Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo HQ 06.06.2013 06.06.2013

Quando as palavras valem mais que mil imagens

Por Andréia Martins*
 
Há um ditado que diz: uma imagem vale mais que mil palavras. A argentina Maitena Burundarena não está tão certa disso. Depois de anos se dedicando aos quadrinhos, reconhecida principalmente pelo sucesso das tiras Mulheres Alteradas, a autora decidiu contar uma nova história, em prosa, sem traços.
 
Segredos de MeninaRumble,no título original–foi publicado em 2011 na Argentina e chega agora ao Brasil. O livro conta a história de uma garota de 12 anos, que cresce em uma família classe média conservadora na Argentina dos anos 1970. Enquanto alguns choram pela morte de Juan Domingo Perón, presidente da Argentina por três vezes e outros levantam as mãos ao céu em agradecimento pelo fim do peronismo, a garota torce por seu país na Copa do Mundo de 1978, realizada na Argentina. Política e futebol, dois dos assuntos preferidos dos argentinos, se misturam às aventuras de uma garota que busca ser feliz.
 
Para os que estão esperando um romance político, Maitena já avisa:“o contexto político aparece como pano de fundo e colabora apenas para dar carga dramática à história”. Na trama, o leitor ainda passeia por tradicionais pontos da capital argentina, como a Avenidadel Libertador, o bairro Sarmiento eas galerias da Santa Fé, que até hoje atraem muitos turistas para suas lojas, entre outros.
 
Ao falar sobre a nova empreitada, a autora conta que resolveu mudar para o romance quando deixou de “encontrar algo novo nos quadrinhos”. Curiosamente, o título do livro é justamente uma expressão tradicional do universo dos quadrinhos.
 
No mundo do HQ, Rumble, nome original do livro, é uma referência ao som da terra vibrando sob os pés, quando um vulcão está prestes a explodir ouquando as pedras rolam por uma ladeira. Em Segredos de Menina, a protagonista se apropria do termo e o usa para classificar coisas que lhe dão frio na barriga. Quando isso acontece, ela diz: “Uau, que rumble!”
 
Maitena diz ter escolhido este título por não ter conseguido pensar em outro melhor. Mas talvez ela mesma tenha sentido “um rumble” ao terminar de escrever o seu primeiro romance, experimentando aquele frio na barriga bem característico de quando fazemos as coisas pela primeira vez.
 
Almanaque: Quando você começou a pensar nesta história? A mudança de gênero foi motivada por algo que os quadrinhos já não preenchiam?
Maitena: Sempre gostei de escrever, mas meu trabalho como desenhista ocupava todo o meu tempo. O que deixei de encontrar nos quadrinhos foi a possibilidade de descobrir algo novo. Depois de tantos anos fazendo a mesma coisa, perdi esse sentimento, que é tão estimulante.
 
A: Qual foi seu maior desafio ao passar dos quadrinhos para um romance?
MB: Há quem diga que uma imagem vale mais do que mil palavras; eu acredito que nem sempre. De todas as maneiras, meus quadrinhos não contavam histórias, mas falavam de temas pontuais, mais como uma coluna jornalística ou um ensaio sobre o cotidiano. Um romance é outra coisa. Não tenho ideia de que coisa é essa, mas é diferente (risos).
 
A: O livro traz protagonistas adolescentes. Foi algo que você já queria fazer? Até para alcançar um público diferente de Mulheres Alteradas?
MB: Não. Especialmente porque Mulheres Alteradas tem muitos leitores adolescentes. Foi mais uma obviedade, no entanto, inconsciente: escrevi um primeiro romance que é também um romance de iniciação e seu personagem tem a idade de quem está começando a vida.
 
A: A história se passa na década de 70, anos politicamente agitados na Argentina. Foi também a época de sua adolescência. Qual é sua principal recordação desse período?
MB: O ambiente clandestinamente agressivo, cheio de coisas que não eram faladas, a sensação de perigo latente e, o pior, estar acostumado a isso. E levar a vida de todo o dia com total normalidade…
 
A: Com esse pano de fundo, você optou por dar pouco destaque ao clima político. Por quê?
MB: Pensei que estivesse escrevendo uma história de aventuras, nunca pensei que acabaria escrevendo sobre religião e política, que sãoelementos presentes na história, mas não o tema central. Este clima dá ao romance uma cor obscura e opeso dramático das fotos em preto e branco.
 
