Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 22.06.2010 22.06.2010

Ronaldo Correia de Brito e o sertão entre o universo masculino e feminino

   Por Bruno Dorigatti
   Foto de Tomás Rangel

> Assista à entrevista exclusiva de Ronaldo Correia de Brito ao SaraivaConteúdo 

As traças, os cupins têm um papel fundamental na definição de Ronaldo Correia de Brito como ficcionista. Na infância, no sertão cearense, o livro era sagrado na família, e as bibliotecas faziam parte dos inventários. Ele teve acesso aos clássicos mundiais e brasileiros desde cedo, mas os livros conviviam com traças e cupins. "Faltavam trechos, páginas. Li toda a biblioteca comida por traças e cupins, o que deixou um buraco na minha formação. Sou narrador por essa necessidade de preencher esses furos, essa falta", contou durante a mesa no Festival da Mantiqueira, realizado no final de maio. 

Vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura 2009 com o romance Galiléia (Alfaguara), ele participou  da mesa que abriu o evento, junto com o outro vencedor, na categoria estreante, o gaúcho Altair Martins, com Parede no escuro (Record). Conversamos com o médico e escritor cearense, radicado em Pernambuco desde 1969, sobre assuntos em torno de sua escrita, cujo objetivo, segundo ele, é  "criar uma epifania, uma celebração do feminino". 

Em entrevista exclusiva ao Saraiva Conteúdo, Ronaldo Correia Brito falou sobre a influência e a interferência da medicina, que exerce há 35 anos, em sua prosa e contou sobre o longo tempo que levou entre escrever e publicar. "Tenho gavetas cheias de tempo", onde ele volta para buscar contos esquecidos e retrabalhá-los. É o que acontece agora em seu novo livro, Retratos imorais, que será lançado em agosto pela Alfaguara. No volume, divido em "Retratos espessos", "Retratos de mães" e "Retratos de homem", Ronaldo reúne contos, alguns escritos 39 anos atrás e outros mais recentes, de 2009 e 2010. 
 

Confira os principais trechos da entrevista.

Bibliotecas

Eu tenho algumas bibliotecas em minha vida. A primeira, uma pequena biblioteca que minha mãe leva pra casa quando vai morar com meu pai – ela era professora. A biblioteca municipal, que tinha sobretudo livros religiosos, vidas de santos, muitos martírios. Eu me ensanguentei de tantas vidas de santos, de tantos mártires que eu vi serem comidos, ou melhor, que eu li serem comidos nas arenas do Coliseu. Mas sobretudo uma biblioteca que um primo tinha numa propriedade grande no interior. Tudo que você possa imaginar havia nessa biblioteca, só que ela tinha um único e absoluto defeito. Todos os livros haviam sido parcialmente comidos pelas traças e cupins. Eu vou lendo e de repente tem um buraco enorme que atravessa 20, 30, 40, 50 páginas. 

Freud fala da psicanálise como um processo que você tenta, através do seu discurso, preencher esses buracos, essas faltas. O que nós fazemos ao longo da vida nada mais é do que tentar preencher esses grandes hiatos da nossa história. Então, além de trabalhar com a minha própria memória, que é reinventada a cada texto, eu também trabalho para preencher todos esses buracos da minha formação, todos esses livros, essas histórias incompletas. 

Eu diria que uma das minhas primeiras experiências literárias é adaptar, aos 15, 16 anos, Vida secas para o teatro. Imagine, Vidas secas, de Graciliano [Ramos], adaptado para o teatro. É uma coisa tão ousada, que eu jamais teria coragem de mostrar o resultado final desse texto, dessa ousadia de adolescente.
 

Entre a medicina e a literatura, o conto e o romance

Saio do Crato (CE) para o Recife (PE), que era uma cidade enorme,  a terceira maior do Brasil, isso em 1969, para estudar medicina. Por que medicina? Porque é uma profissão pragmática, que eu gosto muito, me coloca em contato com pessoas. Ela me coloca, sem dúvida nenhuma, todos os dias, diante do espetáculo da vida, da cura, da dor, do sofrimento e da morte. A medicina tem esse pragmatismo, esse lado de real, de sólido. A literatura é mais vaga, mais divagante, lida mesmo com mentiras, com ficção, irrealidades. 

