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Renato Aragão fala sobre teatro, cinema e literatura

Por André Bernardo
 
Renato Aragão não aparenta a idade que tem. Prestes a completar 80 anos – no dia 13 de janeiro de 2015 –, o eterno trapalhão esbanja fôlego de adolescente. Depois de gravar Didi e o Segredo dos Anjos, especial de fim de ano da TV Globo, que vai ao ar na noite do dia 21 de dezembro, Renato estrela o musical Os Saltimbancos Trapalhões, que marca sua estreia no teatro e fica em cartaz até 30 de novembro. “Quando a dupla Möeller e Botelho me chamou para fazer o espetáculo, minha primeira reação foi dizer ‘não’. Os dois já produziram mais de 35 musicais. Não queria me transformar no primeiro fracasso deles”, entrega.
 
Mas, a julgar pelas sessões lotadas, a temporada carioca de Os Saltimbancos Trapalhões está longe de ser um fiasco. Muito pelo contrário. Em janeiro, o espetáculo volta a ser encenado na Cidade das Artes, na Barra da Tijuca. E, dependendo da agenda televisiva do humorista, excursiona por outras capitais, a partir de abril. Entre uma sessão e outra no teatro, o líder do quarteto mais querido do Brasil, que sofreu um infarto e foi submetido a uma angioplastia em março, ainda escreve dois livros: um de contos e outro sobre sua vida. “Estou sempre bolando coisas novas. Quem tem projetos não envelhece”, dá a receita.
 
E, ao que parece, projeto é o que não falta a Renato. O maior deles, a propósito, é voltar logo às salas de cinema. Ao lado de Dedé, Mussum e Zacarias, ele é o maior recordista do gênero no país. Segundo dados do Filme B, o mais completo portal sobre o mercado cinematográfico no Brasil, seus 51 filmes já foram vistos por mais de 120 milhões de espectadores. Na opinião dele, a fórmula do sucesso é combinar emoção, aventura, romance e humor. “Minha maior preocupação sempre foi divertir as crianças. Nunca tive a pretensão de educá-las. Não quero ser o professor da garotada. Quero ser o melhor amigo dela”, pondera.
 
O filme Os Saltimbancos Trapalhões (1981) teve cenas rodadas nos EUA, trilha sonora de Chico Buarque de Hollanda e público pagante de 5.218.478 pessoas. Qual é a lembrança mais forte que você guarda dos bastidores desse trabalho?
 
Renato Aragão. Puxa, são várias… Levei um ano para fazer esse filme. Naquela época, eu lançava dois por ano: um em julho e outro em dezembro, sempre nas férias escolares. No caso dos Saltimbancos, cismei que tinha que rodá-lo nos estúdios da Universal, em Los Angeles. E não foi mole! No fim das contas, tive que conciliar a viagem com a agenda do Chico (Buarque, cantor), que compôs a trilha sonora… Mas, quando terminei de rodar o filme e consegui lançá-lo, foi a maior emoção. A sensação de alívio e de realização foi muito grande.
 
Cartaz do filme Os Saltimbancos Trapalhões
Os Saltimbancos Trapalhões foi um dos 11 filmes assinados por J.B. Tanko. Ao longo da carreira, vocês tiveram longas dirigidos por Daniel Filho, Carlos Manga, Roberto Farias, Tizuka Yamasaki, José Alvarenga Júnior. Na hora de filmar, os Trapalhões seguiam o roteiro direitinho? Ou tinham liberdade para improvisar?
 
Renato Aragão. Digamos que a gente tinha “carta branca” para improvisar… Todos eles davam liberdade para os Trapalhões inserirem “cacos” na história. Mas a gente procurava seguir o roteiro, sim. Se não, embananava tudo. Se a gente inventasse muito, os colegas de cena não iam saber qual era a deixa deles. Por incrível que pareça, a bagunça era organizada.
 
Durante as filmagens de O Rei e Os Trapalhões (1979), vocês se viram no meio de uma guerra, no Marrocos. Como você contornou essa situação?
Renato Aragão. Esse foi um dos maiores perrengues que já passei por causa de um filme dos Trapalhões. Quando chegamos lá, hospedei a equipe no melhor hotel de Marrakesh e descobri que não tínhamos autorização para filmar. À noite, quando ia dormir, pensava: “Não posso voltar para o Brasil sem filmar nada… O que vou fazer?”. Houve quem sugerisse até que terminássemos de rodar o filme nas dunas de Cabo Frio, no Rio de Janeiro. Mas eu não queria enganar o público… O que fizemos? Saíamos do hotel para visitar a região e, quando já estávamos bem longe, começávamos a filmar no primeiro lugar bonito que encontrávamos. Tivemos que filmá-lo às escondidas.
Até hoje, quatro dos 10 filmes mais vistos do cinema brasileiro são dos Trapalhões: O Trapalhão nas Minas do Rei Salomão (1977), Os Trapalhões na Guerra dos Planetas (1978), Os Saltimbancos Trapalhões (1981) e Os Trapalhões na Serra Pelada (1982). Se fossem lançados hoje, fariam tanto sucesso?

