Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 12.11.2010 12.11.2010

Reflexões de um liquidificador

Por Felipe Pontes
Foto de divulgação

Pensar é moer. Todos que jáescreveram um texto podem compreender essa frase. Mas não, nesse caso não setrata de uma metáfora. Em Reflexões de um liquidificador, o nome já desvela, osentido é literal. Moer é pensar. Pelo menos para Selton Mello, dono da voz queatua um liquidificador que a certo momento inexplicado de sua linear existênciade máquina a motor, talvez entre um concerto e outro de uma hélice, passa apossuir um parafuso a mais, quer dizer, adquire aquilo que os homens chamam de consciência.

O velho liquidificador do filmepertence a Onofre e Elvira. Casados, os dois tocam uma pequena lanchonete e, pormotivos que não vem ao caso, são obrigados a fechar o estabelecimento. Comomeio de sobreviver, ele arranja um emprego como segurança, enquanto ela semantém em casa empalhando animais, oficio que aprendeu quando criança e servepara complementar a renda. Belo dia, Elvira se surpreende ao ouvir a voz do liquidificador,um aparelho tinhoso, que só funciona quando quer, a chamá-la. Passa então a ficaramiga do aparelho. Pouco tempo depois, Onofre some inesperadamente e a mulherpassa a ser a principal suspeita, investigada pelo detetive Fuinha.

Misto de fábula perversa ecrônica da classe média, o filme traz à tona uma insanidade latente nocotidiano monótono de pessoas resignadas, semelhante a outras histórias no cinemabrasileiro recente, como Durval Discos (2002) e Estômago (2007). Por isso, o roteiro de JoséAntônio de Sousa caiu como uma luva nas mãos do diretor André Klotzel,especialista na sutileza do humor negro, ironicamente implícito, marcante emtoda sua obra, desde Marvada Carne (1985), premiado primeiro longa, grandevencedor no Festival de Gramado, até Memórias Póstumas (2001), audaciosa adaptaçãodo romance de Machado de Assis.

Como nos outros filmes citados, naprocura do efeito adequado, a locação desempenha um papel fundamental também em Reflexões de um liquidificador, filmado numa típica casa de subúrbio emVila Anglo, na capital paulista. “O filme tem cor e cheiro local, mas tambémnão é uma comédia de costumes. Os personagens são delineados de forma bemcaracterística, não são triviais”, ressalva Klotzel, ao nos recordar como aatuação é também o ponto forte do filme, “por mais que a gente use câmera,movimento, música, iluminação, é o ator que faz a cena […] talvez metade oumais da metade do trabalho de direção de atores esteja na escolha do ator”.

Além de Germano Haiut como Onofre e FabiulaNascimento como a fogosa vizinha Milena, se destaca Aramis Trindade como odetetive Fuinha. “Ele teve a mesma sensação que eu tive de que o papel foifeito para ele”, diz Klotzel. Mas a estrela do filme é mesmo Ana Lúcia Torres. Maisconhecida pelos papéis em novelas e por ser um dos nomes mais importantes noteatro brasileiro, em Reflexões de um liquidificador ela atuacomo protagonista no cinema pela primeira vez e já começou tendo que interagir com um objetoinanimado. O diretor lia o texto em branco, “como uma bula de remédio”, e aatriz imaginava o tom da fala. A voz de Selton Mello entrou apenas depois,na fase de pós-produção.

Reflexões de um liquidificador estréia nessa sexta-feira, 12 de novembro, no Rio de Janeiro. Os leitores deSão Paulo talvez estranhem a data, já que o filme entrou em cartaz nacapital paulista desde agosto, onde teve pré-estréia em plena segunda-feira. Mastudo faz parte da estratégia inovadora de lançamento do longa, uma tentativa dedriblar as dificuldades de distribuição no Brasil. Em vez de um lançamento supostamente nacional, os produtores e diretor optaram por uma tática remetente à de uma peça de teatro itinerante, com a intenção de valorizar a obra emantê-la mais tempo em cartaz.

“Um decisão que a gente tomou foideliberadamente não colocar o filme em nenhum festival, para que a imprensa todanão o visse. Então em cada cidade que a gente vai, temos a preocupação de realizaruma estréia e o cuidado de lançar o filme como uma novidade. O que de fato é,naquele lugar, porque ele não foi noticiado ou visto. Assim o filme não envelhece emalguns meses”, diz Klotzel na entrevista exclusiva dada ao SaraivaConteúdo, junto com Selton Mello, que assistiu ao filme pela primeira vez na pré-estréia carioca.

> Assista à entrevista com André Klotzel e Selton Melo para o SaraivaConteúdo

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