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Robert Crumb, ao som de blues e Pixinguinha


Por Bruno Dorigatti
Foto de Tomás Rangel

“Com licença, poderia lhe dar estes vinis?” Robert Crumb estava em sua pousada, em Paraty, após a coletiva de imprensa e a assessora da Conrad, editora que publica seus álbuns no Brasil, havia me dito que talvez conseguisse entregar a ele os LPs e dois 78 rotações que havia trazido do Rio de Janeiro. Como Crumb, também aprecio o som dos anos 1920 e 1930, o blues e jazz dos norte-americanos e o nosso choro e samba. Pensei que o quadrinista, autor de Blues (Conrad, 2004) – livro sobre obscuros blueseiros como Charley Patton, capas de vinis e revistas retratando os velhos músicos daquele tempo, além de histórias onde transparece sua irritação com o barulhento rock’n’roll – pudesse se interessar pelo som de gente como Pixinguinha, Altamiro Carrilho, Canhoto, Noel Rosa, Jacob do Bandolim e Época de Ouro, Aracy de Almeida, Paulo Moura. Encontrei os LPs com certa facilidade no centro do Rio, alguns álbuns clássicos desta turma acima, como São Pixinguinha, com a histórica foto de Walter Firmo do flautista e saxofonista na capa, sentado em sua cadeira de balanço no quintal de casa. Mas os 78 rotações, aqueles antigos discos um pouco menores que os LPs, e muito mais frágeis porque feitos de porcelana, são difíceis de achar no Rio. “Em São Paulo, você encontra com mais facilidade, mas aqui…”, me disse Bruno, dono da Tropicália Discos, loja de vinis no prédio em frente ao Mercado das Flores, no centro do Rio. Mas dei sorte e acabei achando em outro lugar dois discos que poderiam interessar Mister Crumb, um do flautista Altamiro Carrilho e outro com um choro e um baião de Canhoto. 

Crumb me disse que, entre estes, conhecia Pixinguinha, e ainda Lupércio Miranda e ficou curioso para ouvir os 78. E topou bater um papo, onde falou sobre as músicas que ouvia em casa, quando criança, no rádio da mãe, como conheceu essas velhas músicas nos antigos filmes do início século e como era difícil achar esse som nos anos 1950, logo após a explosão do rock, quando pela primeira vez a juventude americana foi vista como um mercado consumidor em potencial. A música de duas, três décadas antes havia desaparecido, não existia em LPs, e tampouco existiam livros que contassem aquela história. Crumb então esbarrou com alguns 78 e viu que ali, escondidas, estavam os obscuros músicos e cantoras que ele tanto admirava. Foi o começo desta fixação que dura até hoje, e ele já reuniu milhares de 78 e LPs, guardados em um quarto em sua casa em Souve, um vilarejo no Sul da França, com 1.500 habitantes, onde vive com a mulher, também quadrinista, Aline Crumb.  

Em Paraty, o cartunista, antes esperado como o grande nome da Flip, saiu de lá tachado com um chato, já que a mesa em participou ao lado de seu amigo e também cartunista, Gilbert Shelton, criador dos Faboulous Freak Brothers, decepcionou a muitos. Crumb é avesso a jornalistas e a fotógrafos, e realmente não tem muito a ver com algo como a Flip. Mas o grande equívoco foi escalar um mediador que não conhecia a obra de Crumb a fundo, tampouco de quadrinhos.  E aí na imprensa lemos bastante que “Crumb é um chato, ranzinza e mal educado, a Flip deveria chamar só escritores etc.” Ele pode ser ranzinza e mal educado por conta dos lugares comuns que sempre lhe perguntam, ou coisas como se havia muita competição nos quadrinhos underground nos anos 1960, na Califórnia. A essa pergunta, no debate, ele questionou duas vezes: “Você está bricando?” [“Are you kidding?”]. 

Extremamente educado, simpático e gentil, Robert Crumb fala baixo, é tímido e pouco olhou diretamente nos olhos quando conversamos por 40 minutos em uma pequena mesa, num espaço tranquilo e vazio dentro da pousada onde estava hospedado em Paraty. De terno e chapéu pretos, o mesmo com que foi flagrado em Paraty, e óculos de graus com lentes bem grossas, Crumb falou sobre música e essa fixação dele nos 78 rotações e sons obscuros dos anos 1920 e 1930, sobretudo o blues, e a banda que formou com os amigos para tocar esse som, o Cheap Suit Serenaders. O quadrinista de 66 anos (ele completa 67 em 30 de agosto de 2010) – autor de personagens como Mr. Natural, Fritz, the Cat – também falou dos tempos em que começou a publicar suas histórias, em São Francisco no final dos 1960, no momento em que a contracultura norte-americana explodia, da importância que o LSD teve em seu trabalho, da adaptação de Gênesis, dos irmãos Max e Charles, do trabalho com a mulher Aline, e a filha Sophie, que também é pintora e quadrinista. E disse gostar do trabalho de Daniel Clowes e Joe Sacco. 

