Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo HQ 22.12.2009 22.12.2009

Rafael Coutinho

Por Bruno Dorigatti
Foto de Stefan Hess

> Assista à entrevista exclusiva de Rafael Coutinho ao SaraivaConteúdo

Ser filho do genial Laerte, talvez o maior nome das histórias em quadrinhos vivo e atuante no país, poderia ser um peso enorme para qualquer um. Mas não para Rafael Coutinho. Seu trabalho, que aos poucos, vai aparecendo e se tornando mais conhecido, demonstra uma qualidade inegável, tanto nos traços, cenários e personagens como nos enredos e roteiros. Além da participação no coletivo Sociedade Radioativa, Coutinho chamou a atenção em 2007 com a adaptação de Branca de Neve na coletânea Irmãos Grimm em quadrinhos, lançada pela Desiderata. E lança no primeiro semestre de 2010 a graphic novel Cachalote, em parceria com o escritor Daniel Galera. 

“Eu tive uma formação de arte e quadrinhos, desde criança. Tinha muita proximidade com a biblioteca e com a sabedoria do meu pai. Sempre me interessei, fui íntimo dos pincéis, do nanquim, do lápis. Estabeleci desde cedo uma relação com a arte, que era muito íntima e social também. A gente se mudava muito quando eu era criança, e desenhar era um jeito de fazer amigos”, conta ele em entrevista exclusiva ao SaraivaConteúdo

Ao entrar na faculdade de artes plásticas, começou a testar outras coisas. “Não achava que fosse fazer quadrinhos, tinha uma idéia muito estranha do que era ser quadrinista. Inocentemente, achava que seria fácil, para mim, se eu quisesse fazer. E fui percebendo que não era nem um pouco isso”, recorda. 

E por que achava que seria fácil? “Porque tinha essa intimidade com a coisa desde criança. Mas era uma intimidade distanciada, como imagino que um filho de escritor tenha com o texto. A idéia de que, se você quiser, está ali, você tem uma facilidade. Mas daí para escrever um romance, deve ser uma suadeira.” Assim como é para fazer história em quadrinhos. Coutinho tentou um monte de outras coisas antes de ser quadrinista. 

O pai trabalhava com os movimentos sindicais, a mãe era do Partidão, o Partido Comunista do Brasil (PC do B). Segundo ele, talvez essa formação política de esquerda desde o berço o tenha levado a trabalhar aos 16 anos, em busca de uma independência, como barman, em locadora de vídeo, vendendo CD. “Não precisava, mas queria trabalhar”, resume. 

A aproximação com o universo das HQs veio com o trabalho de animador em uma editora, a Bookmakers, animando charges. Por conta desse trabalho, conheceu Allan Sieber, quadrinista e um dos criadores do estúdio de animação e documentário Toscographics, a cena de quadrinhos independentes paulista, uma turma um pouco mais nova, e o povo da Sociedade Radioativa, coletivo de quadrinistas, que funcionou como uma espécie de laboratório, onde Coutinho começou a fazer histórias mais longas e surgiu a série “Bingo!”, também nome de seu blog


“Fazer quadrinhos é um negócio de trabalho mesmo. Você pode fazer uma coisa meio amadoresca e fazer parte do mercado de quadrinhos no Brasil, não tem problema, isso acontece. E não é por falta de qualidade, temos muita gente boa por aí. Mas existe uma esfera dos quadrinhos amador no Brasil que é meio assim. Muitos não conseguem parar para fazer só isso, fazem cinco mil coisas ao mesmo tempo, então os quadrinhos você faz da meia-noite às cinco. Fica meio aquém”, afirma, e continua: 

“Percebi que existia um tipo de trabalho que, se eu colocasse mais horas em cima das páginas, das histórias, trabalhasse o roteiro com minúcia, elas chegavam num lugar muito mais interessante, para mim e para as outras pessoas. Comecei a trabalhar com mais cuidado ali no Sociedade Radiativa”, relembra.

Uma das histórias que chamou a atenção para o trabalho de Coutinho foi publicada na coletânea que adaptou as histórias dos Irmãos Grimm. Lançada pela Desiderata em 2007, e editada por Lobo, Irmãos Grimm em quadrinhos trouxe trabalhos de gente como Fabio Lyra, Odir e Vinicius Mitchell, entre outros. Ao lado de Fido Nesti e Rafael Sica, o trabalho de Coutinho, se destaca ao optar por uma adaptação nada batida da conhecida história de Branca de Neve.


“Lobo queria um livro que fosse fiel ao texto dos Irmãos Grimm, que os artistas não modernizassem tanto, se mantivessem no período em que as histórias se passam, com vestimentas, cenários. E dentro daquelas limitações, tentei sair um pouco do que eu imaginava que os demais fossem fazer. Ousar ali de alguma forma. Fiz quatro versões, ele me ajudou a achar o caminho”, diz Coutinho. Um tanto minimalista, a história surpreende pela concisão e profundidade que alcança. 

Como conseqüência dessa história que chamou a atenção, rolou o convite para fazer uma história em parceria com o escritor Daniel Galera. Com seis idéias, resolveram fazer as seis histórias, ao invés de uma só. Ambos idealizaram, “e o Galera desceu a mão de escritor na parte do roteiro e aí começamos a desenhar”. A graphic novel, que teve um trecho publicado na revista Piauí de junho de 2009, sai no primeiro semestre, pela Companhia das Letras, em um só volume. A editora de Luiz Schwarz vem apostando mais nos quadrinhos e inaugurou em 2009 um selo exclusivo para o gênero, o Quadrinhos na Cia., que vem publicando álbuns importantes, como Retalhos, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shawn, Jimmy Corrigan, de Chris Ware, além dos mestres Will Eisner e Art Spiegelman.

Coutinho inclusive fez os logos, que adaptam os já conhecidos logotipos da editora para o universo dos heróis das HQs. “Foi uma puta honra”, finaliza. Sua história com Daniel Galera deve inaugurar uma série de parceria entre quadrinistas e novos autores. Pelo trecho já conhecido, vem coisa boa por aí.
 

> Confira o blog de Rafael Coutinho, Bingo!

> Irmãos Grimm em quadrinhos na Saraiva.com.br

> Assista à entrevista exclusiva de Rafael Coutinho ao SaraivaConteúdo

 

> Leia um trecho de Cachalote, feita em parceria com Daniel Galera, e que será editada em 2010 pela Companhia das Letras

 
 

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