Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 13.04.2011 13.04.2011

Redes Sociais ganham espaço nos documentários

Por Marina Fidalgo
Foto: Filme A Onda Verde

Na sociedade contemporânea, as redes sociais fazem parte das relações da maioria das pessoas. Mas ainda são pouco usadas como ferramentas de criação nos documentários. Porém, elas têm tudo para expandir o seu domínio a partir de duas experiências bem sucedidas vistas na 16º edição do É Tudo Verdade, que encerrou no último final de semana.

O documentário A Onda Verde reproduz a maior manifestação ocorrida no Twitter em 2009. Censurados pelo governo iraniano, a população do país viu na internet, em especial nas redes sociais, uma maneira de expor o que acontecia durante as eleições daquele ano. As suspeitas de fraude no processo que reelegeu Ahmadinejad levaram o povo às ruas empunhando bandeiras verdes, que representavam o candidato oposicionista Mir-Houssei Mousavi.

A criadora do blog Querido Leitor, Rosana Hermann, acompanhou a tudo de perto pela internet. “Aderi à causa, usei moldura verde, segui pessoas que estavam nas manifestações, foi tudo muito intenso. Pela primeira vez vivemos a realidade da notícia em tempo real, sofrendo junto com o povo que lutava por transparência e democracia. Acompanhei jovens no telhado, com seus laptops, avisando ao mundo sobre a situação que estavam vivendo. Uma das coisas mais chocantes foi ver, praticamente em tempo real, o cruel assassinato da jovem Neda Soltani”, afirma Rosana.

A força desses depoimentos e vídeos de protesto, publicados em blogs, Twitter, YouTube e Facebook, não passou desapercebida pelo diretor iraniano Ali Samadi Ahadi, que vive radicado na Alemanha.

Para realizar A Onda Verde, ele fez uma extensa pesquisa para coletar o material mais relevante e a partir disso procurou recriar o que ocorreu durante as manifestações. O que não conseguiu documentar, pois o governo reprimiu violentamente os protestos e bloqueou a Internet, o cineasta ilustrou com animações.

Ações similares de protesto foram acompanhadas recentemente na Tunísia e no Egito. Para Jairo Ferreira, autor do livro “”Mídia e Movimentos Sociais””, os processos de manifestação virtual constituem uma marca identificada em ações sociais atuais, como o Movimento de Resistência Global. 

Ferreira dá como exemplo de como o usuário da internet fomenta a mídia, a rede de TV Al Jazeera, que utiliza em seu jornalismo vídeos enviados pelos telespectadores, tendo como tema os conflitos recente no mundo árabe. “Por dia, são enviados cerca de 400 vídeos feitos por cidadãos comuns com câmeras de celulares ou câmeras digitais básicas. Todas as ofertas, entretanto, passam por uma seleção que considera critérios técnicos de imagem e de valor – notícia. Depois de uma primeira seleção, são sugeridos para o site da Al Jazeera English, além da Al Jazeera em árabe e o Al Jazeera Mubasher, canal ao vivo da rede, em árabe, que transmite eventos ao vivo, sem edição””.

A presença da tecnologia na vida das pessoas também ganha um registro, bem mais leve, em A Vida em Um Dia. A proposta era: filmar um dia de sua vida. 80 mil pessoas aceitaram e fizeram registros curiosos de como foi o seu dia 24 de julho de 2010. Elas publicaram o resultado em um canal especial no You Tube, o Life in a Day. Alguns deles são especialmente tocantes, como o de Ron, que grava seu depoimento do hospital onde passou por uma complexa cirurgia no cérebro. Já a Menina Destemida, mostra que o seu dia de brincadeira não tem nada de comum.

O diretor Kevin Macdonald (vencedor do Oscar e do Bafta de documentário em 1999 pelo filme Um dia em Setembro) organizou esse material e iniciou a seleção/edição. O critério de escolha, segundo o diretor Ridley Scott, que nesse projeto atuou como produtor executivo, é que os vídeos deveriam ser pessoais. E o curioso seria observar o que as pessoas julgam ser interessante sobre suas vidas.

Rosana, que chegou a enviar um vídeo para o projeto, mas não foi selecionado, aprovou a iniciativa. “Foi uma experiência muito bonita que revelou o que temos de igual e de diferente entre diversas culturas. Estamos numa fase muito rica da colaboração. A tendência é essa, crowdsourcing cultural”, afirma.

Com tantas fontes de informação, o futuro desafio dos documentaristas será o que escolher o que retratar. Se depender dos usuários da internet, não vão faltar opções.

Recomendamos para você