Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Música 23.05.2011 23.05.2011

Rogério Flausino fala sobre os 15 anos do Jota Quest

Por André Bernardo
Fotos: Antonio Andrade
 

Não é todo dia que uma banda de pop-rock completa 15 anos de estrada. No Brasil, são poucas as que conseguiram, a exemplo de Skank e Paralamas do Sucesso, sobreviver tanto tempo com os mesmos integrantes. O Jota Quest é uma delas. Ainda hoje, mantém a formação que, em agosto de 1996, lançou o primeiro de seus dez CDs, intitulado simplesmente de J. Quest: o vocalista Rogério Flausino, o guitarrista Marco Túlio, o baixista PJ, o tecladista Márcio Buzelin e o baterista Paulinho Fonseca. “Para os próximos 15 anos, desejo que a banda continue tão unida como está hoje em dia. A união dos integrantes é a principal explicação para a longevidade do Jota”, afirma Rogério de Oliveira, 39 anos, que adotou o sobrenome artístico em homenagem ao avô, Seu José Flausino.

Para comemorar a data, o Jota Quest lançou a primeira coletânea da carreira, Quinze (Sony Music). Além dos já tradicionais hits – escolhidos pelos fãs através de uma enquete no site do grupo entre janeiro e fevereiro deste ano –, o álbum duplo reúne, ainda, três músicas inéditas, “Luta de Viver”, “Coração” e “É Preciso/A Próxima Parada”, e algumas raridades, como a versão latina de “Na Moral”, uma releitura para “Get Back”, dos The Beatles, e “Jogo”, a primeira gravação de estúdio do Jota, incluída no álbum independente de 1995. “No começo da carreira, o Jota Quest vestia roupas black, usava peruca black e tocava música black. Logo, rolou um esgotamento e a gente resolveu fazer outras coisas. Hoje em dia, você encontra de tudo num CD da banda: black, rock, funk, música eletrônica”, enumera Rogério.

E é no palco que o Jota se sente mais à vontade para mostrar essa profusão de sons e ritmos que marca a carreira da banda. Não por acaso, Rogério Flausino & Cia. costumam fazer uma média de 140 shows por ano. “Enquanto tiver saúde para aguentar o tranco, a gente vai levando numa boa”, garante. Batizada de “J15 – 15 Anos na Moral”, a turnê comemorativa vai percorrer 17 capitais – de Palmas, no Tocantins, a Florianópolis, em Santa Catarina – até o final do ano. Um dos shows, no entanto, promete ser especial: o do Rock in Rio, agendado para 30 de setembro. “O Jota resolveu transformar seus shows numa grande festa, com direito a DJs e convidados. Nesses shows, vamos tocar de tudo: hits, inéditas, lados-B, covers e o que der na telha”, avisa Rogério, bem-humorado.

Nascido em Alfenas, cidadezinha localizada a 340 quilômetros de Belo Horizonte, Rogério Flausino não nega as raízes mineiras. “Um olho no peixe e outro no gato” parece ser um dos lemas do vocalista do Jota Quest. Ao mesmo tempo em que reverencia os 15 anos da banda, não deixa de traçar planos para o futuro. Investir na carreira internacional é apenas um deles. Ano passado, o grupo lançou Dias Mejores, o primeiro em língua espanhola. Lançar um álbum de inéditas ainda esse ano é outro. Até o momento, a banda já contabiliza 20 canções semiprontas. “Quero continuar a fazer mais e melhores discos. Em minha opinião, o Jota Quest ainda lançou o seu melhor disco. O melhor disco da carreira do Jota Quest ainda está por fazer. E eu quero fazê-lo”, afirma Rogério.

Em 1996, quando o Jota Quest lançou o 1º álbum da carreira, você imaginava que a banda fosse chegar tão longe?

Rogério Flausino. Sinceramente, não. Naquela época, a expectativa da banda era apenas fechar contrato com uma gravadora. A gente achava que esse era o único caminho para chegar ao grande público. O sonho do Jota Quest era fazer barulho, como as bandas dos anos 80 fizeram. A gente se mirava naquela geração. Em 1996, quando o Jota começou, a gente não olhava para o futuro. Não dava para imaginar onde a gente poderia chegar. A gente estava tentando se virar, muito focado no aqui e agora. Assinar com uma gravadora é um primeiro passo. Mas não é o único. Há uma longa caminhada pela frente.

Ainda hoje, uma banda como o Jota Quest precisa assinar com uma gravadora para chegar ao grande público? Ou o cenário do pop-rock brasileiro mudou nestes 15 anos?

