Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 14.11.2013 14.11.2013

Rio de Janeiro e o amor são protagonistas da poesia cotidiana de Gregorio Duvivier

Por Andréia Martins
 
Antes de ser sucesso como ator e roteirista do Porta dos Fundos e enquanto trilhava seu caminho no teatro, Gregorio Duvivier já havia se lançado no mundo da poesia com  A Partir de Amanhã Eu Juro que a Vida Vai Ser Agora (7 Letras), de 2008.
Agora, aos 27 anos e após toda a exposição que o programa humorístico e outros trabalhos como ator trouxeram, ele dá mais um passo como poeta com o livro Ligue os Pontos – Poemas de Amor e Big Bang (Companhia das Letras), uma reunião de poemas sobre o Rio de Janeiro e, como o título indica, sobre o amor.
Para preparar o novo título, o autor abriu as gavetas e revisitou versos mais antigos, além daqueles que redigiu recentemente. Ele eliminou muitos até chegar à seleção que compõe a obra recém-lançada. Ela conta com pouco mais de 30 poemas, dispostos em pequenos blocos com textos curtos.
A primeira parte, Cartografia Afetiva, é dedicada à capital fluminense, onde Gregorio nasceu e mora até hoje. “O Rio é uma cidade com muita beleza natural, estonteante, e muitas riquezas pessoais e afetivas. Não penso em sair de lá. Tem uma melancolia que acho fascinante, tipo uma Veneza [Itália], uma cidade que já foi glamourosa”, comentou o escritor durante o lançamento do livro em São Paulo.
O tom dos poemas sobre o Rio de Janeiro é mesmo de nostalgia. Neles há uma mistura de personagens antigos – o feirante, a senhora caminhando pela rua e o senhor do bairro de Botafogo com óculos "fundo de garrafa" – com coisas de um passado remoto, como orelhão, figurinhas, gibis e a antiga moeda brasileira, o cruzeiro.
“É engraçado. Todo mundo acha o Rio melancólico no livro, e eu não tinha percebido isso”, disse Gregorio. “Mas talvez eu ache o Rio meio melancólico mesmo. Tem um saudosismo de capital. Acho que a cidade nunca vai se recuperar por não ser mais a capital política e econômica do Brasil. O Rio virou um balneário, é meio que um milionário falido, uma cidade meio entregue. Há uma série de governantes péssimos. As piores escolhas políticas estão lá, inclusive as próximas, segundo os prognósticos eleitorais”, completou.
Mas além de falarem sobre a capital fluminense, os poemas usam a cidade como cenário para situações banais do cotidiano. Por exemplo, o encontro entre um casal na sessão de laticínios de um supermercado, o hábito de comprar gibis do Cascão vendidos a 5 mil cruzeiros, o movimento no posto do açaí de uma praia qualquer e os costumes de moradores da Urca com medo de assaltos. Tudo, claro, com humor.
 
Aliás, o humor é protagonista das poesias, especialmente as que estão na segunda parte do livro, Para Aprender a Gostar Muito, que têm como tema o amor e é dedicada à esposa, Clarice Falcão – que, assim como ele, gosta de se dividir: é metade cantora e metade humorista. Segundo Gregorio, ela o intimou a publicar os poemas.
Durante o lançamento, houve quem comentasse que o novo título não trazia poesias, mas pequenas histórias cotidianas – como se a poesia não pudesse ser engraçada, tivesse que ser sempre séria e doída. Gregorio não se apega à neura. “Humor e poesia combinam, e não há barreiras”, ressaltou.
MOMENTO POETA
A julgar por uma frase escrita por ele em sua coluna para a Folha de S. Paulo – "Eu acredito muito no poder do amor, assim como na poesia. Ambos dão sentido à vida” -, percebe-se que os versos sempre ocuparam um espaço especial na vida de Gregorio, que cita Paulo Henriques Britto como sua referência no gênero.
 
O ator e escritor Gregorio Duvivier
Entre tantas funções, o escritor disse que hoje vive “um momento totalmente poeta” e que essa versatilidade, que “é coisa de família”, não o incomoda.
“Meu pai até hoje é meio artista plástico e meio saxofonista. A minha mãe é cantora e produtora. Minha avó era pianista, escultora, pintora e, eventualmente, pegava meninos de rua para morar na casa dela – era assistente social”, comentou, rindo.
Na sequência, ele sacou da memória uma história de uma crise da avó sobre o que fazer da vida. “Me lembro de uma vez que ela estava com 88 anos, e meio triste. Eu perguntei: ‘O que houve, vó?’. E ela respondeu: ‘É que não sei ainda o que eu quero ser’. Então ela morreu com essa dúvida, sem saber o que era, o que queria ser. Eu também tenho essa dúvida. Não sei o que quero ser quando ‘crescer’. Mas agora estou num momento poeta – diria que sou apenas poeta”, brincou Gregorio.
 
 
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