Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 24.07.2012 24.07.2012

Quando o amor supera o luto

Por Felipe Branco Cruz
 
Os livros do escritor francês David Foenkinos, de 38 anos, possuem um universo particular. Nesse mundo, detalhes que passariam despercebidos para a maioria das pessoas são quase protagonistas da trama.
 
São informações como, por exemplo,  saber a forma como Larousse define a palavra “tapete” ou qual foi o resultado do jogo de futebol quando um personagem decidiu ficar em casa ao invés de sair para correr. “Meus livros não são autobiográficos, mas há muito de mim em cada um deles”, diz o autor.
 
É assim, por exemplo, o livro A Delicadeza, no qual Foenkinos nos conta a história de Nathalie, uma jovem que tinha uma vida feliz até ela ser fatalmente modificada por uma tragédia amorosa.
 
O livro, o oitavo da carreira de David, é um bestseller. Somente na França, ele já vendeu mais de 1,2 milhão de exemplares. 
 
O sucesso foi tanto, que escritor fez o que poucos autores ousam fazer e se aventurou também no cinema. “No verão passado, eu vi muitas pessoas pela praia lendo o livro… achei que tivesse pegado uma insolação!”, lembra.
 
É dele a direção e o roteiro de A Delicadeza do Amor, em cartaz nos cinemas, tendo a atriz francesa Audrey Tautou no papel principal.
 
“Não queria que o filme fosse uma cópia fiel do livro”, explica Foenkinos. “E eu queria que nós víssemos o filme como um trabalho autônomo”, completa. De fato, o filme mantém muito do frescor e do refinado humor do autor. A direção foi compartilhada com seu irmão, Stéphane.
 
Na história, Nathalie, personagem de Audrey, é uma jovem viúva que trabalha em uma filial francesa de uma empresa sueca. Há quase três anos guardando luto pela morte do marido, Nathalie se encantará com Markus, um homem feio e desengonçado, mas extremamente educado, divertido e, assim como diz o título, delicado. A forma como Nathalie e Markus irão se relacionar, no entanto, é o que diverte e encanta nessa história.
Leia a seguir a entrevista que David concedeu ao SaraivaConteúdo com exclusividade:
O autor David Foenkinos 
 
Quando o livro foi lançado, você imagina vender tantos exemplares?

David Foenkinos. Não. Era impossível imaginar tal número. E, além disso, só faz aumentar, e, atualmente, as vendas chegam a aproximadamente 1 milhão e 200 mil exemplares. A Delicadeza é meu oitavo livro, eu não poderia imaginar tanto sucesso. No verão passado, eu vi muitas pessoas pela praia lendo o livro… achei que tivesse pegado uma insolação!

Seus livros são autobiográficos?

David Foenkinos. Meus livros não são autobiográficos, mas há muito de mim em cada um deles. A Delicadeza não é minha história. Eu não conheci o luto de alguém próximo. Mas eu estive gravemente doente na minha adolescência. Conheço essa fase de incerteza de quando retornamos à vida (normal).

Foi difícil dirigir o seu próprio livro?

David Foenkinos. Eu sempre recusei escrever roteiros a partir dos meus livros. Mas este era diferente. Eu desejava continuar próximo aos meus personagens. Era como se eu não tivesse terminado minha história com esta história. Adorei conviver ainda mais com eles por meio do filme, encontrar novas cenas, inventar novas coisas. A filmagem é uma outra coisa. É uma imensa máquina. Demanda uma enorme energia. E depois, havia a pressão: nós estávamos tão satisfeitos que Audrey Tautou aceitou o papel. Era preciso estar à altura.

Muitas pessoas reclamam que adaptações para o cinema não são tão boas quanto os livros. Como preveniu isso?

David Foenkinos. Na França, o livro teve tanto sucesso que ninguém podia ver o filme sem comparar! E eu queria que nós víssemos o filme como um trabalho autônomo. De modo geral, as pessoas consideraram o filme muito fiel. E eu fiquei satisfeito com isso. Mesmo que haja muitas diferenças, é o mesmo universo, o mesmo tipo de humor. Para mim, os dois são autônomos, e se refletem. Eu não queria que o filme fosse uma cópia fiel do livro.

Você pediu para os atores não lerem o livro antes. Por quê?

David Foenkinos. Sim, é verdade. Eu queria que o filme fosse baseado na simplicidade, na emoção. Ler o livro significava obter muitas informações sobre a psicologia dos personagens.

Por que o roteiro é um pouco diferente do livro?

David Foenkinos. Não do ponto de vista da história. A diferença é que eu queria fazer um filme! Eu queria escrever cenas que estivessem completamente dentro do universo do livro mas que fossem cinematográficas. Eu queria me divertir com o cinema. Refleti, por exemplo, sobre todas as formas de expressar a passagem do tempo de uma história que dura oito anos. E, em seguida, um exemplo: no livro, Nathalie pensa muito. No filme, foi preciso criar uma melhor amiga com quem ela pudesse trocar. As diferenças vêm daí. Foi preciso transformar o pensamento em imagens.

Quando escreveu o roteiro, você já estava pensando em Audrey Tautou para o papel principal?

David Foenkinos. Sim! Foi como um sonho. Eu a adoro. Mas, com o meu irmão, conversávamos: ela faz somente um filme por ano! E ela não faz um filme de um estreante há anos. Tanto que era tolo acreditar. Mas ela amou a história. E depois, ela viu o quanto nós estávamos motivados. É preciso saber uma coisa: quando Audrey Tautou nos disse sim, o livro não era de todo um sucesso. Ela quis fazer um projeto simples, atípico, se colocar em risco. É uma atriz muito audaciosa.

Como foram as suas passagens pelo Brasil?

David Foenkinos. Eu adoro! E quero retornar! Tenho muitas lembranças. Fui a São Paulo (inclusive, menciono a cidade no meu filme!), ao Rio, mas também a Salvador, na Bahia, e ao Festival de Paraty – FLIP: foi mágico.

 

Recomendamos para você