Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 16.02.2012 16.02.2012

Rodrigo Santoro e Cauã Reymond desconstroem a imagem de galã em ‘Reis e Ratos’

Por André Bernado
Irreconhecível em cena, Rodrigo Santoro surpreende o público como um ex-cafetão trambiqueiro viciado em drogas
 
Desconstruir. Esse foi o verbo mais conjugado pelos atores Rodrigo Santoro e Cauã Reymond nas filmagens de Reis e Ratos, de Mauro Lima.
 
No mais novo longa de suas carreiras – o 17º de Rodrigo e o 8º de Cauã –, os dois atores estão (quase) irreconhecíveis em cena.
 
Rodrigo Santoro surpreende o público no papel de Roni Rato, um ex-cafetão viciado em drogas, e Cauã Reymond merece elogios como Hervê Gianini, um locutor de rádio afeminado.
 
“Entendo que sou visto como galã, e isso tem a ver com os papéis que interpretei na TV, mas eu não me vejo assim, entende? Não sou galã. Sou um ator que interpreta personagens”, assegura Santoro, 37 anos, que cita o exemplo do travesti Lady Di, que interpretou no filme Carandiru, de Hector Babenco, como o primeiro a desconstruir o estereótipo de galã. “Reis e Ratos foi diferente de tudo que já fiz. Foi uma experiência artística incrível”, exalta.
 
Se os nomes de Rodrigo e Cauã constam nos créditos de Reis e Ratos, o mérito é de Selton Mello. Foi ele quem colocou “a maior pilha” para Santoro participar do filme e, de quebra, ainda convidou Cauã a embarcar no projeto.
 
“É um típico filme de brother”, define Cauã, 32 anos. Para convencer como o radialista paranormal que recebe mensagens do além, fez sessões de fonoaudiologia, teve aulas de russo e ouviu trechos do programa Repórter Esso. Quando soube que todas as cenas de rádio seriam rodadas no seu primeiro dia de filmagem, ficou nervoso. “Fumei 25 cigarros num único dia. Cheguei em casa com uma baita dor de cabeça”, recorda. “Puxa, estava contracenando com o Selton e o Rodrigo. Não podia fazer feio”, brinca Cauã, que até pouco tempo atrás tinha que lidar com o preconceito de ter começado em Malhação, ser lutador de jiu-jitsu e já ter trabalhado como modelo.
 
Em Reis e Ratos, Santoro – que já foi eleito a nona pessoa mais bonita do mundo pela revista People – se despiu de toda a vaidade e caprichou no visual asqueroso. Sobrou até para o dentista do ator, que fez uma prótese sob medida para ele. “Por coincidência, na semana em que recebi o convite, tinha consulta marcada. Falei do filme com meu dentista e ele contou que a primeira coisa que acontece com quem usa metanfetamina é apodrecer os dentes”, explica.
 
Confira o bate-papo com os dois atores:
 
O que você achou da experiência de rodar um filme em apenas 17 dias?
 

Rodrigo. Este é um projeto atípico na minha carreira. Fui convidado para fazer o filme aos 46 minutos do segundo tempo. Encontrei com o Mauro (Lima, diretor) em um restaurante e ele me falou do projeto. Disse que tinha um roteiro pronto, contou mais ou menos a história e me convidou para interpretar um personagem. “Ok, e quando começa?”. “Ah, daqui a uma ou duas semanas”, respondeu. “E quanto tempo eu teria de filmagem?”, perguntei. “Ah, é coisa rápida: 17 dias!”, contou. Aí, eu fiquei mais interessado ainda. “Poxa, o que esse cara tem na cabeça?”. Nessa, o Mauro me contou que queria aproveitar os cenários e os figurinos de O Bem-Amado, aquela coisa toda. Dias depois, liguei para o Selton, que colocou a maior pilha: “Vamos lá, galera! A hora é essa!”. (risos) Daí, li o personagem, gostei e vi que tudo fazia sentido. “Ok, vamos no desapego!”. Então, respondendo à sua pergunta: eu diria que Reis e Ratos foi diferente de tudo que já fiz.

Você sentiu falta de fazer laboratório para o personagem?
 

Rodrigo. Sim. Para falar a verdade, gosto de me preparar para interpretar um personagem. Desta vez, não pude. A gente nem ensaiava direito. A gente chegava no set e já começava a rodar o filme: “Como assim, brother? Não vai ter ensaio?”, eu perguntava. “Não, não”, respondia o Mauro. “Já tá rodando!”. Foi no instinto mesmo… (risos)

E você faria outro filme com o Mauro?
Rodrigo. Por que não? Depende do roteiro, da personagem, de uma série de fatores. Acho que o Mauro escreve muito bem. De cara, gostei dos diálogos de Reis e Ratos. O Roni Rato, por exemplo, fala uns absurdos que você não acredita. Achei o diálogo muito inteligente e original. Não tem como não se sentir atraído por aquilo.
 
E você, Cauã, o que achou de filmar sem ensaio?
 
