Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 27.11.2014 27.11.2014

Rafael Mendes estreia no romance com a publicação de ‘Fôlego’

Por Zaqueu Fogaça
Uma fotografia desbotada, guardada entre remédios e rascunhos na gaveta do criado-mudo, flagra um dos raros momentos em que a família estava reunida. Somente outro retrato, desaparecido, fora capaz de registrar um instante semelhante.
Ao tentar encontrá-lo, Mateus escuta de sua avó: “Esqueça: remoer o passado é forçar o sabor de lembranças amargas”. As feridas desse passado permaneceram abertas em Mateus, protagonista e narrador de Fôlego (Confraria do Vento), livro que acaba de chegar às livrarias e que representa a primeira incursão do escritor Rafael Mendes pelo gênero romance, após estrear na literatura em 2012 com a coletânea de contos A Melhor Maneira de Comprar Sapato.
Se a narrativa memorialística prevalece na maioria dos relatos que compõem o primeiro título do autor, em Fôlego não é diferente. É a partir de suas recordações fragmentadas que Mateus se lança na empreitada de escrever um livro sobre a história de sua família, tomando como ponto central a trajetória do pai, Jaime.
Lembranças nostálgicas da infância, como subir ao pé da goiabeira no quintal e viajar na traseira da Variant do pai, costuram-se a momentos dolorosos, como infidelidade, recorrentes conflitos dentro de casa, ausências e silêncios, até o espectro da morte que paira sobre a família.
O pai, Jaime, é um homem sem ambições, cujo único ofício que aprendera em toda a vida fora o de encanador; a mãe, Cecília, é devota da Igreja Divina Providência e só tem ouvidos para as palavras pregadas pelos missionários; enquanto a irmã, Manuela, é uma jovem que só pensa em se divertir com os amigos.

Resta a Mateus o interesse pelos estudos e o desejo de mudar sua história, fazendo valer as palavras do pai: “Estude, menino, para não ter esta vida”, aconselhou-o, antes de desferir um golpe de marreta na parede.