Crumb folheava o recém-lançado Meus problemas com as mulheres (Conrad, 2010) (ele ainda não havia visto a edição brasileira) e recordou de algumas amigas que retratou há muito tempo. “Lia, essa aqui era tão maluca”, disse apontando para uma delas. Ele mostrou sua primeira esposa, Dana, “também uma maluca”, e alguns desenhos de Aline, sua mulher, dormindo nua, de costas. 

O papo começou com os comentários sobre aquelas histórias e retratos dos 1960, 1970 e 1980.

Robert Crumb. Que homem doente…

Você se vê como um doente?

Crumb. Um cara maluco,claro, mas todos eram meio loucos.

E como é fazer esses desenhos?

Crumb. É um prazer, um grande prazer desenhar essas coisas. É uma espécie de masturbação. Sempre tive muito prazer em colocar essas fantasias no papel. Era algo que tinha necessidade de fazer. Hoje nem tanto mais, estou muito velho agora. Isso é completamente real [apontando para a história “É isso que fica na memória!”, de Meus problemas com as mulheres]. E realmente terminou assim. [Com Crumb currando a garota] [risos]

Poderia falar de suas primeiras memórias musicais? Ouvia muita música quando criança?

Crumb. Claro, mas a maior parte da música que eu ouvia era ruim. Aquela música popular que minha mãe ouvia no rádio, dos anos 1940 e começo dos 1950. A pior música popular, de cantores que vocês provavelmente não conheçam aqui, como Frank Sinatra. Você conhece Sinatra?

Ele é bem conhecido aqui…

Crumb. Tinha uns bens ruins. Doris Day, Perry Como, coisas horríveis. Ela me falou mais tarde que gostava de ouvir polca no rádio. Ela tinha aqueles aparelhos antigos, sentava na cadeira de balanço e balançava furiosamente, no ritmo da polca, quando ela tinha 40 anos. Eu me lembro vagamente disso. Essas são minhas primeiras memórias musicais. E quando surgiu a televisão, no começo dos 1950, eu assistia aqueles velhos filmes de 1931, 1932 e realmente gostava da música que tinha lá, por alguma razão que nem sei. Comecei a procurar aquela música no rádio, em discos, e não conseguia achá-la. Até que encontrei aqueles discos de 78 rotações bem velhos, quando tinha 16, 17 anos. Descobri que as músicas daqueles filmes estavam nestes discos. Aí me tornei completamente viciado em procurar essas gravações. Eu apenas tinha que ouvir aquela música, não sei por quê. Uma espécie de intoxicação com aquela velha música. Eu ainda sou intoxicado por ela. O prazer que tenho em ouvir música vem só destas canções.

Por outro lado, você é associado com a música dos anos 1960, o rock e a contracultura, mas você odeia aquilo.

Crumb. Meus quadrinhos fizeram parte daquela cultura hippie, Jimi Hendrix, Janis Joplin, The Doors, Jim Morrison. Então relacionavam minhas histórias hippies com  aquela música, mas aquilo não me interessava. Não convivia com eles. Conheci Janis Joplin, ela me pediu para fazer aquela capa de Cheap Thrills[Crumb ganhou US$ 600 pela capa, que tinha um desenho em close do rosto de Janis, com gotas de suor e não chegou a ser usada. A gravadora preferiu usar na capa o desenho que havia sido feita para a contracapa, com ilustrações para cada canção. Crumb afirma nunca mais ter visto o desenho do rosto de Janis]. Mas não tinha conexão com eles. Estava fora daquilo, desenhando o tempo todo, era o que fazia, desenhava.

E sobre a música do início do século, por que esse período lhe fascina?

