Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 20.08.2010 20.08.2010

Roque Santeiro de volta para casa

Por Bruno Duarte

Roque Santeiro, uma das mais famosas produções da Rede Globo, exibida originalmente entre 1985 e 1986, é a primeira telenovela a ser lançada oficialmente em DVD no Brasil. Na comemoração de 25 anos da trama, quase 170 horas de seus 209 capítulos foram reeditados para aproximadamente 50 horas distribuídas em 16 DVDs. Lançado recentemente pela Globo Marcas, o box é o marco da comercialização de novelas no formato.

Até hoje, apenas minisséries foram lançadas em DVD no país, a maioria da própria Rede Globo. O México, nosso concorrente direto no gênero, vem lançando telenovelas no mesmo formato há alguns anos, inclusive com legendas em inglês. No formato original, a trama teve ao todo 209 capítulos. Apesar de existirem na internet versões não-oficiais reunindo, em até 50 discos, a íntegra dos capítulos da novela, cada um com quase uma hora de duração, e trechos dos capítulos disponibilizados gratuitamente no YouTube, o box da Globo Marcas trará um compacto do sucesso de audiência dos anos 1980 dividido em 16 discos, com duração total de 51 horas. O áudio será apenas em Dolby Digital 2.0, sem a presença de legendas ou extras.

A trama de Roque Santeiro, escrita por Dias Gomes, é baseada na adaptação de uma peça de sua autoria, intitulada O berço do herói. A peça já havia sido censurada e proibida em 1965, durante a ditadura militar. Passados 10 anos, o autor preparou uma adaptação da peça para a TV. Com vários capítulos gravados e chamadas na grade da emissora, no dia da estréia, a Rede Globo recebeu um ofício do governo federal censurando o folhetim. O motivo da censura foi uma escuta telefônica do governo, em que foi gravada uma conversa de Dias Gomes, onde ele afirmava que a novela, prestes a estrear, era apenas uma forma de enganar os milicos, adaptando O Berço do Herói para a televisão, com ligeiras modificações que fariam com que os militares não percebessem que se tratava da mesma obra.

Só em 1985, durante o governo civil de José Sarney, a história ganharia a versão definitiva para as telinhas. Passada na cidade fictícia de Asa Branca, ambientada no nordeste do Brasil, a trama narra a história do mito em que se transformou Luiz Roque Duarte, conhecido na pequena cidade por sua habilidade em modelar santos, daí Roque, o santeiro. O personagem, interpretado por José Wilker, ganha a alcunha de milagreiro após morrer defendendo a cidade dos desmandos do bandido Navalhada (Oswaldo Loureiro), depois de seu controverso casamento com a até então desconhecida Porcina, a que foi viúva sem nunca ter sido – papel que marcou a carreira da atriz Regina Duarte. Desde então a cidade passa a se sustentar do mito “”Roque Santeiro””. Todos se beneficiam economicamente da fama do filho milagreiro da pequena cidade, principalmente Sinhozinho Malta, personagem que habita o imaginário dos brasileiros graças à interpretação de Lima Duarte e seu famoso bordão – “”tô certo ou tô errado?”” –, quando sacudia suas pulseiras ao som do guizo de uma cascavel. 

O conflito se instaura quando Roque, que nunca esteve morto, volta à cidade, ameaçando por fim ao mito. Sua presença leva ao desespero os figurões da cidade. Incluindo o padre, o prefeito e o comerciante Zé das Medalhas, principal explorador do santo. Mas o maior prejudicado é Sinhozinho Malta, o todo-poderoso fazendeiro do lugar, que vê ameaçado o seu romance com a “”viúva”” Porcina, que nunca foi casada com Roque e sempre viveu à sombra de uma mentira articulada por Malta. Mentira institucionalizada para fortalecer o mito e tirar vantagens pessoais.

A pequena cidade está repleta de personagens ao mesmo tempo clichês e inusitados que mimetizam o conflito entre as velhas amarras do coronelismo brasileiro e as novidades da nova democracia. Desde as beatas da praça, lideradas por Dona Pombinha, interpretada por Eloísa Mafalda, e as meninas Ninon – personagem de estreia de Claudia Raia na TV – e Rosaly (Ísis de Oliveira), prostitutas vindas do Rio de Janeiro para trabalhar na “Boate Sexus”, a única casa de diversões da cidade, liderada por Matilde, dona da Pousada do Sossego, interpretada por Yoná Magalhães. A modernidade também se apresenta aos moradores de Asa Branca com a chegada de um cineasta e sua equipe de filmagem que pretende gravar “”A saga de Roque Santeiro””.

A primeira versão da novela, que foi censurada, traria Francisco Cuoco como Roque e Betty Faria no papel de viúva Porcina. Os atores foram chamados para atuarem novamente quando a novela foi liberada, mas declinaram. Lima Duarte, no projeto desde a versão censurada, permaneceu no papel de Sinhozinho Malta.

Dirigida por Paulo Ubiratan, Marcos Paulo, Gonzaga Blota e Jayme Monjardim, a produção recebeu, no ano de 1985, o prêmio de Melhor Novela pela Associação de Críticos de Arte de São Paulo (APCA) além de Melhor Atriz (Regina Duarte), Melhor Ator (Lima Duarte), Revelação Feminina (Cláudia Raia) e Melhor Texto de Novela para Dias Gomes e Aguinaldo Silva. Foram gravados oficialmente dois finais para a telenovela, um no estilo do filme Casablanca, no qual Porcina fica em dúvida se embarca com Roque no avião ou continua com Sinhozinho Malta, que por fim vai embora. No final exibido, a viúva opta por permanecer ao lado do coronel, e os dois terminam acenando para Roque, que vai embora. Além de atender a um público saudoso do sucesso das telinhas, a edição especial em DVD traz as duas versões do final da novela e ganhou comentários de Regina Duarte, José Wilker e Lima Duarte, o triângulo amoroso central da trama. E isso é só o começo, os próximos lançamentos já podem estar a caminho, os títulos seguintes podem ser Irmãos Coragem (1970), de Janete Clair, e Caminho das Índias (2009), de Glória Perez.

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