Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Música 15.07.2011 15.07.2011

Renato Russo não morreu

Por André Bernardo
Foto: Thiago Mendonça, ator que interpreta Renato Russo no filme Somos Todos Jovens / Crédito Mariska
Urbana Legio Omnia Vincit. Em 1986, por ocasião do lançamento do álbum Dois, o cantor e letrista Renato Russo resolveu adotar a frase acima, que significa, em latim, “A Legião Urbana a tudo vence”, como lema de sua banda. Mal podia ele imaginar que, 15 anos depois de sua morte, no dia 11 de outubro de 1996, de complicações decorrentes da AIDS, a Legião Urbana continuaria invencível. Só no cinema, dois filmes, Somos Tão Jovens, de Antônio Carlos da Fontoura, e Faroeste Caboclo, de René Sampaio, e um documentário, Rock Brasília, de Vladimir Carvalho, evocam a memória da Legião Urbana. Sim, Renato Russo não morreu. Pelo contrário. Continua mais vivo que nunca.

O primeiro a constatar a perenidade da obra de Renato Russo foi o cineasta Nando Olival. Diretor da O2 Filmes, Nando é o responsável pelo clipe promocional da música Eduardo e Mônica, uma ação da operadora de telefonia móvel Vivo para o Dia dos Namorados. Apenas um dia depois do lançamento da campanha, em 9 de junho, o vídeo já tinha sido visto por mais de 1,3 milhão de pessoas no YouTube. “Perdi a conta do número de pessoas que vieram me dizer que ‘Eduardo e Mônica’ mudou a vida delas”, constata Nando. “Se depender dos fãs, a Legião Urbana não vai morrer nunca. É herança que passa de avô para neto e de pai para filho”, acredita.

“O show que nunca terminou”

Ainda esse ano, o documentário Rock Brasília ganha as telas de cinema em circuito nacional. No início do mês participou da 4ª edição do Festival de Paulínia, em São Paulo, e saiu com o prêmio de melhor documentário. Produzido por Marcus Ligocki e dirigido por Vladimir Carvalho, o longa narra a trajetória de três bandas de rock surgidas na Brasília dos anos 80: Plebe Rude, Capital Inicial e, claro, Legião Urbana. Das muitas cenas registradas pelo experiente Vladimir Carvalho, Ligocki destaca o fatídico show no Ginásio Mané Garricha, em Brasília, na noite de 18 de junho de 1988. “Este é o famoso show da Legião que nunca terminou. Um show muito falado, mas pouco visto”, valoriza Ligocki.

Naquela noite, a Legião deu o show por encerrado após um espectador invadir o palco e dar uma “chave de pescoço” em Renato Russo. Após uma apresentação de pouco mais de uma hora, a multidão, revoltada, deu início ao quebra-quebra. O saldo foi de 60 pessoas detidas e outras 385 atendidas no serviço médico. Sessenta e quatro ônibus foram depredados. “Muito antes de o show começar, a gente viu que aquilo não ia dar certo. De um lado, a galera a fim de arranjar confusão. Do outro, a polícia a fim de dar porrada. Bem, deu no que deu”, recorda Marcelo Bonfá, baterista e um dos fundadores da Legião Urbana, ao lado de Renato Russo.
 
A invenção do ídolo

O início da amizade entre Renato e Bonfá, a propósito, promete ser um dos pontos altos da cinebiografia Somos Tão Jovens, prevista para estrear em 2012. Nela, Antônio Carlos da Fontoura promete retratar os primeiros anos da banda, entre 1976 e 1982. Foi nesta época que, inspirado em alguns de seus ídolos, como o pensador galês Bertrand Russell, o filósofo francês Jean-Jacques Rousseau e o pintor primitivista Henri Rousseau, Renato adotou o sobrenome artístico Russo. “Foi na passagem da adolescência para a vida adulta que Renato Manfredini Júnior se inventou como Renato Russo”, justifica o cineasta, que escalou o ator Thiago Mendonça para o papel do vocalista da Legião.

Desde o início, a mãe de Renato, Maria do Carmo, e a irmã dele, Carmem Teresa, participam ativamente do projeto. O título, aliás, foi uma sugestão da matriarca da família, que reprovou a ideia original – “Religião urbana” – e propôs Somos Tão Jovens, da canção Tempo Perdido. Quem também marca presença nos filmes-tributo à vida e obra de Renato Russo é seu filho, Giuliano. Além de ajudar na produção de “Somos tão jovens”, Giuliano terá uma participação especial em “Faroeste caboclo”, versão cinematográfica da música homônima escrita em 1979 e lançada em 1987, no álbum “Que país é este” – o 3º de um total de 12, que, juntos, venderam 17 milhões de cópias.

Western nacional

A mítica saga de João de Santo Cristo, que decide abandonar uma vida de traficante de drogas por amor a Maria Lúcia, vai chegar às telonas no início de 2012. No elenco, Fabrício Boliveira interpreta João de Santo Cristo; Isis Valverde, Maria Lúcia, e Felipe Abib, Jeremias. “Desde que ouvi essa música pela primeira vez, aos 14 anos, pensei: ‘Nossa, isso dá um filme!’”, lembra o cineasta René Sampaio, que enaltece o caráter atemporal das letras de Renato Russo. “As músicas da Legião não são datadas. Em vez de fazer coisas panfletárias, ele optou por contar histórias universais. Qualquer pessoa em qualquer lugar do planeta pode se identificar com qualquer uma delas”, acredita.

Autor da biografia O Trovador Solitário, Arthur Dapieve garante que a sétima arte era, para Renato Russo, uma obsessão tão grande quanto o rock. Apaixonado pelos cineastas Ingmar Bergman, sueco, e François Truffaut e Jean-Luc Godard, franceses, o vocalista da Legião chegava a assistir a quatro filmes por dia. "De certa forma, esses filmes fazem o que o Renato não viveu para fazer: cinema", afirma. Meticuloso ao extremo, Renato Russo chegou a afirmar que, até os 40 anos, levaria adiante a Legião Urbana. Dos 40 aos 60, se dedicaria ao cinema. E, daí em diante, abraçaria de vez a literatura. “Carisma é sempre algo inexplicável. Ou se tem ou não se tem. E Renato tinha, muito”, assegura.

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