Crumb. Não sei, realmente não sei, mas essa música americana como o jazz, a partir dos 1930, não me interessou mais, tirando algo de country e do blues. E me interesso pela música de outros países, alguma coisa dos 1950. Gosto de algo popular dessa época, aqueles velhos rockabillies são ok, mas não me afetam tão profundamente como a música mais antiga. É estranho, pois não tenho aquela sincronia com o meu próprio tempo, é muito estranho, desconfortável, mas quando eu escutava aquela música em casa, sozinho, era e é profundamente prazeroso. É mais autêntico para mim, mais real, uma coisa engraçada, sou preso àquilo, que é de antes de eu ter nascido. Minha mãe gostava de Benny Godman, Glenn Miller, Artie Shaw, mas a música que eu gostava era do tempo dos meus avós. E termina no começo dos 1930.

E você também desenhou histórias sobre aqueles músicos obscuros como Charley Patton (ao lado) e aquela época [presentes em Blues].

Crumb. Fui fazer isso mais tarde, até porque quando era jovem e descobri aquilo não havia informação a respeito. Tinha poucos livros sobre jazz, mas coisas sobre Patton você não encontrava. As pessoas estavam começando a pesquisar aquilo, tinha alguns amigos da minha idade que também curtiam aquilo no começo dos 1960, iam pro Sul, Mississippi, Louisiana, Alabama e Kentucky, procurando os discos e pesquisando sobre as pessoas que faziam aquelas músicas. Quando comecei não havia informação.

Tem uma história em Blues(Conrad, 2004), “É a vida”, em que alguém vai batendo de porta em porta, perguntando se aquelas pessoas têm em casa os 78 e gostariam de se desfazer daquilo. Você chegou a fazer isso?

Crumb. Sim, eu fiz aquilo e achei bons discos assim. Li um livro sobre jazz, de 1939, que tinha  um capítulo, “Procurando discos”, e falava sobre bater nas portas da vizinhança negra. Eu vou tentar isso, eu pensei. Tinha 18, 19 anos a primeira vez que saí batendo nestas portas, na vizinhança negra em Delaware, onde morava. E aqueles negros pobres ainda tinham os velhos gramofones em casa e os discos da década de 1920. E perguntava se queriam me vender aquilo, e na maioria das vezes eu conseguia. E como não tinha muito dinheiro, pagava 10 centavos por cada um deles. E achei discos incríveis assim. E os nomes eram na maioria desconhecidos ou esquecidos e me perguntava quem era Big Bill, Salty Dog Sam, Joe Evans, The Famous Hokum Boys. Eles não era famosos, obviamente. Quem eram eles? Aquela música era incrível. Os discos geralmente eram muito detonados, furados de tanto usar, cheio de arranhões, mas era uma música fabulosa. 

Você fez também umas cartas com músicos de blues, jazz e country [que lembram o formato de cartas de baralho]. Li que você está retrabalhando estes retratos, retocando sombras e o fundo. 

Crumb. É, isso mesmo. Tem um cara que quer fazer silk screens, impressas em tamanho grande. Serão 25 destas imagens em formato maior. Ele tirou as cores, aumentou e me enviou. Eu as desenhei no começo dos anos 1980, 1981, algo assim, aqueles retratos dos músicos de blues. Tenho que aperfeiçoá-los, retrabalhar neles, colocar cores novas. E vão sair essas impressões grandes de alguns destes retratos. Aquelas cartas de blues venderam bem na época. Então fiz também retratos de músicos de jazz, mas não venderam tão bem quanto as de blues, não sei porquê. E fiz ainda os músicos de country, que venderam pior ainda que as de jazz. Estas duas venderam quase nada. Quando me mudei para a França, nos anos 1990, fiz uma série destas cartas de antigos músicos franceses de acordeom, que também não venderam nada. Mesmo na França, eles não estão interessados naqueles músicos que tocavam acordeom. Eles venderam muito mal. [risos] E aqueles realmente foram um trabalho duro, os tocadores de acordeom, porque é muito difícil de desenhar os acordeons. Elessão cheio de detalhes, aqueles botõezinhos, e a parte por onde sai o som é toda ornamentada, aquilo era muito difícil de desenhar. 

Poderia falar sobre a banda que teve, Cheap Suit Serenaders [Seresteiros de Terno Barato, em tradução literal], com seus amigos. Como vocês resolveram se reunir para tocar e fazer apresentações? 

