Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 24.02.2010 24.02.2010

Ruy Espinheira Filho

Por Bruno Dorigatti
Foto de Tomás Rangel

> Assista à entrevista exclusiva de Ruy Espinheira Filho ao SaraivaConteúdo 


“”Eu resisto à escrita. Escrever não é nenhum prazer, não. É uma coisa que incomoda muito, angustia.”” 
Como o próprio poeta afirma, pode parecer estranho um homem de letras, que vive delas e para elas, falar isso. Mas não foge à compreensão que a busca pela palavra exata, pelo tempo e pelo ponto final, sobretudo para quem se dedica a árdua travessia pela poesia, não é nada simples tampouco fácil, mas dolorosa.

Apesar da resistência, o baiano Ruy Espinheira Filho, nascido em Salvador em 1942, vem produzindo poesia, prosa, ensaios. Entre os primeiros, contam-se 13 livros dedicados aos versos, começando com Heléboro [presente em Poesia reunida e inéditos (Record, 1998)], em 1974, e chegando, até agora, em Sob o céu de Samarcanda, lançado em 2009 pela Bertrand Brasil. Sua filiação passa por Drummond e, como ele, Ruy investe no poder restaurador da palavra, como afirmou Miguel Sanches Neto. Para outro poeta, Alexei Bueno, “”Ruy conseguiu a façanha de fluir com a mais absoluta naturalidade da grande corrente da nossa poesia modernista sem incorrer em nenhum de seus maneirismos, onde se banharam tantos de sua geração””.

Ruy publicou o primeiro livro, Heléboro, em 1974, aos 31 anos, a mesma idade que Manuel Bandeira e Monteiro Lobato publicaram os seus, “”uma boa idade para se estrear””, afirma nesta entrevista exclusiva ao SaraivaConteúdo. “”Primeiro livro é uma experiência muito particular. Tive uma sorte de não ter condições de publicar antes, e fazer como Vinicius de Moraes, cujos primeiros poemas foram praticamente todos rejeitados. Esse livro meu, não rejeitei nada até hoje.””
Heléboro abre com “”Os objetos””:

Os objetospermanecem claros.
Habita a moldura 
uma mulher de facescor-de-rosa.
Sobre a mesa de mármore 
um cavaleiro de porcelana 
saúda as visitas.
A caneta ainda escreve 
com a mesma tinta 
de um azul levemente melancólico.

Na gaveta, 
dormindosob cartas e poemas, 
o revólver aguarda.

Um breve, porém denso poema. E algo raro, já que Ruy toma gosta por poemas mais longos, divididos intrincados. Além da poesia, ele se dedica aos ensaios – já escreveu três livros sobre três modernistas que muito admira, entre tantos: Jorge de Lima, Mario de Andrade e Manuel Bandeira. “”Estes são trabalhos intelectuais. Literatura é um trabalho além do intelectual. É um trabalho passional, emocional, de sensibilidade””, afirma.
Sobre a sua produção, ele afirma não planejar nada. “”Não sei se vou escrever um romance, um conto, um poema. Escrevo o que vem. E não tem jeito.Eu não mudo, escrevo com aquilo que sou, minha personalidade, memória, emoções.””
Mas o que há de novo então em Sob o céu de Samarcanda? “”O livro. Mas os sentimentos são os mesmos””, responde. Ruy não vê graça no concretismo e no construtivismo: “”Isso não tem nada a ver com arte. Não são criações, são constructos artificiais e intelectuais. Você compreende, mas não sente o poema””.
Parafraseando uma conhecida blague de Ferreira Gullar – “”Não quero ter razão, quero ser feliz”” -, talvez sem conhecê-la, Ruy afirma: “”Não quero ter razão, quero fazer arte. Não quero defender nem justificar o que faço. Isso é papel do leitor, do crítico. Obra de arte é aquilo que você cria e joga no tempo””.
“”Se você não se reconhece num livro, esse livro não existe. O que você lê num livro é você mesmo. Se você não se encontrar nele, ele não presta para você. Se você se encontra num livro, então ele é para a vida inteira, você sente saudades do livro, do autor””, acredita.
Sobre as leituras de hoje, ele só se dedica àquilo que já conhece e gosta. Apenas relê, e o tempo vivido lhe proporciona essa opção sem culpas. “”Só leio hoje autores que me agradam. E já tenho idade suficiente para ter direito a esse egoísmo lírico””, diz o fã ardoroso de Olavo Bilac, Castro Alves, Álvaro de Azevedo, além do modernismo, onde tinha “”muita gente boa””.
Para Ruy, fazer poemas é fugir da racionalidade explícita a que somos submetidos diariamente. “”Quando você cria, está num mundo onde não racionaliza. Talvez por isso você se expresse através da literatura””. Um alento em um mundo instrumentalizado e regrado em que vivemos.

> Leia alguns poemas de Ruy Espinheira Filho


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