Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Sem categoria 14.12.2014 14.12.2014

Quinze anos de ‘As Vantagens de Ser Invisível’

Por Vinícius Costa

Querido amigo,

Estou escrevendo porque ela disse que você me ouviria e entenderia, e não tentou dormir com aquela pessoa naquela festa, embora pudesse ter feito isso. Por favor, não tente descobrir quem ela é, porque você poderá descobrir quem eu sou, e eu não gostaria que fizesse isso. (…) Não estou mandando um endereço para resposta pela mesma razão. E não há nada de ruim nisso. É sério.


É assim que Charlie começa contando sua história em As Vantagens de Ser Invisível (Rocco), romance de Stephen Chbosky que completa 15 anos de lançamento. É através de cartas escritas por ele, endereçadas a ninguém em específico, que acompanhamos os dramas, descobertas, traumas e aventuras dessa história.

Charlie é um adolescente que, após o suicídio de seu melhor amigo, precisa lutar contra a depressão e voltar a conviver socialmente com outros jovens. Na escola, acaba conhecendo os veteranos Sam e Patrick, que serão os responsáveis por estar ao lado de Charlie durante suas descobertas e novas experiências, como o primeiro amor e o primeiro porre.

Stephen Chbosky, na opinião de muitos, escreveu uma obra-prima literária, que cativa os jovens e acaba se tornando “um dos livros favoritos da vida”. Apesar de se tratar de uma história melancólica, com temática pesada à primeira vista, quem leu garante que o título é muito mais que isso e consegue traduzir o que é ser adolescente.

“Além da faixa etária dos personagens, seus conflitos e problemas serem expostos de modo que os jovens consigam se sentir parte daquele universo, Stephen conseguiu fazer com que cada um conseguisse se espelhar nos personagens. Charlie, Sam e Patrick, pra mim, representam todos os adolescentes”, conta a webdesigner Juliana Ribeiro Ravagnani. “Conheci o livro há uns 10 anos, quando vi o título em uma lista sobre livros interessantes que encontrei na internet. Tive que importar, já que no Brasil não encontrei nenhum lugar que vendia naquela época”.

Para o jornalista Guilherme Zambonini, a trama (apesar de se passar nos anos 90) continua sempre atual: “Charlie, Sam e Patrick retratam um pouco daquilo que todo jovem um dia passou ou, com certeza, passará”. Guilherme conta que ter conhecido o livro não foi obra do acaso. “Não acredito no acaso; logo, diria que foi obra do destino mesmo”, relata o jornalista. “Certa vez, perambulando por uma livraria em São Paulo, deparei-me com o livro perdido em uma estante aleatória. Na hora eu não tinha dinheiro, mas havia guardado o nome do livro comigo. Anos mais tarde vi o trailer do filme; foi aí que aconteceu o insight e lembrei do título. Fui imediatamente comprar a minha edição!”.

O fato de a história ser narrada através de cartas, como citado anteriormente, com certeza conquistou o público e acaba por ser um diferencial muito positivo em relação a outros títulos voltados para o público jovem. “Essa sacada é genial, porque eu sou Charlie, você é, e quem lê também. A dramaticidade do enredo não afasta as características do personagem da gente; pelo contrário, aproxima ainda mais. Stephen Chbosky desenvolveu algo tão grandioso e atual que fica difícil não se atrair por toda a história”, conta Guilherme Zambonini.
 
Stephen Chbosky, autor de As Vantagens de Ser Invisível

“A história e o modo como ela é contada são [os elementos] que mais me atraíram quando li o livro pela primeira vez. O modo como o autor escreve o livro, como se o Charlie estivesse escrevendo uma carta diretamente para o leitor, torna tudo muito mais interessante e pessoal”, diz Juliana Ravagnani. “Você acaba criando um vínculo emocional com o personagem, como se ele fosse um amigo seu que estivesse te enviando cartas contando sobre a vida dele”.

AMIZADE ACIMA DE TUDO

As Vantagens de Ser Invisível fala sobretudo sobre a amizade e, apesar de trazer personagens jovens e seus conflitos, cativa pessoas de todas as idades. Prova disso é a adaptação da obra para os cinemas, que traz o ator Logan Lerman (Percy Jackson) como Charlie, Ezra Miller (Precisamos Falar Sobre Kevin) como Patrick e Emma Watson (Harry Potter) como Sam. O filme é um dos favoritos da dona de casa Daisa de Oliveira, de 49 anos.

