Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 24.05.2012 24.05.2012

Quadrinhos argentinos, muito além dos três “M”s: Mafalda, Macanudo e Mulheres Alteradas

Por Marcelo Rafael
Cómics, historietas, tebeos. As “histórias em quadrinhos” têm muitos nomes em espanhol, e o nosso país vizinho está cheio delas.
 
No final do século XIX, assim como no Brasil, a Argentina viu a área de charges e caricaturas políticas e sociais evoluir, no século XX, para uma indústria mais organizada de quadrinhos propriamente ditos. Mesmo assim, poucos conseguiram fazer sucesso no Brasil.
O público nacional conhece apenas os três “M”s argetinos: Mafalda, de Quino, Macanudo, de Liniers, e Mulheres Alteradas, de Maitena.
 
Seja em álbuns impressos, na seção de quadrinhos dos jornais ou em tiras pela internet, esses três conjuntos de personagens são bastante apreciados por aqui.
Algumas publicações recentes, no entanto, vêm mudando esse panorama e ampliando o número de quadrinhos argentinos nas prateleiras nacionais.
Títulos como Che – Os Últimos Dias de um Herói e Gaturro já foram traduzidos para o português. Outros, como La Nariz, não.
 
Mas, se há tanta produção do lado de lá da fronteira, por que ela não chega até este lado? O jornalista e pesquisador de quadrinhos Paulo Ramos especula que a enxurrada de produções norte-americanas contribui para isso. “Os trabalhos que conseguiram furar esse esquema, em sua maioria, são europeus”, afirma.
Cláudio Martini, editor da Zarabatana Books, concorda. Ele considera que é mais fácil para uma editora brasileira publicar quadrinhos norte-americanos e europeus por serem mais conhecidos do que os produzidos por lá.
 
“Já existem canais de transação com agentes [no caso de títulos dos EUA e da Europa] pra você negociar direitos com autores e editoras, o que não existe no caso dos argentinos”, diz Martini.
A Zarabatana publica quadrinhos argentinos desde 2007. Em 2008, trouxe para o Brasil o primeiro volume de Macanudo, de Liniers.
 
Em seguida, vieram Batu, do cartunista Tute, Noturno, de Salvador Sanz, e a antologia Fierro, que inclui artistas brasileiros. Este ano, a editora lançou Dora, uma graphic novel baseada em profunda pesquisa sobre a II Guerra Mundial.
Fierro, que teve seu segundo número nacional também lançado este ano, é produzida mensalmente na Argentina e conta com mais de 30 autores. “É uma vitrine do que está sendo produzido por lá e reúne várias gerações de roteiristas e desenhistas”, conta Martini.
Jefferson Lima, também pesquisador de quadrinhos, acredita que outra barreira para as publicações argentinas seja a tradução do humor. “As especificidades das piadas muitas vezes não têm uma facilidade tão grande de adaptação, características dos costumes mesmo”, afirma.
 
Além de ter conhecido Quino na pré-adolescência, Lima já leu os trabalhos Boogie, el Aceitoso e Inodoro Pereyra, de Fontanarossa. “Gostei muito mais do Inodoro, por fazer piada com a ideia do Gaucho (argentino, não o do Rio Grande do Sul)”, conta.
Divulgando pela internet
Muito do que Lima conhece dos trabalhos argentinos, ele conheceu pela internet. E esta tem sido usada como ferramenta de divulgação a ponto de batizar um autor.
Pablo Holmberg, criador de El Señor del Kiosco, registrou um domínio como www.kioskerman.com em referência a suas tiras. Acabou ficando conhecido como Kioskerman.
O autor já veio ao Brasil, participando da Feira Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte, e publicou Éden, uma coletânea de tiras intimistas e de humor que conseguiram romper a barreira da piada local, citada por Lima.
Acostumado a ler quadrinhos desde norte-americanos a japoneses, passando por europeus, Kioskerman se diz acostumado a várias linguagens e escreve de acordo com o que está sentindo no momento.
 
“Creio que Éden transcendeu fronteiras porque realmente me propus a isso. Queria que Éden fosse uma tira universal, que tocasse temas que pudessem ser entendidos por todos, que não fosse de costumes”, conta Kioskerman. Seus quadrinhos hoje são publicados em inglês, português e francês.
 
 
Página de Éden
 
Eternauta e os Kirchner
 
Um título que figura nas páginas de Cultura e também na de Política dos jornais é O Eternauta, publicado este ano pela Martins Fontes aqui no Brasil, em formato encadernado.
“A figura do Eternauta já integra a cultura do país, assim como Mafalda”, afirma Paulo Ramos. Símbolo da luta do bem contra o mal, de um ser humano batalhador, o personagem foi absorvido por um movimento pró-Cristina Kirchner e, após a morte de seu marido e ex-presidente, Néstor Kirchner, o personagem acabou se fundindo com Néstor.
O rosto do ex-presidente trajando as vestes do Eternauta pode ser visto em graffitis em Buenos Aires e na capa de La Cámpora – historia secreta de los herederos de Néstor y Cristina Kirchner, livro que conta os bastidores do grupo que hoje não somente apoia, como ocupa cargos no governo da presidente vizinha.
Paulo Ramos acredita que a história tem grande chance de sucesso entre o público adulto. “Acredito que irão se surpreender com o fato de uma história em quadrinhos assim, adulta e tão bem escrita, ter sido produzida na Argentina no final da década de 1950”, afirma.
Condorito
 
Um personagem que conseguiu certo destaque no Brasil foi Condorito, graças ao aumento da renda do brasileiro e ao maior número de viagens para o exterior.
 
Passeando por Buenos Aires ou visitando a Bolívia ou o Peru, muitos brasileiros veem e compram os gibis do Condorito, imaginando se tratar de um quadrinho do país onde se encontra.
 

Mas, ao contrário do que muitos pensam, esse personagem não é nem argentino nem boliviano ou peruano, mas sim, chileno.

Símbolo dos Andes, o condor foi transformado em um personagem carismático pelo cartunista René Ríos Boettiger, conhecido como Pepo, em 1949.
 

Chateado com a escolha de um avião como personagem nacional pela Disney, como parte da “Política de Boa Vizinhança” dos EUA do pós-Guerra, Pepo decidiu criar, por conta própria, o Condorito. Essa mesma política estrangeira da Disney nos deu o personagem Zé Carioca.

 
A primeira versão traduzida do Condorito foi lançada no Brasil em 1982. Hoje suas histórias são publicadas em 77 jornais de 13 países, incluindo os EUA.
 
 
 
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