Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 07.11.2011 07.11.2011

Richard Schickel resgata histórias pessoais e de bastidores no livro Conversas com Scorsese

Por Andréia Silva
Na foto, Preparacao de uma tomada de Touro Indomavel
 
Um boxeador de peito e braços abertos encara quem o observa em rabiscos em preto e branco. Essa descrição poderia ser uma referência à cena de qualquer um dos clássicos filmes sobre o mundo do boxe, mas é, na verdade, um dos desenhos feitos pelo diretor Martin Scorsese quando criança.
 
Scorsese não só desenhava quando pequeno como esboçou no papel muitas histórias que, mais tarde, ele filmaria. No caso do boxeador, a cena seria vista mais tarde no filme Touro Indomável, de 1980, com Robert De Niro no papel de lutador. Caminhos Perigosos, filme que Scorsese rodaria apenas em 1973, também teve todas as tomadas desenhadas por ele na infância.
 
Essa faceta é apenas uma das que o crítico de cinema Richard Schickel revela sobre o diretor no livro Conversas com Scorsese (Cosac Naify), lançado durante a 35ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.
 
Schickel é um renomado crítico de cinema norte-americano, já na profissão há mais de quatro décadas. Ele diz que o cinema “invadiu” sua vida quando tinha 5, 6 anos. “Na primeira vez que meu pai me levou ao cinema, eu achei aquilo a coisa mais incrível que tinha visto, especialmente para a época”, relembra. “Uma hora pensei: é isso que vou fazer da vida. E tudo bem”.
 
Desde então, Schickel se dedica a falar sobre cinema, fazer filmes especiais sobre diretores e escrever livros. Graças a um amigo em comum se aproximou de Scorsese, “há algumas décadas”, como ele mesmo diz, e, quando foi convidado para participar da série “Conversas” (cujo primeiro volume trouxe entrevistas com Woody Allen feitas pelo seu biógrafo, o jornalista Eric Lax), não pensou duas vezes.
 
“Achei que Martin seria perfeito. Pensei, bem, ele vai gostar de fazer isso, ainda mais que está com seus 60 anos, bem naquele momento onde a gente começa a reavaliar a vida”, diz Schickel.
 
Richard Schickel / Patrícia Williams
 
Ao contrário do livro com Woody Allen, onde Eric Lax fez entrevistas ao longo da carreira do diretor, as entrevistas de Schickel com Scorsese foram recentes. “Conversávamos muito, às vezes fugíamos do assunto em questão, mas sempre voltávamos ao foco”, diz.
 
“Martin é um livro aberto, todos sabem um pouco dele. A maioria das pessoas que o conhecem sabe que é intenso, detalhista e um workaholic. Esses seus lados estão bem expostos no livro. Ele realmente coloca toda a sua energia no trabalho, nunca faz nada pela metade e tem ótimo senso de humor ao falar dele mesmo”.
 
Dividido em temas como infância, obsessões e sua filmografia, o livro aborda os assuntos mais recorrentes na obra de Scorsese – violência e confiança, sempre colocada em xeque, são frequentes –, elementos que o crítico considera autobiográficos, bem como histórias de bastidores. Nas entrevistas, as respostas dão o tom da timidez do diretor, de quem, aos poucos, Schickel vai conseguindo arrancar revelações. Um dos trechos mais curiosos é quando Scorsese decidiu que seria padre, mas logo percebeu que esse não seria o melhor caminho. Entregou-se com fé e devoção ao cinema.
 
Como crítico, Schickel destaca a fase documental de Scorsese. “Agora ele faz esses documentários, isso é realmente bom. O filme sobre Bob Dylan, No Direction Home… aquilo é realmente ele”, diz.
 

A idade e o passar do tempo não incomodam Scorsese, segundo o escritor. “Se ele não está filmando, está pensando em fazer um filme, escrevendo um roteiro ou produzindo um filme. Parar não está no roteiro”.

 
 
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