Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Música 23.05.2011 23.05.2011

Regida pela alegria

Zélia Duncan sempre cantou Rita Lee. Já em seu primeiro álbum – Outra Luz, lançado em 1990, quando a cantora ainda adotava o nome artístico de Zélia Cristina – havia Pirataria (Rita Lee e Lee Marcucci), rock de Fruto Proibido, álbum de 1975 que Zélia ouviu aos 12 anos – como contou no show em que abordou a obra de Rita Lee com a Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto, sob a regência de León Halegua, maestro uruguaio radicado no Brasil. Sim, Zélia Duncan cantou Rita Lee com sinfônica sem perder a ternura, a atitude roqueira e, sobretudo, a alegria. “”A obra de Rita significa alegria””, disse Zélia logo após entrar em cena e cantar Coisas da Vida (Rita Lee, 1976) para o público heterogêneo que lotava os 450 lugares do Teatro Arthur Rubinstein, em São Paulo (SP), na noite de 21 de maio de 2011. E foi assim, regida pela alegria, que Zélia cantou as músicas mais conhecidas de Rita Lee com (e sem) sinfônica num show feliz programado dentro da série In Concert. A abordagem foi reverente. “”Rita já criou tudo. Não tenho que criar nada””, sentenciou Zélia ao falar de sua admiração pela obra da roqueira de quem virou parceira em 2000 quando musicou a letra de Pagu (Zélia Duncan e Rita Lee), tema incluído no roteiro. Ainda assim, houve arroubos criativos como o arranjo da Balada do Louco (Rita Lee e Arnaldo Baptista, 1972), introduzida por citação da 5ª Sinfonia de Beethoven, em gracejo entendido por quem sabe que Beethoven (1770 – 1827) foi considerado louco . Em algumas passagens, o arranjo orquestral pirava, rementendo à anarquia criativa dos Mutantes. Por sua vez, Zélia esboçava tom etéreo ao entoar os versos da balada, como se já estivesse em outra dimensão. Número especialmente sedutor, Doce Vampiro (Rita Lee, 1979) também ganhou arranjo dentro do clima de terror sensual da canção. Dois especiais acertos! Mas até o erro – como a entrada antecipada de Zélia em Ovelha Negra (Rita Lee, 1975) – pareceu um acerto por se tratar de música que traz na letra versos como “”Quando alguém está perdido, procurando se encontrar””, realçados com sagacidade por Zélia. No geral, cantora e orquestra estiveram no tom, em sintonia com o espírito lúdico do repertório de Rita. Se Baila Comigo (Rita Lee, 1980) teve seu suingue zen evocado de leve pelas cordas da sinfônica (com direito ao gracioso verso “”Um dia eu morro bemZélia“”), Amor e Sexo (Rita Lee, Roberto de Carvalho e Arnaldo Jabor, 2003) teve o sentido de cada verso realçado pela cantora. Contudo, Rita Lee também é sinônimo de rock. E, por isso, o maestro deixou o palco por alguns momentos para que, sob a regência de sua banda, Zélia cantasse rocks como Fruto Proibido (Rita Lee, 1975), Dançar para Não Dançar (Rita Lee, 1975), Esse Tal de Roque Enrow (Rita Lee e Paulo Coelho, 1975) e Jardins da Babilônia (Rita Lee e Lee Marcucci, 1978). Com o maestro já de volta à cena, as cordas da sinfônica embalaram com harmonia Ambição (Rita Lee, 1977). Mas essas mesmas cordas não alteraram a pulsação habitual de Lá Vou Eu (Rita Lee, 1976), número especialmente linkado à cidade de São Paulo que teve direito a um solo roqueiro da guitarra de Webster Santos. Já Mutante (Rita Lee e Roberto de Carvalho, 1981) ganhou tom terno e sentido adicional por Zélia também já ter sido do grupo Os Mutantes. No fim, Saúde (Rita Lee e Roberto de Carvalho, 1981), Lança Perfume (Rita Lee e Roberto de Carvalho, 1980) e Nem Luxo Nem Lixo (Rita Lee e Roberto de Carvalho, 1980) reiteraram a alegria de um show regido pelo espírito carnavalizante da música de Rita Lee Jones, captado por Zélia Duncan e pelo maestro Halegua.

Do blog Notas Musicais

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