Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 04.06.2010 04.06.2010

Rimbaud, revolucionário aos 18 anos

Por Bruno Dorigatti
Ilustração de Loredano

Um insolente moleque,recém-passado os seus 17 anos, com olhos azuis hipnotizantes, verborrágico epiolhento, sem medo de colocar tudo no chão para erguer o novo destesescombros. Nada mais distante de uma imagem ideal ou idealizada, mas poderiaser este um dos momentos a definir o surgimento da poesia moderna. O personagema que nos referimos é o francês Arthur Rimbaud, cuja vida, além da propostapoética que inaugurou na segunda metade do século XIX, talvez bastasse paradescrever este momento de ruptura. Nascido em um pequeno vilarejo ao norte deParis, Charleville, Rimbaud presenciou momentos importantes e definitivos dahistória francesa e europeia. Viu a França ser invadida e ocupada depois queNapoleão III declarou guerra à Prússia de Bismarck em 1870, período caótico eturbulento que só acabaria com a implementação da Terceira República. Depois dohumilhante Tratado de Versalhes, assinado pelo presidente recém-eleito, AdolpheTiers, os parisienses se revoltaram e criaram o primeiro governo comunista dahistória, a Comuna de Paris, ao dissolver o poder oficial da Igreja Católica eacabar com dinheiro que recebia do governo, além de fechar as casas de penhorese declarar Paris cidade internacional, aberta aos trabalhadores de todo omundo. A experiência durou pouco tempo, pouco mais de dois meses – entre 26 demarço e 30 de maio de 1871 – mas foi decisiva para todos aqueles que avivenciaram, Rimbaud aí incluído. 

Depois de andanças pelaBélgica, quando vendeu os poucos livros que tinha para conseguir algum parcodinheiro para subsistir, e mesmo Paris, onde chegou a ser preso por não ter obilhete ao desembarcar na capital francesa, Rimbaud sempre retorna a sua vilanatal, onde sua severa mãe o cobrava pela vida errante aos 15 anos, apesar dadisciplina e das boas notas na escola até então, quando esta chegava a funcionarneste período entremeado pelas guerras. É em Charmeville que começa a vomitarseus primeiros poemas e o verbo aqui é algo que o próprio poeta usava paradefinir seus escritos, depois da experiência de ler Montaigne na biblioteca deGeorges Izambard, espécie de mentor intelectual na pequena vila, tão escassa delivros e novidades, e que o ajudaria também em Paris. A imagem que iria definira noção da poesia para Rimbaud é esta: “O poeta, sentado sobre o tripé dasMusas, cospe furiosamente tudo o que lhe entra pela boca, agindo como umagárgula, e dele saem coisas de toda a sorte diferente, substâncias contráriasnum fluxo irregular”. Era assim que se sentia o jovem poeta, que logo estaria agolfar seus poemas sobre piolhos, coquetes em cabarés, soldados em meio àloucura da guerra, sempre permeados por um sentimento anticlerical eantiestatal. E isso de maneira que buscava subverter o formalismo rígido dasestrofes, além de escrever seus poemas em prosa. 

Um perfil recém-lançadopela Companhia das Letras, Rimbaud: avida dupla de um rebelde, do norte-americano Edmund White, joga luz na vidaerrante deste breve, porém definitivo poeta, um dos responsáveis por colocar apoesia em seu tempo, turbulento, violento, com mudanças rápidas e drásticas. Naobra, White relê a profusão de biografias, ensaios e trabalhos sobre Rimbaud,que acabou por se tornar algo como um mito, uma lenda, ao revolucionar a poesiaem apenas quatro anos, ainda adolescente e antes dos 20 anos, para depoislargar tudo por uma vida errante no norte da África como mercador e traficantede armas. No ensaio biográfico de menos de 200 páginas, acompanhamos emdetalhes a vida do jovem Rimbaud, sua andança como um vagabundo errante quesempre retornava à terra natal, antes de fixar-se em Paris, e a complexarelação com o poeta Paul Verlaine, dez anos mais velho. Um dos nomes doParnasianismo e do Simbolismo que ajudaria a estabelecer, Verlaine era um poetaintegrado aos círculos literários, propenso aos abusos do álcool, sobretudo doabsinto, tão em voga na época, o que o tornava agressivo e violento. Com ele,Rimbaud viveu uma complicada experiência amorosa, que culminou primeiro com aseparação de Verlaine da esposa, deixando o filho para trás, para vagar pelaBélgica e Londres com Rimbaud. A relação teve um momento trágico quandoVerlaine atira em Rimbaud, ferindo-o no pulso, e fica preso por dois anos. “ORimbaud que descobri ao escrever sobre ele é um escritor engenhoso, original eiconoclasta que elaborava seus versos de três diferentes modos: romântico noestilo de Victor Hugo; simbolista no estilo completamente inovador de Uma temporada no Inferno; e inteiramenteoriginal na prosa poética e nas visões de indiferente distopia de Iluminações”, afirmou White ementrevista a Folha deS. Paulo. O autor inclusive abre o pequeno volume com sua históriapessoal e a importância de quando descobriu Rimbaud, em 1956, na época dafaculdade, momento em que ele negava a própria homossexualidade e nutria por siuma autorrejeição. 