Rogério Flausino. Naquela época, quando assinava com uma gravadora, você tinha uma grana para investir na carreira. Hoje, a gente sabe que, depois de toda essa crise, o panorama mudou muito. As gravadoras estão tentando se reorganizar de uma maneira diferente para cuidar não só da discografia de seus artistas, mas da carreira deles como um todo. O que a gente tem agora, e não tinha antigamente, é a internet. É uma ferramenta poderosa que aproxima o artista de seus fãs. Através da internet, os fãs de qualquer lugar do país podem baixar as músicas, acompanhar a turnê, sugerir repertório, essas coisas. Na nossa época, nada disso existia. Em 1996, não havia internet ou celular. Hoje em dia, você entra no YouTube, aperta o play e ouve a música de sua banda favorita. Foi uma mudança radical. Mas, ainda hoje, as bandas precisam caprichar para fazer uma boa demo, produzir um bom videoclipe, etc. Precisam caprichar para chamar a atenção tanto do seu fã quanto de uma gravadora. Mesmo assim, acredito que a gente ainda não consiga fazer tudo sozinho. Em algum momento, o artista vai precisar da gravadora para profissionalizar o seu trabalho. Mas, há outros caminhos a serem seguidos, como selos menores, por exemplo, para alcançar o grande público.

Para muitos artistas, a internet é uma aliada. Para outros, uma inimiga a ser combatida. Para o Jota Quest, a internet é o quê?

Rogério Flausino. A internet sempre foi uma grande aliada para o Jota Quest. Nossa primeira home, para você ter uma ideia, é de 1999. Em 2005, quando lançamos o Até Onde Vai, comecei a escrever no blog da banda. Depois, migrei para o twitter e assim por diante. Procuro manter um contato diário com a galera. O pessoal faz pergunta, dá palpite, cobra shows, escolhe músicas, tudo o que você puder imaginar. E isso só é possível graças à internet, que proporciona uma resposta imediata por parte dos fãs. Em minha opinião, o uso da internet é muito amplo e positivo. As gravadoras é que precisam se reorganizar para aprender a vender não só CDs, como era antigamente, mas tudo o que diz respeito ao artista, como shows e downloads, por exemplo.

No caso do Jota, vocês já aprenderam a vender não só CDs, mas também outros produtos, como shows e downloads, através da internet?

Rogério Flausino. O CD La Plata, nosso último álbum, vendeu 80 mil cópias. No mesmo período, tivemos mais de 500 mil downloads oficiais de tudo que você puder imaginar: músicas, fotos, ringtones, etc. Para o Jota Quest, esse número de downloads é extremamente satisfatório. Além disso, tivemos uma venda de celulares, com conteúdo embarcado, de quase 1 milhão de aparelhos. Nada disso existia antes, quando o Jota começou. É um comportamento totalmente novo e diferenciado.

Hoje em dia, o Jota vive de quê? Da venda de CDs, do download de músicas, da agenda de shows?

Rogério Flausino. Todos esses ganhos, somados, são muito interessantes. Mas o Jota Quest é, essencialmente, uma banda de estrada, de palco, de arena. A gente faz uma média de 140 shows por ano. E a gente não faz shows apenas por causa da grana, mas, também e principalmente, pela emoção do nosso fã poder assistir a sua banda predileta ali, do lado de casa, ao vivo e a cores. Essa é a maior satisfação que uma banda pode proporcionar ao seu fã. É legal lançar um CD? É claro que é! É bacana ter música tocando nas rádios? Sem dúvida nenhuma! Mas nada disso se compara a fazer show e a tocar ao vivo. Enquanto a gente tiver saúde para aguentar o tranco, a gente vai levando numa boa… (risos)

Boa parte do repertório de Quinze foi escolhido pelos fãs do Jota Quest através de uma enquete no site da banda. Como é hoje a relação do Jota com os seus fãs?

Rogério Flausino. O Jota está sempre buscando o novo. Sempre! E, nessa busca pelo novo, a gente tanto pode acertar quanto errar, certo? E quem fala se você acertou ou errou é o fã. O fã é o melhor termômetro que uma banda pode ter. É através da galera que você sabe se o disco novo agradou, se o show foi bom, e por aí vai. No início do ano, a Sony propôs que a gente lançasse uma coletânea. Ok, vamos lançar, mas aí pensamos: “Quem tem que escolher essa parada é a galera. Vamos deixar a galera votar”. Ao todo, recebemos 2.500 votos. Além das mais votadas, incluímos três inéditas e três raridades. Esse disco é um presente nosso para os fãs do Jota Quest. Quem sabe, mais para frente, a gente não lança um segundo volume do Quinze? Aí, podemos incluir alguns remixes, alguns lados-B, essas coisas. E o fã do Jota Quest é muito diversificado. O cara que tinha 15 anos quando a gente começou hoje tem 30. Os que tinham 25 já têm 40. É uma mistura de gerações muito interessante.

No Quinze, vocês incluíram a música “Jogo”, primeira gravação de estúdio da banda. De lá para cá, o que mudou na sonoridade do Jota Quest? O que é mais importante para vocês: manter-se fiel ao seu estilo ou experimentar outros gêneros?

Rogério Flausino. A palavra de ordem do Jota é experimentar. Muita gente fala que o Jota começou black, mas, logo depois, deixou de ser. Mas não é bem assim. No começo da carreira, a gente vestia roupa black, usava peruca black, tocava música black, essas coisas. Logo, começou a rolar um desgaste natural e a gente resolveu experimentar outras coisas. Não foi nada programado. Quando a gente lançou Oxigênio, em 2000, resolveu lançar novas tendências. Foi quase uma mudança de comportamento. Em todo disco do Jota, você encontra um pouco de tudo: black, rock, funk, música dançante, eletrônica, etc. Em algum momento da carreira, a gente tinha que enveredar por outros gêneros e ritmos. A longevidade da banda, em minha opinião, tem a ver com isso. Há tempos, a gente vem deixando fluir outras referências dentro do Jota.