A: O texto é muito descritivo, tanto com relação aos personagens quantocom relação aos cenários. Isso foi algo que você trouxe da prática de desenhar, detalhar as pessoas e locais, ou foi um recurso estilístico?
MB:Quando eu era criança, queria ser cenógrafa. Gostava da ideia de armar a cena, a ambientação, colocar os personagens, vesti-los… Por muito tempo fiz isso com os desenhos, e agora faço com as palavras. Sou autodidata. Fui com os desenhos e sou com a escrita. Não tenho muito claro como se fazem as coisas, vou fazendo sem saber como se chamam.Não me dou conta de que é um recurso ou um estilo, até que me digam.
 
A: Para escrever Segredos de Menina você buscou alguma referência especial na literatura?
MB: O melhor de escrever Segredos de Menina, ou quase o melhor, foi ler mais de 50 livros em que o protagonista era um adolescente. Muitos extraordinários.Mas os que mais me ajudaram a avançar foram Frankie e o Casamento, de Carson McCullers, O Apanhador no Campo de Centeio, de J.D. Salinger, e Foi Um Ano Ruim, de John Fante. Que fique claro que o meu está a um milhão de anos-luz de qualquer um deles, mas vale a intenção de querer estar à altura. Stephen King também me ajudou muito com seu maravilhoso manual de escrita, On Writing.

A: Você tem escritores preferidos?

MB:Não tenho autores preferidos. É como a música, em cada época, diferentes nomes me acompanham. Todos são favoritos em seu momento e vão sempre dando lugar a novos favoritos.Cesare Pavese, JosephConrad, RobertoBolaño, Mario Levrero eRodolfoFogwill são alguns desses nomes. No Brasil, gosto muito de Rubem Fonseca.
 
A: Tem algo pessoal na citação de León Bloy que abre seu livro: “Tudo o que acontece é adorável”?
MB: Sim. É uma frase que meu pai me disse quando eu tinha 17 anos. Naquele momento, não entendi, e isso me incomodou muito, porque não podia compreender que algo terrível pudesse ser bom. Mas, com o tempo e olhando as coisas em perspectiva, aprendi a aceitar que sempre acontece o que tinha que acontecer, ainda que haja exceção, certo? Mas continuo achando que algumas coisas seria melhor que nunca tivessem acontecido.
 
Capa do livro Segredos de Menina, primeiro romance da argentina Maitena

A: Mãe e filha têm uma relação complicada no livro. Embora pareçamse odiar, elas são necessárias uma à outra?

MB: Uma filha sempre precisa de sua mãe, especialmente aos 12 anos. No caso da mãe da protagonista, creio que ela não precise de sua filha; gosta dela, mas é apenas mais um de seus muitos filhos, e a maternidade pesa. Para ela foram os filhos que a impediram de fazer a sua vida. Por isso ela está farta, quer que vão todos embora de uma vez por todas ou que se casem, que era a maneira de os filhos saírem de casa nos anos 1970.
 
A: Você pensa em uma continuação para o romance ou já programa outro livro?
MB: Tenho uma ideia de continuação para essa história porque o final ficou em aberto. Nesse romance eu tinha uma direção tão precisa do que queria que o livro quase se escreveu sozinho, mas de acordo com o meu espírito rebelde, agora, vou tratar de escrever algo sobre o que eu saiba menos, algo que me coloque de frente a um desafio maior.
 
A: Com o sucesso de Mulheres Alteradas, você nunca pensou em adaptá-la para a TV ou cinema?
MB:Fizeram um quadro diário na Espanha, no canal La Sexta, que durou três temporadas, e no Brasil, há duas montagens teatrais, Mulheres Alteradas, já com bastante sucesso, e Superadas, que está em andamento. A produtora brasileira O2 comprou os direitos para fazer um filme de Mulheres Alteradas. Na Argentina tive muitas ofertas, mas nunca quis passar os personagens da história em quadrinhos para outro formato porque tenho medo de que o resultado não me agrade e que meus vizinhos todos vejam e comentem comigo.
 
A: A volta aos quadrinhos é incerta neste momento?
MB: Por enquanto não tenho vontade, mas quem sabe. A vida é tão imprevisível. Prefiro não comentar, pois sempre que digo que não vou mais fazer algo, depois vou lá e faço exatamente o que neguei. Disse que jamais voltaria a deixar meu cabelo comprido (sobretudo depois de certa idade) e olhe pra mim agora! (risos)
 
*Entrevista originalmente publicada no Almanaque Saraiva – Edição de Junho de 2013
 
 
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