Autor de outras biografiasde importantes escritores, como os também franceses e homossexuais MarcelProust e Jena Genet, White faz uma competente introdução à vida e à poesia doRimbaud escritor, que se encerra quando ele decide seguir a vida errante, masagora como um comerciante e contrabandista de armas. A opção é deliberada epara aqueles que desejam se aprofundar nesse período de sua vida tem aparecidolivros sobre o poeta, seja com suas correspondências ou com sua vidapassada na África, como Arthur Rimbaud:correspondências (Topbooks, 2009), organizado por Ivo Barroso, e Rimbaud na África: os últimos anos de umpoeta no exílio (1880-1891) (Nova Fronteira, 2006), de Charles Nicholl.White arrisca algumas das razões do interesse renovado pelo poeta. “A ambiguidade que repousa no coração da poesia deRimbaud permite que ele seja considerado um visionário, um católico, umsocialista, um esteta, um ativista gay e por aí vai. Essa sua infinitude, juntocom a violência e o colorido de sua lenda pessoal, sempre atrairão leitores detodos os tipos.” Na prosa de White, que transita entre o jornalismo e o ensaio,Rimbaud aparece humanizado – ainda que sua genialidade transpareça aqui e ali –atormentado e impotente diante de um mundo que não cabia dentro de si. Ou que nãoo entendia. Rimbaud morreu aos 37 anos, de câncer, sem fazer barulho. Seriapreciso o tempo passar para que se reconhecesse a sua singularidade. 

 > Leia um trecho de Rimbaud: a vida dupla de um rebelde (Companhia das Letras), de Edmund White 

> Leia um poema de Rimbaud


Uma estação noinferno
Artur Rimbaud 

Antigamente, se bem me lembro, minha vida era umfestim no qual todos os corações exultavam, no qual corriam todos os vinhos. 

Uma noite, sentei a Beleza em meus joelhos. – Eachei-a amarga. – E injuriei-a. 

Armei-me contra a justiça. 

Fugi. Ó feiticeiras. ó miséria, ó ódio, a vós é quefoi confiado o meu tesouro! 

Tudo fiz para que se desvanecesse em meu espírito aesperança humana. 

Como um animal feroz, investi cegamente contra aalegria para estrangulá-la. 

Conjurei os verdugos para morder, na minha agonia,a culatra de seus fuzis. 

Conjurei as pragas, para afogar-me na areia, nosangue. Fiz da desgraça a minha divindade. Refocilei na lama. Enxuguei-me ao ardo crime. E preguei boas peças à loucura. 

E a primavera trouxe-me o horrível gargalhar doidiota. Ora, por último,

chegando a ponto de quase fazer o trejeito final,sonhei encontrar a chave do festim antigo, no qual talvez recobraria o apetite. 

A caridade é essa chave. – Esta inspiração provaque tenho sonhado! 

“”Sempre serás hiena, etc…”” exclama odemônio que me coroou de tão amáveis papoulas. “”Vence a morte com todos osteus apetites, com todo o teu egoísmo e todos os pecados capitais””. 

Ah! estou farto de tudo isso: – Mas, querido Satã,eu te conjuro a que não me fites com pupila tão irritada! e à espera daspequenas covardias atrasadas, para vós outros que admirais no escritor aausência das faculdades descritivas ou pedagógicas, para vós arranco algumashediondas páginas do meu caderno de condenado.

> Arthur Rimbaud na Saraiva.com.br

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