Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 01.04.2010 01.04.2010

Rock in Rio, tirando o Brasil da lama

Por Vinicius Valente

Em 1964, o Grêmio RecreativoEscola de Samba Império Serrano apresentava ao Brasil um reflexo da que era acultura carioca até então: “O Rio dos sambas e batucadas, dos malandros emulatas, de requebros febris”. Em março domesmo ano, enquanto o país ainda cantarolava o samba-enredo “AquarelaBrasileira”, de Silas de Oliveira, os militares executaram o famoso golpe deEstado, dando início à ditadura militar. O panorama cultural e político do paísperdurou até o ano de 1985, quando um festival de música, representado por umaguitarra em forma de América do Sul abriu não somente a cabeça dos brasileirospara os acordes do rock’ n’ roll, mas também o cenário da política do país com aeleição de Tancredo Neves, o primeiro presidente civil eleito em 20 anos.

A importância social e culturaldo Rock in Rio não é novidade para ninguém. Entre dezenas de shows inéditos e históricos, passaram pelo palco da Cidade do Rock, em Jacarepaguá, zona oeste da cidade, bandas como Queen, Iron Maiden, AC/DC, Ozzy Osbourne, Scorpions, James Taylor, Nina Hagen e The B-52’s. Entre os brasileiros, se apresentaram Ney Matogrosso, Gilberto Gil, Os Paralamas do Sucesso, Erasmo Carlos e Barão Vermelho, entre outros. Porém, as histórias e o conhecimento das armações, desafios e ralações que foram necessáriaspara tirar o imponente projeto do papel poucos conhecem. Felizmente, o criador do logotipo dofestival e autor do livro Metendo o pé nalama (Tinta Negra), Cid Castro, compartilha com o público os momentos de emoção, afliçãoe estresse por ele vividos no ano em que o Brasil começava a limpar a barra dacalça após pisar por duas décadas em um lamaçal político-cultural.

A obra foi lançada em 2008, sobo selo da editora Scortecci e acaba de ganhar uma nova edição pela recém-criada Tinta NegraBazar Editorial, marcando os 25 anos da realização do festival.

Na época, o autor era um jovemde 23 anos, vindo de Barra do Piraí – município localizado no centro da regiãosul fluminense –, que tentava ganhar a vida na cidade grande. Castro relata nãosó os bastidores do festival, mas o frenesi da vida de um jovem sem dinheiro nobolso, dedicado ao trabalho e, claro, ao estilo sexo, drogas e rock’ n’ roll. Coma ajuda de amigos, o autor consegue um emprego na agência de publicidadeArtplan, comandada por Roberto Medina. A partir daí, o livro vai mostrando comoo jovem conseguiu ascender rapidamente na empresa, contando com uma misturade talento, ousadia, sorte e malandragem. Assim, Castro conseguiu virarassistente do ilustrador José Luís Benício e, novamente com a ajuda de amigos,viu seu projeto de logotipo ser aprovado para o Rock in Rio, sem nem mesmofazer parte da equipe de criação. Ou seja, de uma hora para outra, o jovemassistente estava envolvido da cabeça aos pés com a organização do festival queocuparia um terreno de 250 mil m² em Jacarepaguá e atrairia cerca de 1,3 milhãode pessoas durante 10 dias de um mês de janeiro chuvoso. O autor conta a rotinana empresa de publicidade, passando por seus processos pessoais de criação einspiração, em uma verdadeira aula de publicidade. Além das confusõespré-festival, Castro exibe o seu ponto de vista privilegiado de dono de umcrachá de livre acesso durante o festival, passando pelo palco de 5 mil m²durante as apresentações, camarins, refeitório, além das bizarrices queaconteciam no meio do público do lado de dentro e fora da Cidade do Rock. Ecomo em qualquer boa história, corre em paralelo o romance com Nanda, umacolega de trabalho e conterrânea do autor.

Castro não deixou de relatar aimportância de alguns políticos na história do festival, como Tancredo Neves,que convenceu o então governador Leonel Brizola a desembargar as obras,viabilizando o evento. Neves foi lembrado novamente no capítulo que aborda o quinto diade shows, quando o autor afirma ter assistido, debaixo de chuva e lama, asua vitória nas eleições presidenciais, feita pelo apresentador Kadu Moliterno.O livro conta ainda com uma série de depoimentos de artistas e jornalistas, quefalam de sua experiência pessoal de estar presente no primeiro Rock in Rio,como Frejat, Evandro Mesquista, Alceu Valença, Ivan Lins, Sidney Garambone eIlze Scamparini.

Metendo o pé na lama é um relato apaixonado de um jovem sobre umfestival de música que mudou o panorama musical brasileiro. Após suarealização, Cid Castro foi promovido a diretor de arte e, em julho do mesmoano, viu sua marca ser utilizada no Live AID, de Bob Geldof. Em 1989, mudou-separa a Europa, onde trabalhou em várias agências de publicidade, como JWThompson e DDB Publicidade Lisboa. Atualmente, mora em Portugal e trabalhacomo freelancer.

No Rio de Janeiro, o Rock inRio teve mais duas edições, em 1991 no estádio Maracanã e em 2001, novamente nacidade do rock. Em 2004, ganhou sua primeira versão internacional, ocorrendo nacidade de Lisboa. Desde então, ocorre uma versão a cada dois anos na capitalportuguesa e, em 2008, o projeto foi estendido para Madrid.

Após 1985, a capital fluminense passou a ser um pólonão só de samba, mas de rock, pop, rap, funk, tornando-se um dos centrosculturais mais democráticos do mundo. E por falar em democracia, o Brasil deuadeus à repressão e à censura da ditadura militar, que, felizmente não voltoumais. Ao menos, não oficialmente. Viva o rock’ n’ roll.

> Cid Castro e Rock in Rio na Saraiva.com.br

> Assista à algumas apresentações históricas do Rock in Rio de 1985



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