Crumb. Eram caras que também curtiam aquelas músicas antigas, nos encontramos na Califórnia em 1969, 1970, 1971. Eles tocavam bem, eu não era um músico tão bom assim, mas tocávamos de maneira muito simples, muito crua. Era um prazer, por curtir muito aquilo. E então nós estávamos tocando em algum lugar e, de repente, alguém que tinha um bar nos perguntou: “O que pensam de tocar por algum dinheiro?” Dissemos: “Certo, claro, precisamos de dinheiro”, éramos pobres, quebrados. E ganhamos um dinheiro. Tocamos em Aspen, no Colorado, uma cidade onde tem um grande resort de esqui. As pessoas vão para lá para esquiar nas montanhas. Tocamos lá e eles olhavam para nós como se perguntessem “Quem são esses caras?” Eram os patrulheiros de esqui, espécie de salva-vidas, pessoas duronas. E eles odiaram a nossa música, odiaram a gente. [risos] E um destes caras veio e disse “Por favor, queremos ouvir algum boogie woogie, queremos dançar! Vocês não podem tocar algum boogie?” “Não, não podemos, não tocamos boogie”, a gente respondeu. [risos] 

Na introdução de R. Crumb’ s heroes of blues, jazz & country (Abrams, 2006), seu amigo Terry Zwigoff [que toca com Crumb no Cheap Suit Serenaders e dirigiu o documentário sobre o quadrinista, intitulado Crumb, de 1995] escreve que trocou um 78 rotações raro por um original seu. Você continua trocando seus originais por estes discos? 

Crumb. Sim, troco alguns originais por 78. Fiz um monte de capas de CDs e coisa assim, como cartazes de shows, logotipos, capas de revistas, e continuo trocando por 78 também. Faço estas capas de CDs, principalmente de músicas que gosto. [No bate-papo que aconteceu na Livraria da Vila, em São Paulo, na terça 10 de agosto, ao ser perguntado se tinha trocado um original por uma casa no Sul da França, Crumb respondeu que, na verdade, foram seis originais…]

*** 

Depois de 20 minutos de papo, Crumb mostrava-se a vontade e continuou falando. O detalhismo com que analisou a edição brasileira de Meus problemas com as mulheres, ainda inédito para ele, demonstrou alguém preocupado e fissurado pela impressão de seu trabalho. Perguntei-lhe então sobre quando começou a publicar seus quadrinhos, no final dos 1960, em São Francisco, a importância do LSD em seu trabalho, a adaptação do livro do Gênesis, o trabalho com a mulher Aline, a filha Sophie, também pintora e quadrinista, e os artistas que admira hoje em dia. Ele falou sobre tudo isso, e elogiou a qualidade da impressão de suas histórias na revista Piauí, muito diferentes e melhores que a New Yorker, que originalmente publica as histórias do casal nos Estados Unidos. [À direita, retrato de Crumb por Rafael Grampá, que também esteve com o quadrinista em Paraty e fala sobre o encontro em seu blog, Furry Water]

Voltando aos anos 1960 e o momento em que começou a publicar, você fala que o LSD foi muito importante para o seu desenho… 

Crumb. Foi uma experiência muito visionária para mim, o LSD. Mudou toda minha opinião do que eu estava fazendo, uma mudança profunda. Claro, não desenhava enquanto estava chapado de LSD, era impossível. Apenas mudou a minha visão e percebi isso naquele momento. Mas não poderia analisar enquanto estava acontecendo. Foi um tempo muito louco. O LSD me deixou com aquela sensação ainda maior de irrealidade. Eu já era um sonhador, não tinha muito contato com a realidade quando era mais novo. O LSD realmente me deixou mais amistoso, creio eu, conseguia lidar melhor com a realidade. Produziu visões poderosas que afetaram meu trabalho artístico e toda minha visão de mundo profundamente. Me alterou em alguns aspectos. Para melhor ou pior, eu não sei. 

O que pensa, não tem uma opinião a respeito?

Crumb. Não sei, em alguns aspectos foi bom, em outros, não sei. Não tenho certeza se avariou meu cérebro. Você sabe, algumas vezes você paga o preço por visões como estas, é uma situação muito clássica. Você tem que perder algo, para ter uma visão poderosa como aquela. Faz você enxergar através dessas ilusões em que geralmente vivemos na maneira de ver o mundo. O LSD me ajudou a penetrar através daquilo, mas avariou meu cérebro, com certeza. [risos] 

Você falou que passava todo o tempo desenhando. Como era isso? 

