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Robert Darnton e o futuro dos livros

Por Bruno Dorigatti
Foto de Tomás Rangel

 

Tenho sido convidado para tantas conferências sobre a morte do livro que acredito que o livro está muito mais vivo.” É com ironia que o historiador norte-americano Robert Darnton aborda o tema ao qual vem se dedicando há algumas décadas: a história do livro e do mercado editorial. Formado em Harvard, onde atualmente é o diretor da maior biblioteca universitária do planeta, com 14 milhões de volumes, Darnton dedica-se à chamada história cultural, em especial às publicações e ao mercado editorial da França aos tempos da Revolução, no século XVIII. Entre seus livros por aqui publicados, estão O grande massacre de gatos e outros episódios da história cultural francesa (Graal, 1988), Boemia literária e revolução(Companhia das Letras, 1987), O beijo de Lamourette (Companhia das Letras, 1990; Companhia de Bolso, 2010), Edição e sedição (Companhia das Letras, 1992), O Iluminismo como negócio (Companhia das Letras, 1996), Osbest-sellers proibidos da França pré-revolucionária (Companhia das Letras, 1998) e Os dentes falsos de George Washington (Companhia das Letras, 2005). 

Seu mais recente título editado, porém, foca, entre outras coisas, o trabalho ao qual vem se dedicando com mais afinco desde que assumiu a Biblioteca de Harvard: digitalizar e tornar acessível gratuitamente pela internet o conjunto da produção intelectual da universidade norte-americana e todas as questões que isso implica. A questão dos livros: passado, presente e futuro (Companhia das Letras, 2010) reúne artigos de Darnton sobre a questão mais premente da digitalização de livros que o Google pretende realizar e os perigos que ela traz, mas também trata do futuro das bibliotecas, dos absurdos já cometidos em nome da preservação – quando muitos livros foram literalmente destroçados para serem microfilmados, mas este suporte mostrou-se nada duradouro –, além de trazer o famoso artigo “O que é a história dos livros?”, presente também em O beijo de Lamourette

Em agosto de 2010, o autor esteve no Brasil, participou da 8ª Festa Literária Internacional de Paraty e discutiu com seu colega, o historiador inglês Peter Burke, o futuro dos livros e temos correlatos. Na entrevista a seguir, realizada naquela ocasião, em Paraty, Robert Darnton falou sobre seu trabalho à frente da Biblioteca de Harvard, do sonho que tem em disponibilizar todo seu acervo para o mundo, do receio que tem em relação às ambições do Google, comentou o acordo entre a empresa do Vale do Silício e autores e editores, a criação de bibliotecas digitais públicas e a longa convivência que ainda teremos entre livros impressos e livros eletrônicos. E tranqüiliza os amantes dos livros impressos em papel: “Eles duram”. Uma exposição na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, que completou 200 anos, comprova a afirmação de Darnton. Lá é possível apreciar a Bíblia de Mogúncia impressa por ex-sócios de Gutemberg, em 1462. Impressa há 548 anos. 

 > Assista à entrevista exclusiva com o historiador Robert Darnton ao SaraivaConteúdo
 

Como um jornalista do New York Times se torna um dos mais importantes pesquisadores da história do livro? 

Robert Darnton. Bem, há uma conexão entre o jornalismo, que tenta comunicar notícias de forma impressa [no caso dos jornais e revistas], e a história dos livros, que estuda a impressão como notícia, mas notícia sobre passado. Sou fascinado pela maneira que as pessoas dão sentido à vida em torno delas. Uma maneira de fazer sentido é escrever artigos para jornais. Quando era jovem, tentei aprender o que era notícia. Desde que me tornei um aliado dos antropólogos, que veem tudo como uma construção cultural, aprendi que as notícias em si são uma construção cultural. E agora tenho tentado desenvolver uma História da Comunicação das Notícias estudando os livros, mas não apenas livros. É preciso incluir os manuscritos, os rumores, as canções, todo o tipo de comunicação. Então sinto que o meu passado como repórter de jornal preparou-me para o estudo da – se você gosta de sociologia – comunicação. 

Atualmente, o senhor é o diretor da Biblioteca de Harvard. Poderia falar sobre sua atuação a frente dela? 

Darnton. Eu era um professor, como muitas outras pessoas, e um dia recebo um telefonema de Harvard dizendo: “Você gostaria de se tornar o diretor de nossa biblioteca?” Nunca pensei sobre isso, mas disse a mim mesmo: “Aqui está uma chance para fazer a diferença, fazer algo, em vez de apenas escrever livros sobre coisas”. Porque a Biblioteca da Universidade de Harvard é a maior biblioteca universitária do mundo. Temos quase 14 milhões de volumes, é gigantesca. Ela tem sido o núcleo de Harvard desde 1638. É uma biblioteca muito grande e antiga, e fico pensando em como podemos usá-la para direcionar e organizar a sociedade da informação do futuro. Para mim, é irresistível, como um historiador dos livros, tornar acessível uma biblioteca como esta. Essa é minha principal ambição na forma como dirijo a biblioteca.