Renato Aragão. Se fossem lançados hoje, dariam muito mais bilheteria. Naquela época, não havia fiscalização. É provável que cada um deles tenha dado o dobro de bilheteria. As salas de exibição eram enormes. Tinham capacidade para mil espectadores. E, muitas vezes, as crianças sentavam no chão para assistir aos filmes. Além disso, era uma sessão atrás da outra. Nem trailer os exibidores passavam. Hoje em dia, daria muito mais bilheteria, com certeza.

 
"No caso dos Saltimbancos, cismei que tinha que rodá-lo nos estúdios da Universal, em Los Angeles. E não foi mole!"
Seu último filme, O Guerreiro Didi e a Ninja Lili, foi lançado em 2008. Algum dia, você pretende retomar a média de lançar um ou dois filmes por ano?
 
Renato Aragão. Sim, pretendo. Só quero ter tempo. Ultimamente, não tenho tido tempo para nada. Na TV Globo, tenho a obrigação de fazer dois telefilmes por ano. Esses telefilmes consomem tanto tempo quanto um longa-metragem. Este ano, acabei de gravar Didi e o Segredo dos Anjos e já emendei com os ensaios de Os Saltimbancos Trapalhões. Para piorar a situação, ainda inventei de fazer teatro… (risos)
 
Qual a primeira coisa que passou pela sua cabeça ao receber o convite do Charles Möeller e Claúdio Botelho para levar Os Saltimbancos Trapalhões para o teatro?
 
Renato Aragão. A primeira coisa que fiz foi dizer “não” a eles… (risos) “Sinto muito, mas não quero. Não sei fazer isso. Não é a minha praia”. Shows, já fiz muitos. Foram mais de cinco mil. O documentário O Mundo Mágico dos Trapalhões (1981), do Silvio Tendler, mostra bem isso. Mas teatro nunca fiz. A gente estava no meio de um almoço quando eles me convidaram. E, mesmo depois de ter dito “não”, continuaram insistindo. “Renato, nós vamos transpor o filme para o palco”. “Mas como é que vocês vão fazer isso? Não quero me transformar no primeiro fracasso da dupla”. Os dois já produziram mais de 35 peças de teatro. Até hoje, não sei dizer qual delas fez mais sucesso. Por que eu vou me arriscar?
 
Convite aceito, qual teria sido a maior dificuldade que você enfrentou no palco?
 
Renato Aragão. Decorar 80 e tantas páginas de roteiro de uma vez só. No cinema, veja bem, você também tem que decorar 84 páginas de script. Mas lá é diferente. Você filma, muda a câmera, descansa, dá uma espiadinha no texto, filma de novo, e assim vai. Aqui, não. Você tem que decorar as 84 páginas de uma vez só. Não dá para ficar dando uma espiadinha entre uma cena e outra. No meu caso, ainda é pior, porque tenho que decorar as minhas saídas e entradas em cena. É um tal de “Sai por aqui”, “Entra por ali” que você não imagina. Se eu não tiver uma guia lá atrás, na coxia, estou perdido.
 
Renato Aragão e elenco do musical Os Saltimbancos Trapalhões
 
Você costuma dizer que “quem tem projetos não envelhece”. Quais os seus projetos para 2015, quando completa 80 anos de vida e 50 de cinema?
 
Renato Aragão. Peraí, mas eu não tenho 80 anos! (risos) Pelo menos, não me sinto com 80 anos. Não tenho essa idade cronológica, entende? Não sei a idade cronológica que tenho, estou doido para saber, mas, se tivesse que chutar, diria que a minha idade física é algo em torno de 47… Faço ginástica, evito doce, fritura, carne vermelha, enfim, corro na frente do tempo para ele não me pegar… Outro dia, vi na televisão um cara de 80 e poucos anos que corre maratona! Mas, para isso, o camarada tem que se dedicar… Preciso do meu corpo para fazer rir. Ele é a minha principal ferramenta de trabalho. Meu humor é muito visual. Nem se quisesse, não saberia fazer “stand-up comedy”. Meus ídolos foram Chaplin e Oscarito. Foram eles que me ensinaram a fazer rir. Nunca me senti na obrigação de mudar o meu estilo para agradar ao público A, B ou C.
 
Em 2008, a Europa Filmes lançou, em DVD, 39 dos 51 filmes dos Trapalhões. É verdade que, ainda hoje, você não gosta de rever seus trabalhos antigos?
 
Renato Aragão. É verdade, sim. Até tento, mas não consigo. Paro na metade. Vejo meus companheiros que se foram, Mussum e Zacarias, e fico triste. Eles são insubstituíveis. Para ficar triste, prefiro não ver.
 
