Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 15.12.2014 15.12.2014

Quando a biografia vai ao cinema

Por Gabriela Reis
 
De tempos em tempos o cinema nacional elege os mortais que entrarão no panteão dos biografados. Este ano não foi diferente, e as lentes trouxeram o presidente Getúlio Vargas, o carnavalesco Joãosinho Trinta, o escritor Paulo Coelho, a voz potente de Tim Maia e o “Anjo bom da Bahia”, Irmã Dulce. Uma safra mais generosa para a corrente ficcional cinematográfica.
 
Esse universo já rendeu produções como Cazuza: O Tempo Não Pára (2004), Olga (2004), 2 Filhos de Francisco: A História de Zezé Di Camargo & Luciano (2005) e Meu Nome Não É Johnny (2008). Vicente Amorim, diretor de Irmã Dulce, explica que o biopic passou a ser visitado com frequência devido à abertura do mercado e ao florescimento da indústria. “Os produtores estão passando a olhar para todos os gêneros, e este é um que, tradicionalmente, funciona razoavelmente bem na bilheteria”, afirma.
 
Dados da Agência Nacional do Cinema (ANCINE) acumulados até 26 de novembro colocam duas cinebiografias no top 10 de longas-metragens brasileiros lançados comercialmente em salas de exibição em 2014: Tim Maia e Getúlio, ficando atrás de comédias como O Candidato Honesto, de Roberto Santucci, e do policial Alemão, de José Eduardo Belmonte.
 
O ranking ajuda a exemplificar o que Paulo Sérgio Almeida, diretor do Filme B, portal de coleta e análise de informações sobre o mercado cinematográfico, destaca serem os “três ciclos com mais possibilidades comerciais” no Brasil: comédia, violência urbana e cinebiografia.
 
Se o subgênero tem espaço cativo, há um porquê. Em seu sentido amplo, a biografia está diretamente ligada à cultura do país e à memória. Ao sair a campo com a ideia de levar a vida de Joãosinho Trinta às telas, o cineasta Paulo Machline se deparou com pouco material de pesquisa. Para driblar a escassez, produziu sua própria. Gravou mais de 80 horas de entrevistas com o carnavalesco e pessoas de seu convívio, o que gerou o documentário A Raça Síntese de Joãosinho Trinta (2009).
 
“Ele é na realidade o que eu chamo de ‘documentário acidental’; eu queria fazer um filme baseado em fatos reais. A partir dessa pesquisa, fiz o primeiro roteiro, mas não consegui levantar um centavo para o filme”, diz Machline. Os produtores Joana e Matias Mariani, da Primo Filmes, entraram no projeto e sugeriram o documentário. Após sua estreia, o plano de fazer uma cinebiografia ficcional teve novo fôlego, dando origem a Trinta.
 
BOOM DE MEMÓRIA
O interesse em biografias já havia sido observado pelo professor Jesús Martín-Barbero. O “boom de memória”, como ele mesmo identificou, é visto na valorização da moda retrô, na restauração dos velhos centros urbanos, na expansão dos museus e na procura por biografias e autobiografias.
 
                                                                                                                   Julia Schmidt
Cena de Trinta
 
Felipe Pena, em seu livro Teoria da Biografia Sem Fim, comenta: “No ritmo alucinante da contemporaneidade, com mudanças aceleradas e dissolução de certezas e referenciais, recorrer à memória é mais do que uma compensação. É uma tentativa desesperada de encontrar alguma estabilidade diante da reordenação espacial e temporal do mundo”.
 
A pesquisadora e doutora em Cinema pela ECA/USP, Ilana Feldman, complementa a questão apontando para a hipertrofia do espaço privado e a valorização de uma experiência que seja tomada como verdadeira. Segundo ela, os fenômenos também esclarecem a disseminação de reality shows, a apropriação das imagens amadoras pelo telejornalismo e o sucesso do cinema brasileiro de motivo realista.
 