Cauã. Ah, mas eu tive ensaio! Ensaiei pra caramba. Foram 10 dias, ao todo…
 
Rodrigo. Puxa, que sacanagem! Só estou sabendo disso agora… (risos)
 
Cauã. (risos) Eu me encontrei com o Selton (Mello) voltando de uma viagem. No meio do caminho, ele me convidou para fazer o filme. Quando cheguei, fui conversar com o Mauro, trocamos umas ideias e acertamos tudo. No meu caso, tive algumas sessões com uma fonoaudióloga, e também fiquei ouvindo o programa Repórter Esso durante 10 dias. Procurei um professor de russo para pegar a pronúncia e falar corretamente. O professor, inclusive, assistiu às filmagens e deu o aval dele. A gente fazia uma leitura antes da filmagem. Foi uma experiência legal.
 
Para convencer no papel de radialista paranormal, Cauã fez sessões de fonoaudiologia e teve aulas de Russo.
 
Apesar do pouco tempo, como você se preparou para interpretar o Roni Rato?
Rodrigo. Como sempre faço, mergulhei de cabeça. Logo de cara, fui pesquisar sobre o aspecto físico do personagem. Quando soube que era viciado em pervitin, fui perguntar ao Google o que era aquilo e descobri que se tratava de uma metanfetamina. Daí, comecei a imaginar qual seria o visual dele. O visual é sempre o resultado de uma pesquisa minuciosa. O Roni Rato é um cara totalmente corroído pelos maus hábitos. Por coincidência, naquela semana, eu tinha consulta no dentista. Falei do filme com ele e o meu dentista contou que a primeira coisa que acontece é apodrecer os dentes de quem usa esse tipo de droga. “Já atendi um cara assim!”, ele me disse. “Sério! Como assim?”, me interessei. “Quer que eu faça uma prótese dessas para você?”, perguntou. Como o próprio nome já diz, Roni Rato é um sujeito que perambula pelos bueiros…
 
O Selton Mello já virou diretor de cinema. Vocês pretendem seguir o mesmo caminho?
Rodrigo. Produtor, sim. Diretor, não! Acabei de produzir Heleno. Dirigir não é uma coisa que passe pela minha cabeça. Mais para frente, quem sabe?
Cauã. Eu penso seriamente nisso. Felizmente, tenho conseguido fazer coisas legais tanto no cinema quanto na TV. Estou conseguindo equilibrar projetos bacanas nos dois veículos. Ainda este ano, começo a gravar Avenida Brasil, a nova novela do João (Emanuel Carneiro, autor), que acho genial. O cara escreve superbem. Vai ser o nosso terceiro trabalho em parceria.
 
Cordel Encantado foi um grande acerto, não?
Cauã. Sim, foi. Foi uma novela muito cinematográfica e que tinha um elenco fenomenal. Você tinha que ter feito, Rodrigo… (risos) Eu penso em dirigir, sim. Tenho esse “feeling”. Gosto muito de ator. Eu tenho as minhas inseguranças como ator e imagino que os outros também tenham. Numa novela, por exemplo, você é dirigido por cinco ou seis diretores diferentes. E cada um deles tem uma opinião diferente sobre o seu trabalho. Acho que tenho muito a contribuir nesse sentido.
 
Rodrigo. Bem, eu acho que a decisão de ser ou não diretor parte de uma história. Se um dia eu tiver uma boa história para contar, talvez eu possa vir a dirigir um filme. O diretor está ali para contar uma história. Não é o tipo de coisa que eu diga: “Ah, eu nunca farei…”. Mas, no meu caso, ainda não surgiu a história certa. Quando surgir, quem sabe? Caso contrário, estou satisfeito com a minha vida de ator.
 
Como foi a experiência de fugir do estereótipo de galã em Reis e Ratos?
Rodrigo. Já fiz isso antes. Em Carandiru, por exemplo, não tive a preocupação de fazer um travesti para provar que não sou galã. Eu não me vejo galã, entende? Eu sou um ator que interpreta personagens. Se sou percebido como galã, e isso tem muito a ver com os papéis que interpretei na TV, não olho para isso como algo negativo. Entendo que sou visto como galã. Mas eu nunca me vi como um. O meu foco é sempre na personagem. Em Reis e Ratos, eu me senti em um “playground”. Nesse filme, trabalhei com liberdade criativa, estava entre amigos e a proposta era essa: de me desapegar de toda e qualquer vaidade.
Cauã. Eu me senti com muita responsabilidade neste filme. Afinal, estava contracenando com o Selton e o Rodrigo, que já têm um lugar estabelecido no cinema nacional. Eu lembro que, no meu primeiro dia de filmagens, tive que rodar todas as minhas cenas de rádio e fiquei muito nervoso. Tão nervoso que fumei 25 cigarros naquele dia. Cheguei em casa com uma baita dor de cabeça. Por que isso? Porque eu queria fazer bem-feito. Tudo dependia de mim. Eu me senti com uma enorme responsabilidade. Não podia fazer feio.
 
 
 
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