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Sagan, Sperling e Woody Allen

Por Lidia Aratangy, especial para o SaraivaConteúdo

A literatura nos ajuda a refletir sobre a vida; o cinema nos ajuda a entendê-la.

Em 1954, Françoise Sagan, uma jovem de 18 anos, escandalizou a França com uma novela de cunho marcadamente autobiográfico.  A obra (Bonjour,Tristesse) foi traduzida para vários idiomas e transformou sua autora em símbolo de uma geração de jovens franceses desencantados e amorais, que buscava prazeres efêmeros e descompromissados. Fortemente influenciada pelo existencialismo, Sagan criou uma protagonista de 17 anos, a entediada e cínica Cécile , que mantém com o pai sua única  ligação  afetiva (a mãe faleceu…). 

Em 2009, Sacha Sperling, um jovem de 18 anos, publica na França seu primeiro e promissor romance: Mes illusions donnent sur la cour: roman. O protagonista (que tem o mesmo nome do autor…) é um garoto de 14 anos, da alta burguesia parisiense, entediado, alienado, dado a experiências homo e heterossexuais, que busca na droga o refúgio para uma vida sem sentido.

Entre os dois lançamentos, decorreram 60 anos de conquistas sociais e científicas, que mudaram sensivelmente os costumes e o panorama que os jovens descortinam. Há semelhanças entre os protagonistas (ambos são cínicos, ambos mantêm com os pais relações artificiais, ambos carecem de projetos e interesses), mas os problemas que afligem Cécile e escandalizaram o público da década de 50 fariam sorrir os pais e professores de Sacha – para não falar de seus leitores…

Os saudosistas irão suspirar de saudades de uma época em que os problemas dos jovens se resumiam à alienação e à falta de perspectivas. Tão mais fácil do que o que temos de enfrentar hoje, com a irresponsabilidade da juventude potencializada pelo anonimato que a Internet propicia, com o mau exemplo dos políticos corruptos, com a violência das ruas e tantas outras maldições que compõem nosso ordálio.

Mas aí entra Woody Allen com sua leitura do mundo atual, expressa em seu mais recente filme, Meia Noite em Paris.  Com rara delicadeza, ele nos mostra que a memória lança  sobre o passado não vivido uma falsa áurea de purpurina, cegando-nos para o que vivemos no presente.

Afinal, cada tempo tem suas dores e suas flores. É este o momento que nos tocou viver, na trajetória do Planeta Azul. São os desafios de hoje que devemos enfrentar.  Nosso compromisso é entregar a essa geração de jovens um mundo melhor do que aquele que recebemos; e educa-los de modo a torna-los mais dignos e responsáveis do que os Sachas e Céciles da literatura.

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