Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 13.07.2010 13.07.2010

R.P

O poeta Roberto Piva faleceu no primeiro sábado de julho, dia 03, e seu corpo foi cremado no dia seguinte. Desde o início deste ano, enfrentava dificuldades para tratar o Mal de Parkinson. A seguir, você lê o texto publicado originalmente pelo poeta Augusto de Guimaraens Cavalcanti* no caderno Prosa & Verso do jornal O Globo no último sábado, 10 de julho.

Seu trabalho mais conhecido, o livro de poemas Paranoia, publicado em 1963, com fotografias do artista plástico Wesley Duke Lee, ganhou uma nova edição em 2010 do Instituto Moreira Salles, a quem o pertence o acervo de Piva. A foto ao lado, de Wesley Duke Lee, pertece a este acervo. 

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Estes últimos dias não têmsido fáceis. Como diria Roberto Piva, “o africano não têm uma cultura da“emoção”. É da “comoção”. É mais forte ainda.” “Tragédia não tem solução. Dramatem.” Pois é, tudo na África tem que ser mais trágico e comovido. No dia 02 dejulho o Brasil caiu para a laranja maquinal e mecânica na África, e no dia 03de julho “morreu” o poeta Roberto Piva; o riso do galo não anunciou o dia. Mas,o que dizer nos momentos irreversíveis? Não são todos os instantesirreversíveis, esvoaçantes como formas que transbordam oceanos com seuspássaros a nos bicar o fígado? Mulheres com penas se despem flutuantes para ooutro lado dos espelhos, quando os espelhos dormem. Me lembro do texto queOctavio Paz escreveu sobre a morte de André Breton. Nele Paz proferia: “Não é aprimeira vez que Breton morre. Ele o soube melhor que ninguém: cada um de seuslivros centrais é a história de uma ressurreição. Não sabemos o que sejarealmente morrer, exceto que é o fim do eu – o fim do cárcere. Breton rompeuvárias vezes este cárcere, o alargou e o negou em face ao tempo e, por uminstante sem medida, coincidiu com o outro tempo. Esta experiência, núcleo de suavida e de seu pensamento, é invulnerável e intocável: está para além do tempo,para além da morte – para além de nós mesmos. Saber-lo me reconcilia com suamorte de agora e com todo morrer.” Por isso, podemos dizer que Roberto Piva nãomorreu, ele o sabe melhor do ninguém ressurgir tal qual um pajé da palavra.Para a magia cotidiana de R.P, “Cristo era Dionísio de ressaca.” Assim Piva seauto-definia: “Não sou xamã de cemitério. Eu sou um curandeiro das palavras.”Anjos eletrificados nos surgirão através dos gritos de rock saído das cavernasdo ser. Para R.P, Jim Morrison representava “a própria imagem do apocalipse”,como narra o poeta paulistano: “Quando me disseram que ele havia morrido eusenti que estava faltando um dragão em algum lugar do universo. Ele representoupara mim uma grande parte da minha vida: a poesia do Whitman, o cafajestebebedor de cerveja, as portas da percepção e uma visão angélica, e ao mesmotempo selvagem, do amor. No fundo todos nós somos jim-morrisons amordaçados.”Sem objeções, R.P viveu certos instantes, viu certas evidências que são a negaçãodo tempo e das verdades não antes codificadas. Este é o seu ano, 2010 (o ano doTigre). No fundo todos nós somos jim-morrisons amordaçados. Se é que agora nãovoltaremos a ver-lo, mais solúvel do que nunca estará Piva, iluminado peloJardim da Luz, esvoaçante como todo xamã. Dessa maneira, nos descreve R.P: “Euvivo apenas no hoje, portanto vivo eternamente.” Toda morte, uma contradição.

*Augusto de Guimaraens Cavalcanti já publicou Poemas para se ler ao meio-dia e AmorAmerica pela 7 Letras, e integra também o coletivo OsSete Novos. Para mais informações, ver: www.ossetenovos.org e www.augustoazul.blogspot.com

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