Na entrevista a seguir, o autor explica seu interesse pelo aspecto social da literatura, fala sobre a predileção pela narrativa memorialística, os temas que norteiam sua nova obra e adianta sobre o novo romance que está terminando.
Em que circunstâncias a escrita ficcional passou a ter importância para você e em quais autores buscou referências?
Rafael Mendes. Comecei a me dedicar com mais seriedade à literatura há dez anos. Quando decidi levar a escrita mais a sério, primeiro eu fui conhecer os autores brasileiros; queria entender como os autores nacionais escrevem. Li muito Machado de Assis, Guimarães, Graciliano. Dos estrangeiros, leio bastante Tolstoi e Faulkner. Também leio muito escritores contemporâneos, como João Anzanello Carrascoza, Michel Laub, Daniel Galera, Milton Hatoum.
Você frequentou algumas oficinas literárias. Em quais aspectos elas o ajudaram na hora de escrever ficção?
Rafael Mendes. A oficina só encurta o caminho. Ela te dá acesso a livros com os quais, talvez, você fosse se deparar somente lá na frente, ou técnicas de escrita que você aprenderia mais adiante. Numa oficina, você tem acesso a alguns escritores e o modo como escrevem de uma maneira mais assertiva, compreendendo aspectos de sua escrita que, talvez, sozinho você não encontrasse. O que mais aprendi com essas oficinas foi apurar minha leitura crítica. Mas eu não me considero um autor de oficina, pois algumas delas tentam te colocar um cabresto e dizer o que é certo.
Em sua estreia na literatura, em 2012, com a coletânea de contos A Melhor Maneira de Comprar Sapato, as lembranças predominam em quase todos os relatos. Qual a importância da memória nesse seu primeiro livro?
Rafael Mendes. Acho que a literatura trata sempre da memória. Até mesmo quando fantasia demais, ainda assim você está falando do passado, de algo que já aconteceu. Nos momentos em que a literatura está falando do futuro, ela também está falando do passado do autor. A literatura trata sobretudo das relações humanas. Não vejo como fugir da memória, eu não consigo.
Após estrear com um livro de contos, agora você lança o seu primeiro romance, Fôlego. O que mudou em relação à sua escrita do primeiro para o segundo título?
Rafael Mendes. Os contos saíram meio que no susto, foi um exercício literário. Nunca minha pretensão foi publicar os contos antes. Agora, acho que eu sei o que quero dizer. Fôlego fala sobre a imprevisibilidade da morte, a impotência que temos diante dela, a capacidade que ela tem de mudar as nossas vidas sem que possamos prever isso. Nesse aspecto, eu prefiro o romance, porque ele cria uma empatia com o leitor, pois este precisa de tempo para se acostumar com a narrativa.
A família protagonista de Fôlego é humilde, formada por pessoas do cotidiano, sem heroísmos. A que se deve essa escolha?
Rafael Mendes. Essa é a família que vemos por aí. O escritor é um fotógrafo de seu tempo. Incomoda-me um pouco essa literatura marginal que retrata somente policial e bandido. A vida é feita de pessoas comuns, de encanadores, de donas de casa, de missionários, de pedreiros. A literatura é só um simulacro da vida, só reproduz o que diz a vida. Se eu quero fazer uma literatura que representa meu tempo e, de certo modo, realista, nada mais justo eu falar sobre essas pessoas, que não têm voz, mas têm sentimentos.
Rafael Mendes estreia no romance com a publicação de Fôlego
Muitos espaços presentes em Fôlego estão próximos a você. Até que ponto a autobiografia se faz presente no livro e como foi trabalhar na ficção esses aspectos?
Rafael Mendes. O romance tem um pouco das famílias que conheço, das histórias que ouvi falar, ou seja, são pessoas comuns e que me interessam. O Mateus nasceu e mora na divisa com Taboão da Serra, assim como eu também morei. Tem uma frase que gosto muito, do Raymond Carver, que é assim: “Escreva sobre o que você sabe, e o que você sabe melhor do que seus próprios segredos”.
Em muitos momentos você fala sobre o aspecto social da literatura. O que lhe interessa no tema?
Rafael Mendes. Essa questão dá para dividir em duas linhas. A primeira, retratar meu tempo; a literatura é um relato sobre a passagem do tempo, isso é o papel do escritor. Muitos escritores fizeram isso. Aconteceu a Revolução Francesa, por exemplo, e depois Victor Hugo escreveu Os Miseráveis. Preocupo-me com esse aspecto. Não adianta eu protestar nas redes sociais sendo que minha literatura não o faz. Considero o tema social muito importante para a literatura, e, claro, amparado por uma boa linguagem, um estilo apurado. E a segunda linha é abordar temas que são caros à literatura, desde sempre, que são os temas universais, como a morte, sua maneira de viver, a viagem, os sentimentos. Eu procuro dividir essas duas linhas, a natureza humana e o tempo atual.
Tanto no primeiro quanto neste segundo livro há poucos ou quase nenhum diálogo. Isso foi uma escolha?
Rafael Mendes. Eu tenho muita dificuldade em escrever diálogos, é muito difícil. O diálogo tende a soar falso quando você coloca palavras na boca de outro personagem. É uma questão um pouco mais técnica. Eu evito diálogo, de fato. Se o Mateus escrevesse a história dele com muitos diálogos, talvez essa voz se perdesse. E, no momento em que fosse imprescindível ouvir as vozes dos demais membros da família, ela soasse fraca.
Já tem outro livro em vista?
Rafael Mendes. Estou finalizando um romance que comecei há dez anos, que se chama Nuvens Carregadas Se Aproximam, que provavelmente sairá no ano que vem. Esse romance tem uma temática ainda mais social e abrange um pouco mais a história da periferia de São Paulo, sem cair na violência. É sobre o dia a dia de pessoas comuns, que precisam pegar ônibus, trabalhar e enfrentar essa condição social precária numa cidade onde o custo de vida é muito elevado.
Em narrativa memorialística, segundo livro do autor aborda incomunicabilidade familiar e traça um retrato realista de famílias que residem na periferia
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