Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo HQ 26.07.2013 26.07.2013

Quadrinhos e literatura: adaptações e diálogos

Por Cristina de Oliveira
Não é de hoje que os quadrinhos adaptam obras literárias, mas com a inserção das HQs no Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE), essa produção atraiu muitas editoras e autores.
Desde as adaptações mais clássicas até as que inovam no uso da linguagem ou na abordagem do enredo, há inúmeras opções. Mais do que transposição de obras, a relação quadrinhos-literatura pode desenvolver diferentes formas de contar histórias, aproveitando o potencial que cada arte traz em si.
Veja algumas adaptações e diálogos entre literatura e quadrinhos com interessantes propostas de construções narrativas.
NARRATIVAS EM INTERSECÇÕES
Com foco na busca por inovações narrativas e na recriação de elementos clássicos, encontra-se a HQ Peter Pan, uma releitura do quadrinista francês Régis Loisel voltada ao público adulto.
No primeiro volume, Pan é um menino que vive nas ruas decadentes e sujas de Londres no final do século XIX. Após ser transportado para uma ilha habitada por fadas, sereias e outros seres mágicos, o garoto enfrenta aventuras recheadas de perigos. O traço estilizado de Loisel, combinado a uma composição energicamente cinematográfica, confere um ritmo intenso à obra.
Loisel revitaliza Peter Pan numa versão adulta
Outra obra que merece destaque é a série Sandman, de Neil Gaiman, cujo diálogo com a literatura produziu verdadeiros clássicos em quadrinhos.
Um bom exemplo são duas edições em que Gaiman retoma o universo criado por William Shakespeare. Uma delas é Terra dos Sonhos, com “Sonho de uma Noite de Verão”, na qual o dramaturgo inglês em pessoa apresenta a peça homônima, feita sob encomenda para o Lorde Morfeus, personificação do regente do reino dos Sonhos; a outra é Despertar.
Nessa narrativa, Shakespeare vira novamente um personagem dos quadrinhos, dessa vez para cumprir uma promessa feita a Morfeus e escrever a peça A Tempestade.
Nessas duas obras, o traço de Charles Vess dá vida ao roteiro complexo e dialógico de Gaiman. As histórias se complementam e nos trazem outras perspectivas sobre os enredos originais.
Aliás, será que, de fato, Shakespeare não recebeu uma mãozinha de Sandman em seus sonhos para conseguir escrever suas grandes obras (e, por conta disso, teve que pagar um preço alto)? Vale conferir.
Numa proposta inovadora, Carlos Ferreira (texto) e Rodrigo Rosa (ilustração) fizeram uma livre adaptação da última parte do romance de Euclides da Cunha, Os Sertões – A Luta.
A obra é resultado de uma extensa pesquisa e de um trabalho elaborado, expressando o horror do conflito numa densa narrativa texto-visual.
Com referências históricas e literárias, o enredo não segue ao “pé da letra” o texto de Euclides, mas mais do que isso, personifica na arte gráfica a crueldade da batalha travada no árido sertão. Detalhe: Euclides da Cunha também se torna personagem da trama e ajuda a contar a história de Antônio Conselheiro.
Os Sertões – A Luta, 2011, Editora Desiderata
ADAPTAÇÕES, ENREDOS E OUTRAS VEREDAS
Na linha das adaptações em quadrinhos mais próximas dos enredos originais, há publicações que transcendem e acrescentam elementos interessantes à obra literária, construindo um novo olhar sobre ela.
Esse é o caso da adaptação do conto A Metamorfose, de Franz Kafka, feita por Peter Kuper. Nela, Kuper amplifica a voz do autor tcheco, somando a esta uma construção gráfica igualmente insólita.
Os recursos dos quadrinhos ajudam a construir a atmosfera bizarra do texto literário e nos convidam a mergulhar no universo kafkiano.
Destaque para o jogo entre texto e ilustração, como no trecho em que o inseto Samsa caminha pela página, juntamente com as letras, contorcendo-se entre traços estilizados e jogos de claro e escuro. O leitor que acompanha a narração parece assumir a identidade do inseto.
Kuper usa o espaço gráfico para traduzir a atmosfera kafkiana
O romance de Bram Stoker ganha novas cores e ambientação, com forte influência da pintura, na versão feita para Drácula por Luis Scafati, desenhista e artista plástico argentino.
Scafati traz para a história do tradicional vampiro elementos da pintura pós-expressionista de Francis Bacon, dos desenhos de Toulouse Lautrec, de elementos das obras Les Demoiselles d’Avignon e Guernica, de Picasso, dentre outros. Os traços são acompanhados de um texto que mantém a característica epistolar presente na obra original (trechos de cartas e diários).
Já o humor é a linha escolhida por Caco Galhardo para trazer aos quadrinhos passagens da obra Dom Quixote, de Miguel de Cervantes.
A história do visionário cavaleiro andante ganha tons coloridos e traços que remetem aos desenhos animados, o que, aliás, tem tudo a ver com a construção de Galhardo para o universo quixotesco. A cena do moinho não poderia ficar de fora, e a “piração” do cavaleiro ganha páginas inteiras de intensos jogos de imagens, linhas e formas.
Dom Quixote, 2005, Caco Galhardo, Editora Peirópolis
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