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Samba e futebol: desde que o samba é samba é assim

Por Maria Fernanda Moraes
 
Cartola era torcedor do Fluminense das Laranjeiras. Diz a lenda que as cores da camisa do Flu (verde, branco e grená) foram a inspiração para o sambista usar o verde e rosa como as cores oficiais da Mangueira, uma das mais tradicionais escolas de samba carioca.
 
Outro tricolor famoso é Chico Buarque. Zeca Pagodinho e Beth Carvalho vibram com a estrela solitária do Botafogo. E os rubro-negros Bezerra da Silva e João Nogueira já tiveram grandes alegrias com o Flamengo.
 
O time do mestre Tom Jobim gerava divergências: algumas fontes indicam que ele era fluminense e, outras, flamenguista. O Clube de Regatas Vasco da Gama tem como ilustres torcedores Nelson Sargento, Paulinho da Viola, Martinho da Vila e Luiz Melodia."
Em São Paulo, o Noite Ilustrada era tricolor do Morumbi. Os Demônios da Garoa, Osvaldinho da Cuíca e o grande Adoniran Barbosa eram fãs do Corinthians, como o próprio Adoniran canta em Corintiá – Meu Amor é o Timão .
Desde que o samba é samba é assim*: o batuque embala as jogadas do esporte bretão e se torna uma das trilhas sonoras obrigatórias quando se fala em futebol. A afinidade entre as paixões nacionais produziu algumas passagens curiosas na história do samba e do esporte.
O choro Um a zero, composto por Pixinguinha e Benedito Lacerda, dois dos maiores mestres da nossa música, surgiu em comemoração à vitória da Seleção Brasileira contra o Uruguai, em 1919, numa decisão do Campeonato Sul-Americano, em 29 de maio daquele ano. O jogo aconteceu no Estádio das Laranjeiras, no Rio de Janeiro, e o Brasil venceu no segundo tempo da prorrogação com um gol de Arthur Friedenreich, conhecido como "O Tigre". Originalmente, a composição de Pixinguinha não tinha letra. Os estudiosos afirmam que a cadência rítmica e o ritmo acelerado do choro são reflexos de como a partida foi disputada. A letra veio posteriormente, em 1994, escrita por Nelson Ângelo (Clube da Esquina).
 
Muitos casos amorosos também figuraram entre jogadores e artistas da nossa música. O mais conhecido deles foi o romance entre Garrincha, jogador do Botafogo, e a sambista Elza Soares, sacramentando a união simbólica do futebol e do samba.
Eles se conheceram em 1962. Elza estava começando a fazer sucesso com “Se acaso você chegasse”, um samba de Lupicínio Rodrigues e Felisberto Martins, e Garrincha já era titular da Seleção Brasileira e estrela do Botafogo. A sambista fez um show para a delegação, que se preparava para a Copa do Mundo de 1962, no Chile, e os dois passaram a namorar. Foram 16 anos juntos, num relacionamento de altos e baixos. A instabilidade na relação rendeu várias músicas ao repertório de Elza. O livro O Futebol no País da Música, de Beto Xavier, conta que Garrincha também relevou seu lado musical, e Elza gravou dois sambas escritos por ele: Receita de balanço e Pé redondo.
Receita de balanço
Vamos balançar
Cantando
Vamos balançar
Sambando
Vamos Balançar
E deixando a tristeza da vida pra lá
O flamenguista Moreira da Silva, um dos precursores do samba de breque e considerado o último malandro à moda antiga,protagonizou uma história engraçada relacionada ao título da Seleção Brasileira em 1970, no México. Miguel Gustavo, jornalista e compositor, um dos parceiros de Moreira, teve a ideia de criar uma trama de filme de ação e fazer do sambista um herói em Moreira da Silva contra 007 .
 
O cenário foi o jogo contra a Inglaterra, e o enredo do samba dizia que o famoso agente James Bond recebeu a missão de sequestrar Pelé para que a Inglaterra tivesse um jogo fácil contra o Brasil na Copa de 1970. Miguel Gustavo também foi o autor da composição mais conhecida do torcedor em 1970: Pra Frente Brasil .
 
Noel Rosa
 
Geraldo Mathias, sambista paulistano, também passou por um episódio engraçado que está, inclusive, estampado numa foto no Museu do Futebol, na capital paulista. Ao encontrar o Rei do Futebol, Pelé, na década de 60, os dois posaram para uma foto. Pelé se apossou dos instrumentos que Geraldo sempre trazia consigo– uma latinha de graxa e um chapéu – e ao sambista corintiano não restou outra opção: teve que vestir a camisa do Santos do Rei.
Outros sambistas se mostraram mais reticentes sobre seus times de coração.
 
 
 
Noel Rosa, por exemplo, fala de futebol em suas músicas, mas não cita um time específico. Em Conversa de Botequim, pergunta ao garçom “qual foi o resultado do futebol”. O sambista dizia apenas que torcia para o clube em que jogava Fausto, a Maravilha Negra. O que nos leva por dedução ao Vasco.
Vários jogadores também foram retratados na música brasileira, como Fio Maravilha, Pelé, Sócrates, Garrincha, Júnior e Zico. Muitos deles também se arriscaram nos vocais. Pelé chegou a gravar com Elis Regina. Júnior, do Flamengo, foi outro que se arriscou. O jogador vendeu mais de 650 mil cópias do compacto Voa Canarinho, em 1982, que posteriormente se tornou o hino da Seleção Brasileira na Copa da Espanha.
Também não podem ser esquecidos Wilson Simonal e Jorge Ben Jor, que cantaram como ninguém vários momentos do futebol. Simonal, com sua mistura entre o samba e o soul, teve hits como Aqui É O País Do Futebol  e chegou a excursionar com a Seleção Brasileira na Copa de 70, no México. Jorge Ben Jor jogou nas categorias de base do Flamengo, mas desistiu da carreira futebolística. Sorte do seu público, que foi prestigiado com clássicos como Filho Maravilha , Camisa 10 da Gávea e Zagueiro .
GOL CONTRA
Entre tantos sucessos, sempre há uma bola fora. Foi o caso do cantor Sérgio Ricardo, que, em 1967, durante os famosos festivais de música da Record, apresentou uma canção sobre futebol: Beto Bom de Bola. Inesperadamente, a plateia começou a vaiá-lo mesmo antes do início da música. Revoltado, o músico quebrou o violão e o atirou à plateia, chegando a bradar que iria mudar o nome da música para Beto Bom de Vaia.
HOMENAGENS RECENTES
 
Martinho da Vila
Ronaldo Fenômeno, um dos ídolos mais recentes do futebol brasileiro, também ganhou sua homenagem. Na música Sou Ronaldo, Marcelo D2 narra alguns momentos da carreira do craque, entre desafios e vitórias alcançadas.
 
Jorge Ben Jor também fez recentemente uma nova versão para Ponta De Lança Africano (Umbabarauma), música de abertura do seu disco “África Brasil”, de 1976, agora com a participação do rapper Mano Brown, do Racionais MCs.
 

O time do Vasco comemorou 113 anos em 2011 e a diretoria promoveu um show (que virou um CD e um DVD, lançados em junho de 2012) com vários artistas vascaínos cantando músicas relacionadas ao time, como Nelson Sargento, Martinho da Vila, Paulinho da Viola e Erasmo Carlos. Além do hino oficial, teve espaço para as letras de funk e músicas adaptadas pela torcida que são cantadas durante os jogos.

 
*Citação da música Desde que o Samba é Samba, de Caetano Veloso
 
 
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