. “Devorei o livro. Ela conseguiu usar suas referências orientais e fazer um livro rico em cultura japonesa e brasileira.”
 
O que tem de diferente: No tocante ao romance de uma humana com um vampiro, Alma e Sangue se aproxima de Crepúsculo. Mas as semelhanças param por aí. Kara Ramos, a protagonista, não é uma estudante colegial, mas sim uma restauradora de renome e mulher de fibra.
 
Problemas com o passado a assombram. E as coisas se complicam quando ela encontra um ser que foi vampirizado na noite de São Bartolomeu, em 1572, na França, trancado no sótão de um casarão. E ela não está em uma cidade escura, sombria, mas em uma das regiões mais ensolaradas do país: o Nordeste. Um romance adocicado se mescla a lutas e descrições repugnantes dos efeitos de ser um sugador assassino.
 
Vampiro: Jan Kmam
 
O que pensa de Drácula: “Eu, Jan Kmam, você Lestat e nosso mais antigo irmão de sangue, Drácula, sabemos que o tempo sempre será agora” – Jan Kmam
 
 
 
Autora: Giulia Moon
“Se você quiser ler uma história de samurais que se passa no Brasil, cuja protagonista é uma vampiresa japonesa, leia Kaori”, diz Moon.

 
Assim como J. Modesto, ela também leu Stoker e via os filmes de Christopher Lee na adolescência, além do desenho japonês Don Dracula.
 
Sobre histórias nacionais, é categórica: “Por que não haveria vampiros no Brasil? A noite é de todos.”
 
Assim sendo, gosta de Kizzy Ysatis (O Clube dos Imortais), Martha Argel (O Vampiro da Mata Atlântica, Relações de Sangue), além de Nazarethe Fonseca e André Vianco. “Em termos de diversidade e qualidade, não ficamos atrás de ninguém!”
O que tem de diferente: Assim como muitos nisseis e sanseis, Kaori mora na Liberdade, em um quartinho alugado.
 
Os livros unem dois traços da personalidade da autora: a paixão pelos bebedores de sangue e a herança nipônica. A narrativa intercala capítulos no Japão de 1647 e na São Paulo de 2008.
 
Enquanto, por lá, Kaori desenvolve sua sensualidade forte em meio a lutas com katanas, samurais e criaturas do folclore japonês, por aqui, acompanhamos a história de um observador de vampiros.
Vampiresa: Kaori
O que pensa de Drácula: “Drácula-sama? Já ouvi falar dele. Muito poderoso. Um tanto solitário. Não, não tive a oportunidade de conhecê-lo. Mas nós, desmortos, sentimos uma espécie de reverência por ele. Dizem que algumas práticas da nossa Antiga Arte da Submissão foram criadas por ele, quando esteve no Japão há muito tempo.” – Kaori
 
 
 
Autora: Marcela Godoy
 
Godoy leu Stoker na adolescência, mas, assim como os outros, foi Christopher Lee quem arrebatou seu coração.
 
Considera Drácula uma metáfora para a nobreza europeia na sua melhor forma. Para não se sentir influenciada, decidiu não ler mais nada que falasse de vampiros ou demônios.
 
O que lhe atrai é o conceito do mito, a essência. Ela considera o tema fascinante e moderno por várias questões, entre elas, o “fim da noite”, com a chegada da eletricidade às cidades.
 
“Essa mudança de paradigma permite ao vampiro um trânsito pela noite urbana muito mais rico em possibilidades. Se formos para longe dos grandes centros, ainda veremos o lobisomem ou a mula-sem-cabeça muito vivos no imaginário”, afirma.
 
Outro fator é a sedução. “Eles poderiam morder a perna: passa uma artéria pela coxa, imagina o banquete! Mas não, eles querem o pescoço! A 'jugularzinha', para beber com classe”.
 
O que tem de diferente: A autora é brasileira, mas a história se passa entre o Leste Europeu e a Espanha das Grandes Navegações.
 
Pactos fechados entre Lúcifer e Caim geraram duas raças diferentes, que disputam o poder de fustigar os humanos na Terra. O tema central, segundo a autora, é a bestialidade do ser humano e as “transformações” da vida. A própria vampirização se dá de forma diferente da tradicional em O Relato.

Vampiro: Lucien

O que pensa de Drácula: “Eu diria a Bram Stoker que foi uma grande pena o Drácula original jamais ter dito o que disse o Drácula de Copolla: ‘Eu atravessei oceanos de tempo para te encontrar…’" – Lucien.
 
 
Recomendamos para você