Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 18.12.2014 18.12.2014

Radar Saraiva: o universo encantado dos desenhos de Rafael Antón

Por Zaqueu Fogaça
“Penso a história em imagens, como um filme mudo”, explica o ilustrador Rafael Antón. Nascido na cidade de Galícia, na Espanha, e radicado em São Paulo há dez anos, o artista estreou na ilustração de obras infantis em 2011, quando criou uma série de desenhos para a coletânea Meu Filho Pato (Companhia das Letrinhas). De lá para cá, mais de 14 títulos do gênero trazem seus traços, entre eles A Vida de Joana D’Arc (Companhia das Letras), de Érico Verissimo, e O Menino e o Fantasma do Menino (Gaivota), livro de Jorge Miguel Marinho.
Após ilustrar muitas obras de outros autores, Antón resolveu publicar o primeiro livro infantil de sua autoria, A Incrível História do Homem Que Não Sonhava (SESI Editora), que narra a história de Manfredo, um homem que decide sair de casa com uma escada no ombro em busca do primeiro sonho de sua vida. Mani, como é conhecido, nunca se lembrara de nenhum sonho que tivera, nem mesmo pesadelos. “Essa coisa de não sonhar seria uma loucura?”, pergunta-se.
“A ideia de escrever esse livro nasceu de uma HQ que desenhei para uma revista universitária na Alemanha, inspirada, em principio, em um filme de Luis Buñuel, chamado Simão do Deserto. Sempre achei muito louco e senti curiosidade pelo mundo interior dessas pessoas eremitas que um dia decidem se afastar do mundo para encontrar um sentido na vida na solidão dentro delas mesmas”, conta Antón.
Neste bate-papo com o SaraivaConteúdo, o escritor e ilustrador comenta sua primeira incursão como escritor de literatura infantil, fala sobre o fascínio que tem pela criação de personagens e destaca os desafios para transformar texto em imagem de modo que se complementem.
Em que momento surgiu o seu interesse pela ilustração de obras infantis e quais foram as principais referências para você?
Rafael Antón. Foi depois de nascer o meu primeiro filho, em Munique. Próximo à nossa casa tinha um grande centro cultural (Gasteig) com um parquinho que costumávamos frequentar, sobretudo nos dias frios. O Gasteig tinha uma grande biblioteca com um bom espaço dedicado à literatura infantil, onde pais e filhos ficavam à vontade. Foi ali que comecei a conhecer os grandes autores infantis, principalmente os alemães. Entre os que mais me influenciaram, cito Wolf Ehrlbruch, Jutta Bauer e Ali Mittgush (de descendência turca). Outros autores que me influenciaram muito pelo traço diferente e original foram os geniais Bernd Pfarr e Martin Tom Dieck.
A primeira obra que você ilustrou foi um livro que reúne algumas histórias sobre a morte. Quais foram os desafios de ilustrar um tema assim, delicado, para as crianças?
Rafael Antón. Acho que os principais desafios foram para os autores, que gostaria de citar aqui e a quem devo a minha admiração, Indigo, Angela Lago, César Obeid, Flávia Lins e Silva, Lalau e Roger Mello. Realmente foi um belo desafio sim, primeiro porque foi o meu primeiro trabalho como ilustrador infantil para uma grande editora, cujo acervo estava composto pelos melhores autores e ilustradores do mundo. Tentei me concentrar em cada história (o livro se compõe de vários relatos) e me abstrair das outras. Tentei ser divertido, usar esse lado cartum ou caricato, mas sempre mostrando a realidade da história e tentando passar fielmente o que o autor queria comunicar. Espero ter acertado nisso.
Seus desenhos revelam um mundo mágico, de personagens alongados, traços finos e carregados de detalhes. A que se deve esse estilo e como se dá seu processo de criação?
Rafael Antón. É uma necessidade de ser o mais expressivo possível, não só nos rostos, mas nos corpos, no movimento. Sou um amante do desenho animado de qualidade. Adoro criar personagens! Acho que no mundo infantil vale tudo, desde que se transmita sentimentos. A obra tem que dialogar com a criança. É a única coisa em que penso. Existem renomados e premiados autores que são reconhecidos (admiro algum deles) apenas pelo publico adulto. Eu tento ver pelos olhos de uma criança. Para mim, isso é o mais importante.