Levei muito a sério a pergunta que Schopenhauer faz: “Você pretende ser escritor? Mas você tem mesmo algo a dizer? É essencial, é necessário?” Todos os dias eu me fazia essa pergunta, se havia mesmo necessidade do que eu escrevia. E por isso começo a publicar muito tarde. Aí eu começo com o conto, que é uma estrutura mais definida, mais compacta, menor. E depois passo para o romance, que é bem mais pesado, exige um tempo maior. Você tem que andar um tempo enorme com um monte de personagens que lhe atanazam a vida, lhe perseguem, dão pesadelo. O conto, quando você o concebe, de certa forma, já o tem inteiro, ele passa a cobrar uma voz. Mas no romance isso é muito mais absurdo, porque os personagens passam a adquirir voz, a cobrar espaço, a querer crescer. 

No caso de Galiléia (Alfaguara), por exemplo, não se chamava assim. Concebi o romance para o personagem Davi. Então se chamava Davi entre as feras. Depois fiquei mais dois anos com o livro, reescrevendo, e mudei completamente. Davi murchou o personagem, cresceu Adonias, cresceu Ismael e o romance passou a se chamar Galiléia. Não podia mais ser Davi. Praticamente todos os personagens são homens, quer dizer, as mulheres quase não falam. As únicas mulheres que falam são uma contadora de histórias, que diz apenas uma frase, e a outra personagem é um fantasma. As vozes femininas são ouvidas apenas por trás das paredes ou através da televisão, são vozes da televisão. No entanto, todo o romance é construído para celebrar uma epifania do feminino.

Toda a minha literatura, mesmo em o Livro dos homens (Cosac Naify, 2005), na verdade, é sobre mulheres. Eu sempre me interessei muito em escrever sobre mulheres. Existe ainda uma contraposição tão grande, um embate, uma luta de poderes. Me interessa falar do feminino, me interessa falar de mulheres, mesmo que eu erre, mesmo que eu fale como homem. Eu sempre estive do lado das mulheres, elas sempre me encantaram muito.
 

A volta ao conto

Já havia publicado [os livros de contos] As noites e os dias [pela editora Bagaça, de Recife, em 1996], Faca (Cosac Naify, 2003) e Livro dos homens (Cosac Naify, 2005), uma novela juvenil chamada O pavão misterioso (Cosac Naify, 2005) e [depois de Galiléia] eu não quis voltar ao romance. Quis vir com os contos. E decidi que juntaria no mesmo livro contos com espaço enorme entre eles. Resolvi publicar alguns contos que imaginava que não seriam publicáveis. Tenho nesse livro contos de 39 anos atrás. Estão saindo agora junto com minha última produção, de 2010, 2009. Então é um livro muito estranho e ao mesmo tempo muito ousado. Havia uma coisa que passava por todos os contos. Mesmo aquele de 39 anos ao mais recente. Essa coisa se chama imagens. Todos os contos nada mais eram do que variações em torno de imagens, ou de cinema, ou de teatro, ou de pinturas, ou de retratos pintados em fuligem de candeeiro, ou nanquins, ou até tatuagens. Há alguns contos marcadamente sugeridos por tatuagens. Aí então eu vi que era um livro de imagens. Passa a se chamar então Retratos imorais [que será publicado em agosto pela Alfaguara]. Ele é dividido em três galerias: uma primeira galeria de “Retratos dispersos”, uma segunda galeria de “Retratos de mães” e uma terceira galeria de “Retratos de homens”. São 13 contos sobre homens. São perfis masculinos, mas em todos eles eu termino, de uma certa maneira, dando uma rasteira, com uma epifania do feminino. O feminino, mesmo ali quando falo de homens, está presente, sempre muito presente.

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