Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 21.10.2011 21.10.2011

‘Rock Brasília – Era de Ouro’ narra a trajetória da Legião Urbana, Capital Inicial e Plebe Rude

Por André Bernardo
Aborto Elétrico. O primeiro nome da mítica banda do vocalista Renato Russo e do baterista Fê Lemos – a mesma que, anos depois, daria origem a Legião Urbana e ao Capital Inicial – não era dos melhores. Mas, acredite: poderia ser ainda pior se não fosse uma sugestão do guitarrista André Pretorius. A ideia original de Renato Russo era batizá-la de Tijolo Elétrico. Essa é apenas uma das muitas histórias que Vladimir Carvalho ajuda a contar no documentário Rock Brasília – Era de Ouro, que estreia hoje (21/10), em circuito nacional.
Ao longo de 111 minutos, o público vai ter a oportunidade de descobrir como um grupo de amigos – autointitulados de A Turma da Colina – transformou o rock de Brasília num dos mais politizados e viscerais do BRock dos anos 80.
“As bandas que estavam despontando no começo dos anos 80 eram do Rio e faziam um rock engraçadinho, de roupas coloridas. Não tinha nada de colorido em Brasília. A nossa realidade era cinza e isso acabou transparecendo nas nossas músicas”, afirma o vocalista e guitarrista Philippe Seabra, da Plebe Rude, banda de punk rock que, a exemplo da Legião e do Capital, também foi gestada na Brasília da abertura política.
Nascido em Washington (EUA) e estudante da Escola Americana, Philippe era um dos membros da Turma da Colina, apelido do condomínio que reunia os quatro prédios de três andares que serviam de moradia para alunos, professores e funcionários da Universidade de Brasília (UnB). Foi lá que ele conheceu, entre outros, Renato Russo, Fê Lemos e André X Mueller, futuro companheiro de Plebe Rude, que se reuniam para ensaiar e trocar discos.
Rebeldia juvenil
No documentário, o editor Briquet de Lemos, pai de Fê e Flávio Lemos, do Capital Inicial, fala do susto que levou quando soube que, num desses encontros, o filho vendeu a bicicleta para comprar a primeira bateria.
Formado em 1978, o Aborto Elétrico não durou muito. Terminou na virada de 1981, após um desentendimento entre Renato e Fê, que resultou numa “baquetada” na cabeça do vocalista. Com a briga, Renato passou a se apresentar sozinho, como o Trovador Solitário. “O Renato era uma pessoa única, incansável e visionária. Tive o privilégio de ter sido seu amigo. Ainda hoje, guardo os planos mirabolantes e os acampamentos precários que fazíamos. Sempre enchíamos a cara de vinho barato e ouvíamos fitas K7 de punk e new wave ao redor da fogueira”, lembra Fê.
Outra das muitas histórias curiosas narradas em Rock Brasília relembra o primeiro show da Plebe Rude e da Legião Urbana em Patos de Minas (MG), em 1982.
A começar pelo fato de que, por ter apenas 16 anos, Seabra teve que pedir autorização aos pais para se apresentar pela primeira vez fora de Brasília. E também porque, em virtude de letras nada amistosas como “Que país é este?” e “Vote em Branco”, as duas bandas foram detidas pela polícia após o show. “Fico feliz porque finalmente a nossa história está sendo contada. Romantizam muito, mas, na verdade, não tinha nada de glamoroso. Os locais dos shows eram toscos, o equipamento, precário e o público, confuso e apático. Quando a gente não estava tocando, estava apanhando da polícia”, recorda Philippe.
Jornada do herói
Para contar a história da Turma da Colina, Vladimir Carvalho levou 24 anos. As primeiras gravações foram feitas em 1987. Já naquela época, notou que algo de novo pairava no ar. Com uma câmara na mão e nenhuma ideia específica na cabeça, começou a registrar os shows da Legião, do Capital e da Plebe.