Crumb. Eu desenhava o tempo inteiro, sim. Comecei com esse ritmo aos 18 anos, estava me escondendo da realidade através do papel, do lápis, das canetas. Passei meus anos enfiado no papel, basicamente. [risos] E quando fiquei conhecido em 1968, 1969 comecei a ter muito mais contato com outras pessoas. Eu era muito introspectivo, só desenhava. Casei e tudo, mas não estava no mundo, não participava, não era social. Aí fiquei conhecido e tudo mudou. Tudo começou a mudar a partir daí. 

O que mudou?

Crumb. As pessoas começaram a prestar atenção em mim, exigindo minha atenção. Se você é reconhecido por algo que fez, de repente as pessoas se interessam por você. Homens de negócio querem fazer dinheiro a partir de você. De repente, todas as pessoas queriam falar comigo, me procuravam. O telefone estava tocando, foi muito estranho. No início daquilo, eu era muito bajulado, estava impressionado com toda essa atenção. Depois fiquei muito confuso. Aquela merda pode lhe matar. Eu vi isso tudo matar as pessoas. Vi a fama matar Janis Joplin, matou. Ela não podia lidar com aquilo, foi demais. Aquelas pessoas o tempo todo em volta dela, não a deixavam sozinho, foi horrível, horrível ver o que aconteceu. Ela começou a tomar muitas drogas, bebia muito. O álcool e as drogas mataram Janis. Mas realmente foi a fama. Sou menos famoso que ela, felizmente. E ainda tenho algum tempo para mim mesmo, mas não como era antes. 

*** 

Crumb pareceu um tanto triste nesse momento, quando sua voz embargou. No debate na Flip, no dia seguinte a esta conversa, quando Gilbert Shelton disse que havia convidado Janis para tocar rock com sua banda, ela recusou, dizendo que o pessoal do folk não tocava rock. “Ela deve ter se arrependido depois”, disse Shelton. “Se ela não tivesse largado o folk, ainda estaria viva”, acrescentou Crumb.  

Crumb. Quando se deixa de ser alguém obscuro e ignorado para ser alguém conhecido, as pessoas querem sua atenção, o dia inteiro, o tempo inteiro. Foi assim comigo em 1968. E foi ficando pior e pior, na verdade. [risos] Mas eu fiquei mais forte, mais resistente para lidar com aquilo. Comecei a dizer não para as pessoas, ser capaz de identificar aqueles canalhas quando eles se aproximavam para fazer dinheiro a partir de você, tentando que você assinasse contratos, esse lixo todo. 

Essa foi uma das razões do por que você se mudou para a França?

Crumb. Não, realmente, não. Foi coisa da Aline mesmo. Ela estava altamente motivada em se mudar para a França. Confiei nela e não me arrependo. É bom morar na França. E os Estados Unidos, pfff… 

E você vai para lá algumas vezes? 

Crumb. Sim, vou, geralmente uma vez por ano. Tenho muitos amigos, meus irmãos, gosto de revê-los. Meu irmão Max, ele também é artista, um pintor muito bom. Muito estranho, muito louco, mas tem um trabalho artístico poderoso. Gosto de vê-lo, assim como os velhos amigos, como Terry Zwigoff e os outros músicos que tocavam com a gente no Cheap Suit Serenaders. A gente se encontra, toca essas músicas, mas não fazemos mais apresentações públicas. Parei de fazer isso. 

Não gosta mais? 

Crumb. Eu nunca apreciei. Nunca gostei disso [risos]. Ficar sendo vigiado e observado. Gosto de tocar música. Agora aquelas multidões de pessoas me olhando sempre me deixaram muito nervoso. E me travavam como músico, ficava tão nervoso que não conseguia tocar tão bem. Sempre toquei melhor quando estava sentado em um quarto com poucas pessoas. [risos] 

Você falou sobre seu irmão Max. Seu outro irmão, Charles, foi muito importante para que você começasse a desenhar quadrinhos, ainda criança. Gostaria que você falasse sobre esse momento, ainda criança, quando começou a fazer quadrinhos. O que desenhava, quais eram as inspirações? 

Crumb. Meu irmão Charles era obcecado em quadrinhos…

***

Neste momento, próximo de onde estávamos, um funcionário da pousada começa a fazer um suco de laranja em uma máquina que emite um barulho alto e esquisito, que lembra o som daquelas máquinas que cortam carne em açougues. Crumb não tem paciência com barulhos, e isso vem desde os anos 1960, com a explosão do rock, e o horror a coisas como o Grateful Dead e companhia. Ele começa a imitar o barulho do espremedor de sucos e rir. 