Em agosto, vocês completam 15 anos de carreira. É possível comemorar 15 anos e não fazer um balanço da carreira?

Rogério Flausino. Estamos vivendo um momento muito feliz de nossas vidas. Quinze anos é uma data redonda, boa para comemorar. No começo, até pensamos em entrar no estúdio para gravar coisa nova. Aí, a gravadora propôs que lançássemos uma coletânea comemorativa. Mas, não queríamos simplesmente lançar uma coletânea, sem ter nada de novo para apresentar ao público. Além dos velhos hits, queríamos também raridades e inéditas. Além disso, há muito, queríamos fazer o “Jota Fest”. A gente queria transformar o nosso show em uma grande festa, com direito a DJs e convidados. O primeiro dos 17 shows da turnê comemorativa rolou em Palmas (TO) e foi muito maneiro. Em agosto, a gente deve entrar em estúdio, para começar a pensar no próximo álbum. Já temos 20 músicas semiprontas. O bacana no Jota é que todo mundo compõe, todo mundo produz. Quando a gente se reúne para gravar, já tem muita ideia rolando…

Qual teria sido o ponto alto da carreira do Jota Quest nestes 15 anos?

Rogério Flausino. Graças a Deus, o Jota Quest não teve apenas um ponto alto. Teve vários. O primeiro deles foi em 1998, quando lançamos “De Volta ao Planeta”. Naquela época, tocávamos em todos os lugares ao mesmo tempo. Emplacamos vários hits nas rádios. Foi um período de grande exposição da banda. O álbum, na época, vendeu 780 mil cópias. Hoje, bateu na casa do 1 milhão. É um disco pop. Um ótimo disco pop, diga-se de passagem. Gravamos boa parte dele numa choupana em Florianópolis. O clima era ótimo, divertido. Curiosamente, não chega a ser o meu disco preferido do Jota. Prefiro o de capa vermelha, Discotecagem Pop Variada”, de 2001, que é um álbum de ressurreição da banda. Outro ápice foi o lançamento do álbum MTV Ao Vivo, em 2003, que vendeu muito bem. Já bateu na casa de 1,4 milhão de cópias. O áudio era excelente, o visual bonito. O melhor do Jota Quest está ali! Depois disso, em 2005, ainda dividimos o palco com o Roberto Carlos, no especial de fim de ano…

E qual teria sido o pior momento do Jota Quest?

Rogério Flausino. Tivemos uma fase ruim, de superexposição. A banda ficou muito famosa. Tão famosa que assinou um contrato de dois anos com uma empresa e gravou uma série de comerciais de TV. Muita gente criticou a nossa postura. Houve um desgaste muito grande. O pessoal da crítica desceu o pau na gente. Fiquei me sentindo um idiota. A vontade que eu tive foi de arrumar as malas e fugir para Londres. A gente olhava uns para os outros e se perguntava: “Meu Deus, o que fizemos de errado?”. Eu não sei se o problema era pessoal, musical, empresarial, ou se era tudo isso junto. O pessoal criticava tudo: as minhas roupas, o meu cabelo, a minha música. Também tive a minha fase Lady Gaga. Gostava de usar cabelo colorido e roupa espalhafatosa. Fazer o quê? (risos) Sou muito grato a Deus por termos sobrevivido. Se não fossem as nossas famílias, não sei o que teria sido do Jota Quest. Eu era muito ingênuo naquela época. Para falar a verdade, ainda sou. Sempre me diverti fazendo o que eu gosto. Mas, olhando para trás, eu me orgulho de tudo que eu fiz. Até das coisas erradas que eu possa ter feito. Guardo uma lembrança boa de tudo que fiz.

Quais são os planos do Jota Quest para os próximos 15 anos? O que vocês esperam estar fazendo em 2026?

Rogério Flausino. (risos) Para os próximos 15 anos, desejo que o Jota continue tão unido como está hoje em dia. A união dos integrantes é a principal explicação para a longevidade da banda. Além disso, quero continuar alcançando um excelente resultado técnico tanto no estúdio quanto no palco. Quero doar parte do meu tempo em prol de uma causa. Admiro muito o trabalho desenvolvido pelo Bono Vox. Você sabe que o cara não precisa daquilo para fazer sucesso, mas ele faz. Não tenho planos concretos neste sentido, mas quero muito fazer algo a respeito. Quero adotar uma causa social como meta de vida. Não quero evoluir só como artista, quero evoluir também como ser humano. Quero investir na carreira internacional do Jota e fazer mais shows no Brasil e no exterior. O que não falta é lugar para a gente tocar. Quero continuar a fazer mais e melhores discos. Em minha opinião, o Jota ainda não fez o seu melhor disco. O melhor álbum do Jota ainda está por fazer. E eu quero fazê-lo.

Recomendamos para você