E quais os principais desafios nestes três anos a frente dela?

Darnton. São vários desafios. É fácil dizer que precisamos digitalizar nossa coleção de livros. Mas é muito caro. Então o Google vem até mim e diz: “Nós vamos digitalizar seus livros de graça e, em troca, você receberá o que é chamado de cópia digital da biblioteca e… boa sorte para você! Mas nós, Google, poderemos fazer o que quisermos com a nossa cópia digital. Podemos vendê-la”. E isso significa a comercialização de uma coleção de livros que vem sendo construída a muito custo e muita perícia desde 1638! É um bem, um ativo enorme, não só para Harvard, mas para os Estados Unidos e até mesmo para o Brasil, porque temos muitos livros brasileiros. Por isso acho que eu não deveria simplesmente dar ao Google todos estes livros para eles digitalizarem, mas, ao invés disso, receber algo em troca: a democratização do conhecimento. 

Quero que todos estes livros fiquem disponíveis, sem custo, no mundo todo. Mas o Google diz: “Não, nós vamos cobrar dinheiro pelo acesso ao nosso banco de dados destes livros”. Eu digo: “Qual seria o preço?” E o Google responde: “Nos vamos determinar o preço. Mas não se preocupe, confie na gente”. Gosto deles, acho que são pessoas legais, mas quem será o proprietário do Google daqui a 10, 20, 50 anos? 

Nós precisamos de garantias, de condições para que o vasto banco de dados do Google com milhões de livros fique de fato disponível para o público em geral, não só nos EUA, mas no Brasil, na China, em todo o mundo. E o Google não tem resposta para isso. Eles dizem que vão determinar o preço, vão ter a propriedade deste banco de dados a ser criado, vão determinar as condições da disseminação do conhecimento. E isto é errado, precisamos de garantias de que o acesso ao conhecimento digital será livre, gratuito. 

Portanto, não aceitei disponibilizar ao Google os livros de Harvard protegidos por direitos autorais. Livros em domínio público, sem problemas. Mas livros protegidos, não, não acho que devamos fazer isso. E espero que no Brasil vocês também mantenham seu patrimônio cultural independente das incursões do Google, apesar de admirá-los. Não acho que esse patrimônio cultural deva ser controlado por uma empresa. 

Eles não dão estas garantias e o senhor acredita que não irão dar no futuro? 

Darnton. É o que penso. Se eles desejassem dar garantias como “vamos cobrar o preço do livro original, vamos ter autoridades públicas que vão supervisionar o preço”, então concordaria que seria razoável. Mas eles não fazem isso. Eles querem controlar esse banco de dados digitalizado que desejam criar. Posso entender a necessidade de controle, mas, ao mesmo tempo, sinto que o interesse público deve ser representativo. E se não defendemos o interesse público, falhamos em nosso direito. 

E sobre o acordo entre o Google e autores e editores? Creio que ainda esteja em julgamento. O que o senhor pensa sobre ele? 

Darnton. É uma história muito complicada. O perigo é nos perdermos em detalhes legais, mas para simplificar, seria algo como isto: O Google foi processado por autores e editores por violação dos direitos autorais. Eles acusaram o Google de tentar digitalizar e vender seus livros, mesmo que os direitos autorais pertençam a eles. Então decidiram negociar. E passaram três anos negociando. É um acordo entre o Google e os detentores dos direitos autorais, no entanto, de onde eles vão pegar estes livros? De bibliotecas, como a de Harvard, que tem a maior biblioteca universitária do mundo. E, na minha opinião, não devemos simplesmente concordar com um acordo que seria como cortar uma torta, onde 37%  da torta vai para o Google, 63%, para os autores e editores. Mas e os leitores, e o interesse público? Eles não existem nesta decisão. Esta decisão vai sair de um tribunal, porque começou como um caso de tribunal, e um juiz tem que se pronunciar sobre a legitimidade deste acordo. Isso pode soar muito estranho no Brasil, porque um caso de tribunal vai determinar a lei do direito autoral. E penso que esta lei deveria ser determinada pelos representantes do povo, o Congresso dos Estados Unidos. Temos um problema na democratização do conhecimento. E não estou pronto para dizer que este acordo é uma coisa boa. Mas não é minha escolha. A decisão será feita por um juiz de um tribunal da zona sul de Nova York, Denny Chin, um imigrante chinês. Foi trazido para a América com 5 anos, viveu na pobreza, os pais lavavam prato e limpavam o chão em restaurantes. Chin estudou na Universidade de Princeton e hoje é um juiz. E o que Chin fala sobre a democratização do conhecimento? Não sei, estou esperando, pode acontecer a qualquer dia. E realmente acredito que será crucial para o sistema jurídico norte-americano não entregue o monopólio da digitalização dos livros para o Google. Este patrimônio cultural não deveria ser controlado por uma empresa. 