“Eu assisti por acaso; estava vendo TV, o filme começou, achei interessante e acabei por amar o longa”, ela conta. “É emocionante ver como você consegue superar qualquer coisa quando tem amigos verdadeiros do lado. O filme me emocionou demais nesse aspecto. Eu gosto de assistir porque tenho uma identificação muito grande. Eu consegui, com cada personagem, ter uma identificação: de alguma coisa que eu passei ou vi alguém passar… Me lembra muito a minha adolescência”.

O longa foi dirigido pelo próprio autor, o que fez com que fosse muito elogiado pelos fãs: “A adaptação é uma das únicas (talvez a única) que eu realmente achei fiel ao livro. O elenco, a trilha sonora, a fotografia, a edição de som e imagem, tudo condizia perfeitamente com o que eu tinha imaginado quando li o livro. É muito difícil as adaptações de livros para o cinema serem unanimidade entre os fãs da história, mas nesse caso acho que não deixou nada a desejar para o livro”, argumenta Juliana Ravagnani.
 
Logan Lerman, Ezra Miller e Emma Watson foram escalados para dar vida aos persongens nos cinemas


A história é marcante e traz um misto de emoções a quem assiste ao filme ou lê o livro. “Cada vez que assisto ao filme eu me sinto dentro da trama, e isso me faz sentir vontade de viver. O autor/diretor teve uma capacidade muito grande de, em um filme só, colocar uma série de coisas pelas quais o ser humano passa ao longo da vida. Então ele sempre vai ser atual”, afirma Daisa de Oliveira.

“A sensação é de que a história não termina e que cada um que lê continua à sua maneira”, conta o jornalista Guilherme Zambonini. Já para a webdesigner Juliana Ravagnani, a interpretação das passagens da obra varia de acordo com as fases pelas quais você passa durante a vida: “Eu li o livro algumas vezes, e o interessante é que, todas as vezes que leio, interpreto certas passagens de formas diferentes. As interpretações e mensagens dependem da fase que você vive quando lê. O mesmo vale para a sensação. Mas, em geral, o livro sempre me traz muita reflexão, inclusive com frases e passagens que levo para a vida toda”.

MARCADO NA PELE

O amor pelo livro também é representado por tatuagens. Cheio de passagens replicadas incansavelmente na internet, As Vantagens de Ser Invisível é tão importante para os jovens que foi perpetuado na pele de dois dos entrevistados.

Guilherme Zambonini tem seis livros tatuados entre o pulso e seu antebraço: “Eu digo que se a vida for um livro, a minha são vários. Busco na leitura o prazer de mostrar como a ficção pode ser uma extensão de nossa realidade… ambas caminham juntas. Tenho seis livros ‘voando’ entre o pulso e o antebraço. Um é amarelo e possui um raio no meio (Harry Potter); outro é azul e possui uma nuvem desenhada (A Culpa das Estrelas); os demais estão abertos. Contudo, o de contorno verde é para simbolizar As Vantagens de Ser Invisível. Além disso, tenho uma máquina de escrever tatuada, também no braço, escrito ‘Happiness’ na parte da folha. Os desenhos retratam a minha profissão, a minha paixão pelas palavras e a literatura”.
 
                                                                                                                    Arquivo pessoal
As tatuagens do jornalista Guilherme Zambonini


Juliana Ravagnani tatuou a frase que mais define a história. Basta uma rápida busca pela redes sociais, como o Tumblr, por exemplo, para perceber que é um consenso geral que a tatuagem da Juliana representa mesmo tudo que Charlie nos relata. “Eu tenho uma tatuagem com a escrita ‘feel infinite’ embaixo do osso do ombro direito. Essa frase, para mim, é o que permeia toda a história. Achei fascinante a forma como o autor conseguiu definir perfeitamente bem uma sensação que até então eu não sabia como chamar. Sentir-se ‘infinito’ não significa achar que vai viver para sempre, mas sim viver um momento, estar em um lugar onde você consiga sentir que aquilo ali é tudo o que você precisa e nada mais”.

15 anos depois de sua publicação, As Vantagens de Ser Invisível continua conquistando jovens e adultos com suas palavras. Stephen Chbosky conseguiu retratar toda uma geração que de tempos em tempos se renova, mas que passa pelos mesmos problemas e dúvidas. Assim como Charlie conta no livro, a história de As Vantagens de Ser Invisível é infinita!
 
Somos infinitos!
 
 
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