Para ilustrar uma obra infantil é preciso fazer uma boa leitura do texto e captar sua essência. Como se dá esse processo de transformar história em desenhos de modo que o texto dialogue com as imagens?

Rafael Antón. Um exercício que pratico na hora de rascunhar é tentar ilustrar o texto de modo que uma hora se possa entender o curso da narração só olhando para as imagens, sem o texto. Esse é o grande desafio. Sou um colecionador de livros de todos os países. Às vezes pego, por exemplo, uma história japonesa e conto para os meus filhos só seguindo a linguagem visual. Isso é basicamente o meu objetivo na hora de ler e reler a narrativa.
Após ilustrar muitas obras infantis, você decidiu publicar o primeiro livro de sua autoria, A Incrível História do Homem que Não Sonhava. Como foi escrever e ilustrar ao mesmo tempo?

Rafael Antón. A minha ideia era escrever e ilustrar uma história para mostrar, não só para as editoras, mas também para as produtoras como um possível curta animado. Sem a ajuda da minha querida amiga Raquel Matsushita, que acreditou na história e que fez um lindo boneco, acho que teria desistido. Penso que a ordem seria rascunhar um roteiro básico fazendo uma abstração das ideias, desenhar e, depois disso, escrever. Penso a história em imagens, como um filme mudo. Escrevo, mas com a ajuda indispensável do desenho. Acho que isso vem da prática do storyboard.

O livro narra uma história repleta de imaginação, misturando sonho e realidade. Como surgiu essa trama?
Rafael Antón. A ideia nasceu de uma pequena HQ que desenhei para uma revista universitária na Alemanha, inspirada em princípio em um filme de Luis Buñuel chamado Simão no Deserto. Sempre achei muito louco e senti curiosidade pelo mundo interior dessas pessoas eremitas que um dia decidem se afastar do mundo para encontrar um sentido na vida na solidão dentro delas mesmas. Há muito tempo, conheci uma pessoa assim. Era um alemão que encontrou o seu paraíso num lugar perdido, quase esquecido do litoral galego. Ele realizava esculturas nas rochas com os materiais que o mar ia deixando. Restos de barcos, ossos de cetáceos, algas… Todo esse material, fruto de inspirações que fui juntando, constituiu a base da minha história, que converti em um conto para crianças. A ideia sempre foi que os próprios jovens leitores interagissem e tirassem as suas próprias conclusões. Como falei antes, pensei a história em imagens, como um filme.
De que maneira se dá sua relação com o storyboard?
Rafael Antón. Meu trabalho, nesse sentido, é pura ilustração. No storyboard eu sigo o roteiro e o converto em imagens como se fosse a lente de uma câmera. O resultado é algo parecido com uma HQ. É um trabalho de criação visual, mas o objetivo neste caso é que o diretor e o câmera se entendam melhor – no caso dos desenhos animados, o diretor e os animadores. No mundo da animação, que eu adoro, também crio cenários (concept design) e personagens, que, depois da literatura infantil, é o que mais gosto.
Muitos de seus desenhos reúnem diferentes técnicas, como nanquim, aquarela, colagens… O que busca nelas e como as escolhe?

Rafael Antón. Normalmente eu vejo quais são as técnicas que melhor podem dialogar com a história. Muitas vezes tento fazer algo novo, que nunca tinha feito até então. Esses procedimentos vêm da minha formação autodidata. Normalmente utilizo uma técnica mista, com muita improvisação e um forte trabalho de desenho como base.

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