Se tivesse que escolher cinco filmes entre os 51 em que atuou, quais escolheria?
 
Renato Aragão. Eu escolheria os quatro que o público escolheu: O Trapalhão nas Minas do Rei Salomão, Os Saltimbancos Trapalhões, Os Trapalhões na Guerra dos Planetas e Os Trapalhões na Serra Pelada. E também Bonga, o Vagabundo (1971). Esse é um dos meus favoritos. Embora não tenha sido o primeiro, me dediquei a ele como se fosse. Na época, ninguém me conhecia. Talvez por isso não fez sucesso. Nesse filme, não faço o Didi, mas o Bonga. Naquela época, eu procurava diferenciar o Didi do cinema do Didi da televisão. Mas, para o público, isso não fazia a menor diferença. Ele me chamava de Didi e estava tudo certo. Se pudesse, adaptaria Bonga, o Vagabundo para os dias de hoje.
 
Em 2004, você transformou o que seria o argumento de um filme em um romance, Amizade Sem Fim. Nunca passou pela cabeça escrever uma biografia?
 
Renato Aragão. A biografia já está a caminho. Às vezes, nem sei por onde começar. É tanta história. Estou fazendo uma retrospectiva da minha vida. Ao todo, somos oito irmãos. Outro dia mesmo, descobri que, antes de nascer, minha mãe teve um filho, que não chegou a nascer. Mesmo assim, meu pai já tinha dado a ele o nome de Renato. Quando minha mãe engravidou de novo, meu pai foi teimoso. “Esse menino vai se chamar Renato!”, disse. E assim foi feito. O mais curioso é que o nome Renato significa “renascido”. Além da biografia, pretendo lançar também um livro de contos. Sempre gostei de ler contos. Dos Irmãos Grimm, principalmente. Muitos deles deram origem a filmes dos Trapalhões. Isso sem falar em outros clássicos da literatura universal, como O Fantasma de Canterville, de Oscar Wilde, que virou Simão, o Fantasma Trapalhão (1998). Os Três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas, eu transformei em Os Três Mosquiteiros Trapalhões (1980). Já Romeu e Julieta, de William Shakespeare, deu lugar a Didi, o Cupido Trapalhão(2003). Quando criança, lia muito Ali Babá, Aladim, Robin Hood.
 
"Vejo meus companheiros que se foram, Mussum e Zacarias, e fico triste. Eles são insubstituíveis"
 
O Didi tinha bordões que hoje em dia poderiam ser considerados politicamente incorretos, como “rapaz alegre”, “Creuza”e “camufla”. Se fosse ao ar hoje, o pessoal ia pegar muito no pé dos Trapalhões?
 
Renato Aragão. Naquela época, não havia intenção de atingir ninguém. O que a gente fazia era um humor infantil, quase circense. O Mussum me chamava de “paraíba”. Daí, eu “xingava” ele de “negão”. E estava tudo certo. O público entendia que aquilo tudo não passava de brincadeira. Nunca passou pela cabeça ofender a quem quer que fosse. A intenção era brincar.
 
Você ainda lembra “como” e “onde” criou o Didi Mocó Sonrisal Colesterol Novalgino Mufumbo, seu alter ego?
 
Renato Aragão. Como se fosse hoje! Foi na TV Ceará, em 1960. Estava escrevendo o meu primeiro roteiro para a TV. Lá pelas tantas, pensei: “Peralá, Renato não é nome de comediante! É nome de bancário, de advogado, sei lá de quê. Menos de comediante”. Foi aí que veio a inspiração: Didi. Mas também não me pergunte o que isso significa, que não sei explicar. Deve ser porque é fácil de escrever, sei lá. A verdade é que ficou Didi. Até hoje.
 
Um de seus ídolos de infância foi Oscarito. Chegou a conhecê-lo pessoalmente?
 

Renato Aragão. Sim. E graças ao Dedé (Santana, humorista). O Dedé tinha um tio, o Colé, que trabalhava ao lado do Oscarito e da Dercy (Gonçalves, humorista) numa peça de teatro. Um dia, ele virou para mim e perguntou se eu não queria conhecer o Oscarito. A primeira vez que vi o Oscarito no cinema eu tinha 15 anos e ainda morava em Sobral, no Ceará. Só Carnaval no Fogo, eu devo ter visto umas 18 vezes. Aviso aos Navegantes, a mesma coisa. Quando me vi diante dele, no camarim do teatro, fiquei sem reação. “Oscarito, vim aqui agradecer. Tudo o que sou eu devo a você”, gaguejei. Ele olhou para mim e disse: “Você não tem nada a agradecer. Já encontrou o seu caminho”. Conhecê-lo pessoalmente foi a realização de um sonho. Que emoção maravilhosa! (pausa) Olha aí, rapaz, mais uma história boa para eu colocar no meu livro… (risos)

 
Renato Aragão em cena de Didi e o Segredo dos Anjos e junto aos Trapalhões
 
 
 
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