A relação de identificação e projeção com personagens reais contribui ainda, na visão de Feldman, com o interesse em cinebiografias. A roteirista e produtora de Não Pare na Pista: A Melhor História de Paulo Coelho, Carolina Kotscho, desenvolve pensamento semelhante e afirma que o filme realmente acontece quando as pessoas se envolvem e se identificam com a narrativa.
 
Cena de Não Pare na Pista: A Melhor História de Paulo Coelho
 
“Qualquer público gosta mesmo é de boas histórias e de histórias bem contadas. Contar a história de um personagem real e conhecido do público, como regra, ajuda na viabilidade do projeto e na promoção do filme. Mas, em minha opinião, o que realmente importa é a identificação do público com o personagem ou com algum aspecto da história, de tal maneira que seja impossível sair da sala sem carregar algum tipo de emoção”, opina.
 
Se o roteiro contar com pitadas de superação, melhor. 2 Filhos de Francisco: A História de Zezé Di Camargo & Luciano, do qual Kotscho assina o script, revelou a infância humilde da dupla sertaneja título até a consagração nacional. “Todo mundo achava que 2 Filhos de Francisco jamais poderia dar certo. Diziam que o público de cinema não gostava da música deles e o público deles não frequentava as salas de cinema. E foi a maior bilheteria em 30 anos no Brasil”, conta.
 
O longa-metragem ocupa a sétima posição na listagem de filmes brasileiros com mais de 500.000 espectadores (1970 a 2013) da ANCINE – 5,3 milhões de pessoas o assistiram. “Personagens populares, com trajetórias bem-sucedidas, provindos de um universo social e cultural ainda pouco representado pelo cinema brasileiro (o interior do centro-oeste), aliados a uma extrema competência narrativa, contribuíram para o sucesso de público”, indica Feldman ao citar os motivos de êxito do longa.
 
ASTROS DA MÚSICA
Basta uma consulta rápida ao passado para notar que os astros da música são fontes de inspiração. Exemplos disso são os já citados Cazuza: O Tempo Não Pára, 2 Filhos de Francisco: A História de Zezé Di Camargo & Luciano, Tim Maia e também Gonzaga: De Pai Pra Filho (2012), sobre a relação entre o sanfoneiro Luiz Gonzaga e seu filho, Gonzaguinha, e Somos Tão Jovens (2013), que trouxe a juventude do cantor Renato Russo.
 
Para o próximo ano, a previsão é que a pimentinha Elis Regina ganhe as telas. Com direção de Hugo Prata e roteiro de Nelson Motta e Patricia Andrade, a cantora faria 70 anos em 2015, e a intenção da produtora Zulu Filmes é presentear os fãs.
 
“A música brasileira é uma das criações mais relevantes do nosso país. O fato de existirem vários filmes brasileiros sobre a nossa música é uma das constatações dessa relevância. Ela inspira não só cineastas, mas todos nós”, diz Daniel Augusto, diretor de Não Pare na Pista: A Melhor História de Paulo Coelho, que gostaria de ver uma cinebiografia de Caetano Veloso.
 
No teatro, Cássia Eller – O Musical, Cazuza – Pro Dia Nascer Feliz, O Musical, Elis, A Musical, Rita Lee Mora ao Lado e Tim Maia – Vale Tudo reforçam o coro da onda biográfica – que veio para ficar.
 
                                                                                                                    Priscila Prade
Cena de Rita Lee Mora ao Lado
 
O ano de 2015 reserva para os palcos Simbora, O Musical – A História de Wilson Simonal, sobre o cantor dos clássicos Nem Vem que Não Tem, País Tropical e Sá Marina, em janeiro no Rio de Janeiro. A “Madrinha do Samba” Beth Carvalho é outro nome que terá uma montagem para chamar de sua. Tudo indica que o espetáculo entrará em temporada em junho no Teatro Maison de France, na cidade maravilhosa.
 
“Seja na música, seja na arte popular ou na política, pessoas que conseguem mudar alguma coisa merecem ser biografadas”, defende Machline. As possibilidades são muitas, o que garante uma vida longa à biografia!
 
 
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