Crumb. Que barulho bizarro… Nhóóóon. Zuurrrr. Uuuummrrrr. Então, estava dizendo… Ah, meu irmão Charles era obcecado com quadrinhos e cartuns da Disney. A Disney fascinava meu irmão, ele tinha uma imaginação muito vívida, muito mais vigorosa que a minha. A Disney afetou-o profundamente quando era criança, ele ficou obcecado com aquele universo, vivia mais naquele mundo do que na realidade. Ele era mais velho que eu e foi uma grande influência para mim. Eu era uma criança muito vaga e passiva. [risos] E Charles desenhava o tempo todo e me fez desenhar também o tempo inteiro. E desenhar quadrinhos. Ele começou a desenhar quadrinhos com 6, 7 anos e me fez começar a desenhá-los também com 7, 8 anos. E era isso que fazíamos, desenhávamos quadrinhos, não estávamos interessados em mais nada. Vivíamos num mundo de quadrinhos e éramos muito inspirados pelo Pato Donald e outros quadrinhos populares na América naquele tempo [final dos 1940, começo dos 1950], Luluzinha, The Funny Animal [desenhado por Jim Tyer]. Não estávamos interessados em super-heróis e esse tipo de coisas. Imitávamos aquilo, fazíamos centenas e centenas dos nossos próprios quadrinhos. Chegavam a formar pilhas e pilhas, as nossas histórias em quadrinhos. E, o que fazia quando criança, continuei a fazer quando me tornei adulto.


 

Poderia falar sobre o livro do Gênesis (Conrad, 2009), as dificuldades que teve para adaptá-lo e a maneira como aborda este texto sagrado? [Leia mais sobre a adaptação de Gênesis aqui]

Crumb. Foram quatro anos, um bocado de trabalho. E também um desafio para as minhas habilidades como desenhista. Eu realmente tive que melhorar minha habilidade, meu traço quando trabalhei nesta adaptação. E conforme minha destreza melhorava enquanto desenhava, as páginas iniciais começaram a parecer cruas, imperfeitas para mim. Então tive que voltar e fazer muitas correções nas primeiras páginas, melhorar a coisa toda. As roupas, as posições anatômicas dos corpos, tive que melhorar aquilo tudo. Nunca havia feito algo que demandasse tanta habilidade nessa área antes. Foi um bocado de trabalho. 

Pensou em desistir ou foi se interessando mais e mais por este trabalho? 

Crumb. Acho que pensei em ambas as coisas. Algumas vezes ficava realmente cansado, mas não tinha como parar. Tinha que terminá-lo uma vez que comecei, não poderia parar no caminho. E fui ficando interessado naquilo tudo, em todo o assunto, por muito tempo, anos e anos, profundamente interessado no começo da civilização, na Mesopotâmia, Babilônia, Suméria, Síria, Egito Antigo, toda essa coisa. Estudei bastante aquilo. E especialmente interessado na primeira parte do Velho Testamento, a relação entre aqueles povoados da Mesopotâmia, os Hebreus, o Gênesis, Exôdo. E as histórias me encantaram, cheias de imagens que me seduziram e atraíram, que pediam para ser interpretadas como uma história em quadrinhos. Fui impelido a ilustrar aquelas histórias malucas. Mas entre essas histórias malucas havia muito coisa difícil de desenhar, quando como eles falam de todas as gerações e de quem elas descendiam. Aquilo foi difícil, fazer o rosto de todas aquelas gerações. 

E você ouviu críticas dos conservadores ou de gente que o acusou de ter profanado o texto sagrado? 

Crumb. Nem tanto, não ouvi muitas críticas como esta. Ouvi, na verdade, mais críticas de fãs do meu trabalho, que falavam algo como: “Crumb, por que você está fazendo isso? Você se vendeu, tornou-se religioso?”. Ouvi muito isso daqueles que amam aquelas coisas malucas e antigas, com muito sexo e drogas. Não entenderam porque eu estaria interessado em adaptar o Gênesis, algo que consideram chato. Eles não conseguem entender porque eu fiz isso. Essa tem sido a maior crítica que tenho recebido. 

Sério? Mas essas histórias são cheias de assassinatos, sexo… 

Crumb. Mas eles não gostam da Bíblia, acham chato isso. [risos] Essa crítica veio bastante dos fãs franceses e alemães de quadrinhos, especialmente os alemães. Meu trabalho é bastante popular na Alemanha e eles curtem aq

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