Mesmo com o barulho em torno dos livros digitais, sabemos que eles vão conviver um bom tempo com os livros em papel. Quais as principais questões que ainda não mereceram a devida atenção quando se fala nisso? 

Darnton. Tenho sido convidado para tantas conferências sobre a morte do livro que acredito que o livro está muito mais vivo. Tenho algumas estatísticas sobre a produção de livros: a produção de livros impressos aumenta a cada ano e, em breve, teremos 1 milhão de títulos novos a cada ano. Sei que no Brasil o mercado editorial está florescendo. Portanto, a ideia de que o livro morreu me parece absurda. Contudo, levo a sério o fato de que livros eletrônicos são a onda do futuro. E como conduzir essa transição de um mundo onde o livro impresso é dominante para um futuro onde os livros digitais dominarão? Estamos passando por um tipo de fase de transição onde ambos vão conviver. E isso, para mim, o momento mais excitante e interessante, porque podemos trabalhar em novos tipos de livros, depois de repensar a noção do que é um livro. Como escritor, acho que eles são complementares, e não contraditórios. 

Se você analisar a História da Comunicação, descobrirá que uma mídia não toma o lugar de outra, elas vivem num tipo de co-habitação, que é mutuamente benéfica. Aprendemos que, no tempo de Gutemberg, apesar de sabermos que a impressão foi uma tremenda nova força, os livros manuscritos, que tinham uma tradição de 100, 200 cópias, permaneceram. Ambos reforçaram um ao outro, por serem incomparáveis. E agora temos isso novamente, com o livro impresso e eletrônico a se reforçarem. 

O senhor é um defensor do acesso livre, e da criação de bibliotecas digitais públicas. Acho mesmo isso possível para os próximos anos?

Darnton. Vamos fazer uma conferência em Harvard [ela aconteceu em outubro passado] e queremos criar uma grande coalizão de pessoas que irá pagar e criar uma biblioteca nacional digital, tão grande quanto a biblioteca do Congresso [dos Estados Unidos] e que seria internacional e de graça. Isso pode soar utópico, mas encontrei tanto entusiasmo por essa ideia que acho que podemos realizá-la. Acredito muito na República das Letras, um mundo internacional de conhecimento, aberto a todos, igualitário, sem polícia, sem fronteiras, sem culturas separadas. E sim um tipo de território comum cultural aberto a todas as pessoas do mundo. 

Em nome da preservação, já se destruiu muitos livros, como o senhor relata em A questão dos livros (Companhia das Letras, 2010), citando o livro de Nicholas Baker, Double fold. Acha possível que um cenário como aquele possa se repetir, em nome da preservação?

Darnton. Não acho que isso se repetirá, mas estou profundamente preocupado com o perigo de perder textos digitais. Porque temos hardwares e softwares que se tornam obsoletos. Temos o que chamamos de metadata, que são informações de catalogação, que também se tornam obsoletas. Textos digitais são formados a partir de combinações dos números um e zero, e esses uns e zeros se embaralham, logos eles não duram.

Livros impressos em papel duram, mesmo se impressos no século XIX, XVIII, XVI e XVI. Eles vão durar  para sempre, ou por muitos e muitos séculos. Livros digitais não. O problema da preservação é algo que assombra todos os diretores de biblioteca e nós ainda não conseguimos encontrar uma resposta. 

Em Harvard, temos um investimento enorme em técnicas eletrônicas de preservação de texto. É muito técnico e complicado para explicar, mas, basicamente, sentimos que é nossa responsabilidade tornar estes textos disponíveis para as futuras gerações. Fazemos isto com muitos instrumentos tecnológicos para mantermos os textos vivos, mas não temos nenhuma ilusão de que podemos mantê-los vivos para sempre. Estamos esperando por uma solução deste problema tecnológico. 

 

> Leia o artigo "O Google e o futuro do livro" no original, em inglês

> Leia uma versão traduzida do artigo acima

> Leia o artigo "Podemos criar uma Biblioteca Nacional Digital?" no original, inglês

> Leia o início do livro A questão dos livros (Companhia das Letras, 2010)

> Assista à entrevista exclusiva de Robert Darnton ao SaraivaConteúdo

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