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Raul Seixas de volta à cena

Por Cintia Lopes
Artista irreverente, emblemático, libertário, desobediente e com dose de humanismo fora do comum. Assim Walter Carvalho, diretor do filme Raul – O Início, o Fim e o Meio, define o “maluco beleza” Raul Seixas, ídolo de uma geração e referência para tantas outras.
 
O longa, que tem estreia prevista para o dia 23 de março nos cinemas, mostra de forma cronológica a vida pessoal do roqueiro enquanto a trajetória profissional é abordada mesclando períodos importantes da vida do músico.
Não faltam registros do início da carreira em 68, como o lançamento do álbum de estreia Raulzito e os Panteras, passando pelo reconhecimento nacional com a participação no VII Festival Internacional da Canção de 1972, e a consagração de crítica e público com as composições que até hoje embalam festas e rodinhas de violão.
 
“Ele teve uma carreira meteórica. Produziu mais de 100 hits em apenas 17 anos. A velocidade com que ascendeu e ‘desceu a ladeira’ num espaço tão curto de tempo… uma vida breve assim como Cazuza”, compara Walter.
Com mais de 60 prêmios acumulados na carreira, Walter é um dos mais experientes e requisitados diretores de fotografia do cinema nacional.
 
Foi responsável por produções como Central do Brasil, dirigido por Walter Salles, Lavoura Arcaica, Carandiru, entre outras.
 
Estreou como diretor em 2001 com Janela da Alma, ao lado de João Jardim, e em 2004 assinou com Sandra Werneck o longa Cazuza – O Tempo Não Para.
 
Dirigiu também Budapeste, baseado no livro de Chico Buarque. Já a direção de fotografia de Raul – O Início, o Fim e o Meio está a cargo desta vez de seu filho, Lula Carvalho.
 
Walter conta que a influência de Raul Seixas sempre esteve presente dentro de casa. “O interessante é que a música dele ultrapassa gerações. Hoje ele é ouvido tanto por jovens quanto pela turma mais velha. Nos shows de rock brasileiro sempre tem um ‘toca Rauuul’”, comenta.
Apesar de contemporâneo do baiano Raul, o paraibano Walter não chegou a conhecê-lo pessoalmente. 
 
“Só o vi no palco quando fui a um show dele”, conta. Um ponto comum entre os dois é a admiração por Elvis Presley. 
Walter Carvalho, diretor do filme Raul – O Início, o Fim e o Meio
 
Raul, inclusive, tinha verdadeiro fascínio pelo Rei do Rock e assistiu ao filme A Balada Sangrenta, estrelado por Elvis na década de 70, por mais de vinte vezes. “O sonho do Raul era um dia chegar a Hollywood. Ele tinha a ideia fixa de fazer um filme lá”, conta.
 
Paulo Coelho: cofundador da Sociedade Alternativa e parceiro de Raul em mais de 50 cançoes
Mais difícil do que conciliar a agenda de filmagens com os depoimentos de Paulo Coelho, Caetano Veloso, Pedro Bial, entre outros, foi editar quase 400 horas de material.
 
Trabalho que consumiu exatos um ano e seis meses para Walter. “Foi solitário e prazeroso ao mesmo tempo. Passava oito horas por dia na frente de uma tela”, recorda o diretor de 64 anos.
 
Entre as preciosidades à disposição, por exemplo, um áudio de Raul Seixas aos 9 anos de idade fazendo “cover” do ídolo Elvis Presley. “O Raul foi fundador do Elvis Rock Clube na Bahia, um dos primeiros fã-clubes do Brasil”, recorda.
 
É através de depoimentos que o público também tem a oportunidade de saber curiosidades sobre a vida de Raul e relembrar histórias envolvendo o músico.
 
Além da participação dos familiares, havia um depoimento considerado essencial para o filme: o do escritor Paulo Coelho. Parceiro de Raul em mais de 50 canções, incluindo os sucessos “Eu Nasci Há Dez Mil Anos Atrás”, “Gita”, “Al Capone”, “Como Vovó Já Dizia”, “Sociedade Alternativa”, “Medo da Chuva”, “Óculos Escuro” e “Tente Outra Vez”, os dois também fundaram a Sociedade Alternativa, baseada nas ideias do bruxo inglês Aleister Crowley.
 
Após intensa negociação, o “mago” finalmente topou participar. Antes disso, Walter ainda recorreu à ajuda de Roberto Menescal, grande amigo do escritor.
 
O aval definitivo aconteceu depois que Paulo assistiu pela tv a uma entrevista de Sylvio Passos, presidente do fã-clube Raul Rock Club, falando com entusiasmo sobre o projeto do filme.
Walter e equipe partiram então para Genebra, na Suíça, especialmente para conversar com o “mago”. “Confesso que por um momento realmente achei que não ia rolar e já estava quase me conformando com a situação. Mas não desisti”, lembra Walter, com bom humor.
 
A espera valeu a pena. “Por uma dessas incríveis coincidências (ou não) justamente no momento em que o Paulo falava sobre o Raul uma mosca pousou no braço dele. O próprio Paulo conta que nunca tinha visto mosca na Suíça!”, recorda.
 
Situação semelhante ocorreu no Rio de Janeiro. Desta vez, durante a filmagem com a produtora cultural Maria Juçá. Para os místicos, um sinal positivo de que o autor do hit “Mosca na Sopa” estava de certa forma presente durante os trabalhos.
Histórias envolvendo Raul não faltam. E polêmicas também. A abordagem de temas como o uso de drogas, o alcoolismo, misticismo e as relações conturbadas com empresários e ex-mulheres não ficaram de fora do filme.
 
Assim como a passagem de Raul pelo show em Caieiras, no interior de São Paulo, em 82. “Ele subiu embriagado no palco e o público começou a agredi-lo. Foi uma situação bem desagradável. Todos o acusavam de impostor”, lembra.
Mesmo com a proposta de não deixar de fora do filme a má fase do músico, Walter garante que não teve problemas com os herdeiros para realização do longa.
 
“O acervo valioso das ex-companheiras contou muito para o filme. São fotografias, cartas e objetos raros. Tive total acesso a isso”, explica.
 
Outra contribuição valiosa foi a participação do músico Marcelo Nova, do extinto Camisa de Vênus, responsável pela última turnê de shows de Raul Seixas. “Antes disso, ele ficou fora dos palcos por quatro anos”, conta. Mesmo depois de 22 anos após a morte de Raul, suas músicas continuam em alta. Sucessos inesquecíveis como “Gita” e “Metarmofose Ambulante”, por exemplo, ainda hoje são revisitadas por músicos de diferentes estilos. Walter também aponta suas preferidas. “‘Tente Outra Vez’, e ‘O Dia em que a Terra Parou’ são imbatíveis”, enumera.
 
Para ele, a atualidade não está apenas na obra de Raul.
 
O estilo de vida “maluco beleza”, título da canção feita em parceria com Cláudio Roberto, ainda está presente principalmente entre os jovens.
 
“Nada tem a ver com uso de drogas ou alcoolismo, e sim com atitude”, explica.
 
Tanto que o diretor acredita que se Raul estivesse vivo estaria completamente adaptado ao uso das redes sociais. “Ele seria anárquico, irônico e nem um pouco racional”, aposta, entre risos.
 
 
Raul Seixas e Claudio Roberto, parceiro na música "Maluco Beleza"
 
 
 
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