De lá para cá, acumulou mais de 50 horas de imagens e depoimentos. “Vejo o rock de Brasília como a jornada clássica do herói. Esses jovens saíram da casa dos pais e enfrentaram as agruras da indústria fonográfica. Ao longo dessa jornada, travaram batalhas. Eram tempos difíceis aqueles: de censura política e repressão militar. Mas eles conquistaram o seu espaço na cultura nacional”, analisa Vladimir, que acumulou as funções de pesquisador, roteirista, diretor e montador do documentário.
Há dois anos, Vladimir começou a rever o material. E se surpreendeu ao encontrar algumas raridades, como o fatídico show da Legião “que nunca terminou”. Na noite do dia 18 de junho de 1988, no Ginásio Mané Garrincha, em Brasília (DF), Renato Russo deu o show por encerrado após um espectador invadir o palco e dar uma “chave de pescoço” nele.
Após uma apresentação de pouco mais de uma hora, a multidão, revoltada, deu início ao quebra-quebra. O saldo foi de 60 pessoas detidas e outras 385 atendidas no serviço médico. “Muito antes de o show começar, a gente viu que aquilo não ia dar certo. De um lado, a galera a fim de arranjar confusão. Do outro, a polícia a fim de dar porrada. Bem, só podia dar no que deu”, recorda Marcelo Bonfá, baterista da Legião Urbana.
Através das lentes de Vladimir Carvalho, é possível acompanhar o clima de terror que, em poucos minutos, tomou conta do Mané Garricha. Ao entrar no vestiário, onde se deparou com gente ferida por todos os lados, o cineasta teve a nítida impressão de ter entrado, por engano, na enfermaria de um hospital. “Eu não fazia ideia do que estava filmando naquela noite. Aquilo foi um choque muito grande. Tanto para o Renato quanto para a multidão”, afirma Vladimir. O quebra-quebra no Mané Garricha é apontado como o trecho favorito de Rock Brasília para o baterista Fê Lemos. Ele se diz impressionado com a transformação sofrida por Renato na hora do show. “Ele foi sendo levado pela emoção e, aos poucos, perdeu o controle da plateia”, lamenta.
Mentor intelectual
Ao longo do documentário, o nome de Renato Manfredini Jr, o Renato Russo, é lembrado com carinho e admiração por quase todos os entrevistados. “Renato e eu tínhamos muita afinidade. Mais do que um amigo, ele se transformou no meu irmão mais velho”, emociona-se Bonfá.
Marcelo Bonfá
“Renato era muito bacana e atencioso. Um verdadeiro gentleman”, endossa Seabra. “Renato era genial. E um tanto louco também. Mas, no final das contas, toda genialidade tem um pouco de loucura”, arrisca João Barone, baterista do Paralamas do Sucesso, grupo que, embora não fosse de Brasília, é considerado o padrinho artístico tanto da Legião quanto da Plebe. “Quando a Turma da Colina vinha ao Rio, se hospedava na casa do Bi. A casa dele era uma espécie de embaixada de Brasília no Rio de Janeiro”, brinca, referindo-se ao baixista dos Paralamas, Bi Ribeiro.
Vencedor do último Festival de Paulínia como melhor documentário, Rock Brasília chega aos cinemas em “timing” mais do que perfeito para alguns de seus “protagonistas”.
No mês em que se completam 15 anos da morte de Renato Russo, Bonfá avisa que, em 2012, é bem provável que ele e Dado Villa-Lobos excursionem por algumas capitais com um show nos moldes daquele que foi apresentado no Rock in Rio 4.
Philipe Seabra
Já Seabra comemora a recente indicação do DVD Rachando Concreto ao Vivo, lançado pela Coqueiro Verde Records, ao Grammy Latino como melhor álbum de rock brasileiro. “A Plebe nunca foi uma banda comercial. E, mesmo assim, 30 anos depois, continuamos firmes e fortes. É um momento muito especial, que merece ser comemorado”, festeja Seabra.
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